Classe C decidirá disputa, afirma especialista

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Meirelles: “As bets tiraram dezenas de bilhões de reais da economia. Era um dinheiro que ia escapando, as pessoas não viam” Gabriel Reis/Valor - 30/3/2026 Alçada ao debate eleitoral, a classe C deverá decidir a disputa do segundo turno presidencial, e compreendê-la poderá fazer a diferença em uma disputa tão apertada. Essa é a leitura do pesquisador e especialista em consumo Renato Meirelles, presidente do Instituto Locomotiva e autor de “Brasil da Maioria: 25 Anos de Classe C”. Em entrevista ao Valor, ele diz avaliar que a primeira etapa do pleito careceu de discussões que abordassem o dia a dia das pessoas, o que atrapalhou o engajamento do eleitor médio pelas candidaturas. Agora, o desafio do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e do senador Flávio Bolsonaro (PL), aponta, é entender que esse grupo, formado por cerca de 107 milhões de cidadãos brasileiros, é “pragmático”: quer Estado que forneça educação e saúde de qualidades, mas que, ao mesmo tempo, não interfira em escolhas pessoais. Para Meirelles, não abordar tais questões práticas, que impactam diretamente na vida do trabalhador, foi um dos principais erros das duas campanhas no primeiro turno. “Não tinha ninguém falando para essa classe C. Só se falava do [ex-banqueiro e dono do Banco Master ] Daniel Vorcaro e do STF [Supremo Tribunal Federal], não se falava do que era realmente importante para essa classe”, avalia. Contribui para essa análise o crescimento da abstenção em 2026, para 33,4 milhões de eleitores, e a alta rejeição aos dois principais candidatos, afirma. No segundo turno, de olho nos indecisos, as campanhas recalcularam parcialmente suas rotas. Lula intensificou seu “pacote de bondades”, com iniciativas voltadas aos microempreendedores individuais (MEIs), e Flávio recuou e votou a favor da proposta de emenda à Constituição (PEC) que estabeleceu o fim da escala 6x1. “Eles se voltaram a propostas que dialogam com a necessidade de tempo dessas pessoas”, diz o pesquisador. “Agora, tem também uma discussão sobre qual é a melhor saída para a violência. Se a solução é à esquerda ou à direita [não importa], há o debate. A pauta está na mesa, as pessoas começaram a discutir política.” A classe C não é de esquerda nem de direita, ela é pragmática” Assimilar - e traduzir - esses anseios é algo que, para ele, deveria estar na ponta das preocupações das candidaturas, em especial nesta reta final. “É importante entender que a classe C não é de esquerda nem de direita, ela é pragmática”, diz o pesquisador. “Ela quer um Estado grande quando precisa de escola, de oportunidades, de hospital, mas também quer um Estado que não atrapalhe a vida dela quando quiser abrir um negócio”, pondera. Dada sua dimensão, com quase metade da população brasileira, a classe C estudada por Meirelles é, claro, heterogênea, mas é possível estabelecer algumas confluências. No primeiro turno, por exemplo, ele cita que os homens, que passam por um sentimento de “perda de protagonismo” na família, e os jovens, que veem as políticas sociais como naturalizadas, votaram majoritariamente em Flávio, ao passo que mulheres, principais usuárias dos benefícios sociais e da estrutura pública, e os idosos, que ascenderam da pobreza em mandatos petistas, optaram pela reeleição de Lula. Estudioso da classe desde o seu crescimento, durante a gestão Fernando Henrique Cardoso (PSDB), nos anos 1990, Meirelles aponta que Lula demorou para entender que o maior ativo econômico da classe C, hoje, é o tempo e que, embora os números da macroeconomia tenham melhorado, esses dados não foram traduzidos para o cotidiano do brasileiro. Para ele, que colabora para o Conselho de Desenvolvimento Econômico Social Sustentável, o Conselhão, do governo federal, essa é uma das principais causas para que o grupo, fidelizado pelo PT nas últimas duas décadas, tenha se distanciado da atual gestão. “É muito difícil você olhar a sensação térmica da economia pela lógica do termômetro economicista do macro”, pondera. Ele cita dados positivos do governo, como redução recorde no desemprego e retomada do aumento real do salário mínimo anualmente, o que não aconteceu na gestão Jair Bolsonaro, mas diz que esse crescimento na renda não foi acompanhado por ganhos “na prática”. “Esse cara voltou a comprar alguma coisa que ele tinha deixado de comprar? Não, ele não voltou.” Meirelles aponta os dois principais “vilões” para o consumo atualmente: as apostas online, proibidas no final de setembro, e os juros altos, para os quais “o próprio presidente Lula contribuiu”. “As bets tiraram dezenas de bilhões de reais da economia. Era um dinheiro que ia escapando, as pessoas não viam. Só que, na hora, não sobrava mais para dar aquele upgrade [nas compras do fim do mês]”, cita. Atualmente a 13,75% ao ano, o pesquisador também diz que a Selic deixou a sensação de consumo muito mais hostil. “O brasileiro vinha em um processo de pouco dinheiro [circulando] e foi se enrolando na bola de neve por causa dos juros”, diz. “O problema está no cartão? Não, o problema é que o cara não tem poupança, pois não sobra dinheiro para guardar, e a filha fica doente ou perde o emprego, ele usa o cartão como crédito rotativo para ganhar 40 dias para pagar”, completa, contradizendo falas recentes do presidente, com críticas ao cartão de crédito. O pesquisador cita ainda um problema semântico da esquerda ao não conseguir dialogar com parte desses trabalhadores - tanto que grande parte aderiu à candidatura de Flávio ou se tornou apoiadora de outros nomes à direita. “A pessoa foi lá fazer um bico de Uber, chega o governo e fala: ‘Você é um precarizado, você não sabe o que é melhor pra você’. Não faz sentido”, ele exemplifica. “Não está fácil viver. E teve uma parcela do campo progressista que, em vez de se debruçar sobre o tema, decidiu desqualificar o que é uma vontade e um raciocínio econômico, que é as pessoas quererem ser donas do próprio tempo.” Segundo Meirelles, para melhorar a situação de bem-estar é preciso manter a proibição das bets e investir na queda dos juros, independentemente de quem for eleito. Além disso, procurar entender melhor os anseios do novo trabalhador médio. “O tempo é o ativo econômico da classe C”, crava. “O aspiracional dela é ter mais tempo. Não é mais só viajar de avião, não é o iogurte, é ser dona do próprio tempo”, explica.

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