247 – Embora a cannabis e seus derivados estejam se tornando cada vez mais potentes e acessíveis globalmente, consumir o dobro de THC (tetra-hidrocanabinol) não deixa o usuário duplamente “chapado”. A conclusão é de um novo estudo liderado por Isabella Goodwin, pesquisadora de pós-doutorado em Neurociência do Vício na Australian Catholic University, e Amir Englund, pesquisador de Ciências Farmacêuticas no King’s College London. A pesquisa revela que, embora doses maiores aumentem a sensação de intoxicação, o efeito não cresce em linha reta, uma descoberta crucial para orientar usuários novos e esporádicos.
Publicado na revista Neuroscience and Biobehavioral Reviews, o estudo combinou dados de 41 pesquisas anteriores, totalizando 1.020 participantes que consumiam cannabis menos de uma vez por semana. Os cientistas compararam os relatos de pessoas que receberam doses conhecidas de THC com aquelas que receberam um placebo (já que a mera expectativa de consumir THC pode causar uma leve sensação de alteração).
A matemática do efeito
Os pesquisadores analisaram os efeitos da inalação de uma “Unidade Padrão de THC” (5mg), uma métrica proposta de forma semelhante à dose padrão de álcool. Em uma escala de 0 a 100 pontos, descontando o efeito placebo, a dose de 5mg de THC aumentou a sensação de estar “chapado” em 34 pontos. Também elevou o cansaço (26 pontos) e a ansiedade (14 pontos), enquanto derrubou o contentamento (-71 pontos) e o estado de alerta (-40 pontos).
No entanto, ao dobrar a dose de 5mg para 10mg, a intensidade da sensação de estar “chapado” subiu apenas de 34 para 39 pontos — um aumento de meros 15%. Não houve alteração significativa nos níveis de ansiedade, cansaço ou alerta na comparação entre as duas doses. Segundo os autores, esse é um fenômeno comum na farmacologia: a partir de certo ponto, doses maiores de uma substância geram efeitos adicionais cada vez menores.
“Comece baixo, vá devagar”
O THC atua principalmente nos receptores CB1 do cérebro, parte do sistema endocanabinoide, que ajuda a manter o corpo equilibrado e protegido. Usuários inexperientes são os mais propensos a errar na dose, o que pode desencadear efeitos indesejados como paranoia e ansiedade severa.
Os resultados da pesquisa reforçam uma recomendação clássica de redução de danos: “comece baixo, vá devagar”. Ingerir mais THC pode até intensificar levemente os efeitos desejados, mas esses benefícios estagnam rapidamente, enquanto o risco de experiências ruins permanece.
O preço da tolerância
Quando o THC ativa repetidamente os receptores canabinoides, o cérebro se adapta e reduz temporariamente a disponibilidade desses receptores. Esse fenômeno, conhecido como tolerância, exige que o usuário consuma cada vez mais para obter o mesmo efeito, encarecendo o hábito.
Os autores alertam que o sistema endocanabinoide regula funções vitais como sono, apetite, dor, humor e estresse. Estudos de longo prazo mostram que enfraquecer esse sistema com o uso frequente de cannabis de alta potência aumenta os riscos de dependência e problemas de saúde mental em pessoas vulneráveis.
Os pesquisadores ressaltam que o estudo possui limitações, já que combinou metodologias diferentes, variando desde o tipo de THC (herbal ou sintético) até a forma de consumo (cigarros ou vaporizadores). O próximo passo da ciência será testar essas descobertas em ensaios controlados e padronizados.
Brasil 247