Pentágono quer mais US$ 200 bilhões para guerra no Irã, diz jornal; veja os custos dos principais armamentos dos EUA

 

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O Pentágono planeja pedir ao Congresso dos EUA um orçamento suplementar de US$ 200 bilhões, ligado à guerra no Irã, no momento em que o governo do presidente Donald Trump se recusa a fornecer um prazo exato para o fim da ofensiva. A requisição, revelada pelo jornal Washington Post, deve enfrentar resistências na base republicana, ainda mais durante um ano eleitoral e se tratando de um conflito impopular entre os americanos.

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De acordo com o Post, citando fontes no Pentágono, o ponto central do pedido é ampliar a produção de armas consideradas estratégicas, usadas à exaustão nos 20 dias de conflito até agora. Mísseis capazes de perfurar instalações de concreto reforçado ou modelos como o Tomahawk, apontado como a arma que atingiu uma escola em Minab, no sul do Irã, e deixou mais de 170 mortos. Existe a preocupação particular com os estoques de armas defensivas, empregadas não apenas pelos americanos, mas também por seus aliados.

Para conter lacunas imediatas, os americanos realocaram recursos de outras regiões, como a Ásia, para o Oriente Médio: na Coreia do Sul, autoridades veem receio a retirada de baterias de sistemas como o Patriot e o THAAD, apontando para o risco de tornar o país vulnerável. Se a guerra se estender por mais tempo do que as “quatro ou seis semanas” repetidas por Trump, os problemas podem se agravar, especialmente contra armas mais simples e de fácil construção, como os drones do tipo Shahed, empregados pelos iranianos e pelos russos na Ucrânia.

Imagens divulgadas pelo Comando Central dos EUA mostra disparo de mísseis Tomahawk contra navios lançadores de mina do Irã

Reprodução/CENTCOM/X

Em janeiro, quando Trump deixou clara a intenção de atacar o Irã, a Casa Branca propôs aumentar em 50% o orçamento do Pentágono para 2027, chegando a US$ 1,5 trilhão. Segundo o presidente, isso permitiria a criação de um “Exército dos Sonhos”, e ampliaria a capacidade de produção de armamentos e munições, apontada por especialistas como um gargalo para manter adequadamente o estado de prontidão de defesa.

Mas esse não é um processo simples ou rápido. Em janeiro, a Lockheed Martin, fabricante do sistema Patriot, firmou um contrato com o Departamento da Guerra para incrementar a produção dos mísseis do modelo PAC-3 das atuais 600 unidades anuais para 2 mil por ano, meta que, com boa vontade, só será atingida na próxima década. Há questões ligadas ao acesso a materiais para a construção dos armamentos, preparo das linhas de montagem e a disponibilidade limitada de profissionais no setor.

— Injetar muito dinheiro na base industrial não garante que as coisas aconteçam mais cedo, mas com certeza você não vai conseguir nada mais cedo se não investir — disse Elaine McCusker, ex-controladora interina do Pentágono, que agora analisa o orçamento de Defesa no American Enterprise Institute, ao Washington Post.

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Enquanto o novo orçamento do Pentágono está em fase de negociações, Trump quer avançar mais rapidamente com o pacotaço de US$ 200 bilhões, sem ter a certeza se o processo será indolor. Para alguns funcionários da Casa Branca, as chances de aprovação nos atuais termos são pequenas. Nos bastidores, democratas prometem barrar a iniciativa, e não está claro como a base governista vai superar resistências da ala pró-austeridade fiscal ou de céticos com a guerra

O governo Trump não comentou. Em entrevista coletiva, o secretário da Guerra, Pete Hegseth, disse que “é preciso dinheiro para matar os bandidos”, sem confirmar o valor do pacote, acrescentando que “vamos voltar ao Congresso e falar com nossos representantes lá para garantir que tenhamos o financiamento adequado”.

— Fizemos algumas estimativas dos custos da guerra com base nos dados limitados disponíveis, mas há uma enorme incerteza, e o Congresso quer saber qual será o valor da conta — disse ao Washington Post Mark Cancian, consultor sênior do Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais (CSIS). — Se o governo pedir mais dinheiro, haverá uma grande batalha política, porque todo o sentimento anti-guerra se concentrará nesse pedido.

Presidente dos EUA, Donald Trump, e secretário de Defesa dos EUA, Pete Hegseth, a bordo do Air Force One

SAUL LOEB / AFP

De acordo com levantamento do CSIS, publicado pelo jornal Guardian, na primeira semana de conflito foram gastos US$ 5,7 bilhões com sistemas de defesa aérea, incluindo o THAAD e o Patriot, cujos mísseis custam entre US$ 3 milhões e US$ 4 milhões, e mais de 800 foram lançados pelos EUA nos primeiros sete dias da "Operação Fúria Épica".

O mesmo estudo apontou que, naquele período, foram atingidos 2,5 mil alvos dentro do Irã, a um custo de US$ 5,5 bilhões — apenas nos mísseis de cruzeiro Tomahawk foram gastos US$ 1,2 bilhão. Somada a perdas em combate e gastos operacionais, a conta de uma semana de guerra foi de US$ 12,7 bilhões. O número é similar ao apresentado pelo Pentágono ao Congresso, US$ 11,3 bilhões semanais, e supera o orçamento anual da FDA, a agência responsável por fiscalizar a qualidade de alimentos e medicamentos nos EUA (US$ 7,2 bilhões). Os cálculos não incluem uma potencial invasão terrestre, algo que segue à mesa.

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Vender essa conta ao eleitorado, mesmo o republicano, promete ser complicado.Na terça-feira, o instituto YouGov revelou que apenas 33% dos americanos são favoráveis à guerra, enquanto 56% são contra. Para 61%, a prioridade deveria ser o fim dos combates, e apenas 32% dizem confiar no presidente — entre os que se declaram independentes, cruciais na eleição de outubro, 63% desaprovam o trabalho de Trump na guerra. A sondagem detectou uma piora na confiança dos eleitores no futuro da economia, com especial preocupação com os custos dos combustíveis.

Na campanha que o levou à Casa Branca, em 2024, Trump prometeu reduzir a máquina federal, e levou ao governo o bilionário Elon Musk, com a meta de cortar os gastos em alguns trilhões de dólares. Mas após demissões que afetaram a capacidade de funcionamento do Estado, cortes em benefícios sociais e em agências como a Usaid, principal braço de assistência internacional dos EUA, os resultados ficaram aquém do prometido. Segundo o portal do Departamento de Eficiência Governamental (Doge), foram poupados US$ 215 bilhões em 2025 — pouco mais do que o Pentágono quer para financiar a nova guerra no Oriente Médio.