Quem ficou ligado até depois da meia-noite, assistindo ao tão aguardado confronto final entre Pazolini e Ricardo Ferraço (o único do segundo turno), pôde acompanhar um bom debate. Mantendo um bom nível de civilidade – certamente bem melhor, por exemplo, que o exibido pelos presidenciáveis no debate da Band –, os dois candidatos ao Palácio Anchieta proporcionaram ao público uma boa oportunidade para conhecê-los melhor e embasar o próprio voto no domingo.
Em matéria de propostas para os próximos quatro anos, o debate pouco evoluiu. Mas houve intensa comparação de projetos, de realizações como homens públicos e, acima de tudo, de perfis individuais...
com direito a muitas “caneladas” de parte a parte, como já era esperado. Tendo chegado atrás no primeiro turno e na última pesquisa Quaest para a Rede Gazeta, Ricardo tomou mais a iniciativa de ir para o ataque.
O atual governador apresentou o adversário como um “oportunista” dado a bravatas, sem maturidade, sem experiência e desprovido de conhecimento sobre a realidade do Espírito Santo. “Realidade” foi uma palavra muito usada por Ricardo, capital em sua estratégia de desconstrução da imagem de Pazolini, sugerindo que o opositor vende ilusões e vive num mundo fantasioso só existente nas redes sociais.
“Na vida real, não é isso que está acontecendo”, disse Ricardo, algumas vezes, enfatizando as três primeiras palavras. Pazolini, por sua vez, buscou apresentar Ricardo como um produto da “velha política” e representante da “política tradicional”.
“É a velha política querendo te enganar novamente, capixaba”. Reiteradamente, o ex-prefeito de Vitória afirmou que eles “tiveram 12 anos pra fazer e não fizeram” (referência ao tempo total, somado, dos três governos de Renato Casagrande com o de Ricardo, iniciado em abril).
O governador apresentou Pazolini como um “lacrador” (vazio de conteúdo), que só faz se apropriar dos feitos do Governo do Estado (por exemplo, os das forças estaduais de segurança no combate à violência).
“O Espírito Santo conhece minha trajetória. Vivo para o trabalho, para fazer entregas e realizações.
Não vivo pra ser lacrador [...] O candidato passa o dia inteiro buscando lacração. Cai na real!”
Ricardo ainda frisou que o adversário, na realidade, promete uma “mudança” e “um novo tempo” que já estão em pleno andamento no Espírito Santo, por obra do atual governo. “Esse ‘novo tempo’ que ele fala que vai acontecer já está acontecendo”, disse.
“Ele fala que vai fazer aquilo que estamos fazendo.” Pazolini, por sua vez, tachou Ricardo como um político das elites e distante do povo (“Só anda de helicóptero”); um governante insensível, a quem faltaria humanidade.
Também classificou o adversário como “despreparado”, “destemperado” e “desqualificado”. “O candidato não entende nada de segurança pública.
Ele recebeu um papel, leu e decorou. Lamentável um candidato com tamanho despreparado...”
O candidato de oposição definiu Ricardo como um “aventureiro” e um “homem de negócios”. E se apresentou como um contraponto: “É a diferença entre futuro e um aventureiro, entre um homem de negócios e um homem de propósito”.
Pazolini ainda chamou o atual governador de “caroneiro”, por ter assumido o cargo tão somente por conta da renúncia de Renato Casagrande em abril: o então governador se desligou para ser candidato a senador; Ricardo, então vice-governador, assumiu o Palácio Anchieta. Segundo Pazolini, a candidatura de Ricardo “depende totalmente” do aliado.
Nesse ponto específico, o candidato do Republicanos foi a uma espécie de “desforra” contra o do MDB, ao se apropriar de um neologismo usado pelo próprio Ricardo contra ele, no mesmo “Bat-local”, durante o debate final da TV Gazeta no primeiro turno. Ricardo, naquela ocasião, chamou Pazolini de “caroneiro”, ao acusá-lo de só se apropriar dos feitos de seus antecessores e do governo estadual.
Voltando ao debate de ontem, Ricardo afirmou várias vezes que Pazolini promete fazer no Espírito Santo o que, na verdade, “não fez em Vitória”. “Aquilo que ele não fez em Vitória ele diz que vai fazer no Estado...”.
Advertiu, ainda, que um governo Pazolini será de “ruptura”, não de “continuidade” e de “aprofundamento” de tais transformações – como ele mesmo promete fazer. “O maior feito dele é dizer que vai terminar o que nós começamos.
Mas o que ele tá propondo é ruptura, não continuidade.” No fim das contas, precisando vencer a partida para virar o jogo, Ricardo adotou uma postura mais “ofensiva” (no sentido de ir para o ataque, tomar mais a iniciativa); teve algumas jogadas contundentes.
Entrando em campo em vantagem, com o resultado do jogo de ida, Pazolini jogou com o regulamento debaixo do braço, ciente de que um empate o favorecia; jogou fechado (e, fisicamente, mais parado), no contra-ataque; também deu algumas boas “espetadas”. No fim das contas, “quem venceu o debate”? Venceu o público, a população capixaba.
Venceu a democracia, que jamais poderá prescindir de momentos como esse. Na linguagem corporal, Ricardo pareceu mais “solto” e à vontade, caminhando mais pelo estúdio desde o início do debate, virando-se constantemente para Pazolini, falando e olhando diretamente para o adversário.
O ex-prefeito de Vitória evitou a todo custo olhar para Ricardo ou mesmo voltar-se para ele. Nas quase duas horas de debate, em nenhum momento fez contato visual com o oponente, levando Ricardo a reiteradamente desafiá-lo: “Olha pra mim, candidato! Olho no olho!”; “Não me olha! Não me encara olho no olho...”
Pazolini não aceitou o desafio. Foi ao estúdio com o firme propósito de só falar olhando para a câmera, dirigindo-se diretamente aos espectadores.
Mesmo quando Ricardo o interpelava, o ex-prefeito mantinha-se com o corpo reto, um pouco “travado”, olhando fixamente para a frente, com os braços colados ao tronco. As regras do debate permitiam que os dois se deslocassem livremente pelo estúdio (não podendo, porém, se tocar).
Pazolini passou o primeiro bloco inteiro com os pés plantados num só ponto. A partir do segundo, possivelmente por orientação da assessoria, passou a caminhar atrás de Ricardo quando este falava, levando o governador a reagir, mais de uma vez: “Não adianta...
Não vai me intimidar!”
A Gazeta