247 – O jornalista e analista geopolítico Pepe Escobar afirmou que o segundo turno das eleições presidenciais brasileiras de 2026 representa uma disputa que ultrapassa a escolha entre Lula e Flávio Bolsonaro. Em análise publicada em seu programa Pepe Café, Escobar sustentou que o resultado das urnas poderá determinar o papel do Brasil na reorganização da ordem internacional e advertiu que uma vitória do candidato bolsonarista atenderia aos interesses de setores do poder econômico e político dos Estados Unidos.
Para Escobar, o Brasil ocupa uma posição na disputa entre a manutenção da hegemonia americana e a consolidação de uma ordem mundial multipolar, impulsionada pela China, pela Rússia e pelos países que integram os BRICS. Nesse contexto, ele considera que uma eventual vitória de Flávio Bolsonaro poderia abrir caminho para a ampliação do controle estrangeiro sobre recursos naturais, setores da economia e decisões estratégicas do Estado brasileiro.
“Se o Brasil cai, não é só a tragédia brasileira para a população brasileira, para o país e para o que o Brasil significa como um poder no Sul Global. É um troféu nesta guerra eterna”, afirmou.
Segundo o jornalista, a importância do Brasil para os interesses internacionais está relacionada à extensão territorial, às reservas minerais, à capacidade de produção de alimentos, aos recursos energéticos e à participação do país na construção de mecanismos de cooperação econômica que buscam reduzir a dependência em relação às instituições financeiras dominadas pelas potências ocidentais.
Escobar argumentou que a capacidade de resistência de países como Rússia, China e Irã à pressão americana aumenta o interesse de Washington pela América Latina. Na sua avaliação, o Brasil seria um dos principais objetivos dessa estratégia, justamente por reunir recursos econômicos e naturais capazes de sustentar a expansão dos interesses geopolíticos dos Estados Unidos.
“A única margem de manobra e, digamos, espaço vital, no sentido de exploração de recursos naturais e de riquezas naturais, é a América Latina e, evidentemente, a cereja no bolo, o Brasil”, declarou. O analista também relacionou essa disputa à atuação de grupos econômicos e empresas de tecnologia na política brasileira.
Segundo sua interpretação, existe uma convergência de interesses entre setores do governo americano, grandes plataformas digitais, agentes do mercado financeiro e parcelas das elites econômicas brasileiras favoráveis à candidatura de Flávio Bolsonaro. Escobar citou especificamente a Meta e outras empresas de tecnologia, que, em sua análise, desempenham um papel na formação da opinião pública e na disputa política.
Ele considera que a influência dessas corporações deve ser compreendida como parte de um processo de concentração de poder econômico, tecnológico e informacional. “O interesse direto do governo americano e a influência direta do governo americano, lado a lado com as Big Techs, os tecno feudalistas, especialmente Meta, mas também os outros, a antiga classe dominante entreguista brasileira, mais a nova classe paralela dominante entreguista brasileira”, afirmou, ao descrever os setores que, segundo ele, estariam interessados no resultado eleitoral.
Na avaliação do analista, o objetivo econômico dessa convergência seria ampliar a presença do capital internacional em setores estratégicos do Brasil, com consequências para a autonomia do país na definição de suas políticas de desenvolvimento. “Já que não foi possível na China, não será possível na Rússia, não vai ser possível no Irã, mas tem que ser possível no Brasil”, afirmou, referindo-se à possibilidade de subordinação econômica desses países aos interesses ocidentais.
Escobar sustentou ainda que uma eventual vitória de Flávio Bolsonaro poderia aproximar o Brasil da orientação internacional adotada pelo governo de Javier Milei, na Argentina. Para ele, o alinhamento entre os dois maiores países da América do Sul e Washington alteraria a correlação de forças no continente e reduziria a capacidade regional de desenvolver iniciativas econômicas e diplomáticas independentes dos Estados Unidos.
“Com o Brasil, mais uma vez, no sentido de Brasil e Rússia têm tudo, a Rússia tem tudo. O Brasil, em um outro nível tropical, também tem tudo.
Eles vão ao Brasil e tomar literalmente tudo”, declarou. O jornalista vinculou essa possibilidade ao processo de reorganização das relações internacionais, no qual os BRICS procuram ampliar os instrumentos de financiamento, comércio e cooperação entre países do Sul Global.
Segundo ele, a participação brasileira nesse processo representa um obstáculo aos setores que pretendem preservar a centralidade dos Estados Unidos na economia mundial. Escobar argumentou que o projeto de um mundo multipolar pressupõe a existência de diferentes centros de poder econômico e político, conectados por relações de cooperação.
Nesse cenário, o Brasil poderia exercer influência por meio de suas relações com a China, a Rússia e outros países emergentes, sem restringir sua política externa às prioridades de Washington. A possibilidade de uma mudança de orientação do governo brasileiro, portanto, teria consequências que ultrapassariam as fronteiras nacionais.
Para o analista, a perda de autonomia do Brasil também afetaria a capacidade de articulação dos países que buscam construir alternativas à ordem internacional liderada pelos Estados Unidos. Ao tratar da reta final da campanha presidencial, Escobar advertiu que os setores interessados em uma vitória de Flávio Bolsonaro não devem ser subestimados, mesmo diante de avaliações que apontam uma recuperação eleitoral de Lula.
O jornalista afirmou que existem duas interpretações sobre o momento político brasileiro: uma considera que a virada eleitoral do presidente já aconteceu; outra sustenta que a disputa continua aberta e que os interesses econômicos envolvidos permanecem mobilizados. “Há duas interpretações em choque total.
Uma delas é de que a virada já aconteceu. Muito perigoso.
Viradas políticas tomam tempo. Viradas políticas em uma semana, duas semanas, são bastante raras”, alertou.
Segundo Escobar, a força política de uma candidatura não pode ser avaliada exclusivamente pelo desempenho do candidato em debates ou pelas manifestações nas redes sociais. Ele considera necessário observar os grupos econômicos que sustentam cada projeto e sua capacidade de influência sobre o processo político.
“A coalizão de interesses apoiando os representantes desse fascismo eterno não mudou nesses últimos dias. Ela pode ter se retraído um pouco, considerando a mediocridade mais uma vez inqualificável do seu candidato, mas a coalizão continua e os interesses continuam”, afirmou.
O analista também criticou a ausência de discussões sobre soberania, desenvolvimento e inserção internacional nos debates presidenciais. Para ele, a campanha deveria permitir que a população compreendesse as consequências das propostas dos candidatos para a posição do Brasil no cenário mundial.
Ao concluir, Escobar reiterou que o resultado do segundo turno poderá influenciar tanto a política interna brasileira quanto a disputa internacional por recursos naturais, mercados e centros de poder. “Imaginem se eles tomam o Brasil como um troféu.
Eles podem até esquecer o resto”, afirmou, ao sintetizar sua avaliação sobre a importância estratégica do país para os interesses que identifica como integrantes do poder imperial americano. Para o jornalista, a dimensão dessa disputa exige mobilização política até o encerramento da votação, sem antecipar resultados.
“Só se decide literalmente no último minuto”, concluiu, defendendo que a população brasileira compreenda o significado da eleição para a soberania nacional e para o futuro do país no Sul Global.
Brasil 247