Com a aproximação do Círio de Nazaré, produtores de pato intensificam o planejamento para atender ao aumento da procura pela ave, ingrediente tradicional da culinária paraense. O período representa o principal pico de comercialização do ano e exige meses de preparação, já que um pato leva cerca de 90 dias para atingir o peso considerado ideal para o abate.
Em Vigia, no nordeste do Pará, o produtor Jacyro Macchi Júnior mantém uma granja que funciona desde 1992 e é especializada na criação de patos. Segundo ele, o planejamento para o Círio começa com bastante antecedência e o volume de produção chega a ser triplicado.
“Para o Círio basicamente a gente triplica a produção e depois a gente vai murchando de novo até ficar com o estoque mínimo”, disse.
O produtor explica que o aumento da comercialização começa ainda no período do Dia dos Pais, cresce ao longo de setembro e atinge o pico entre o fim do mês e o início de outubro. Depois do Círio, a demanda diminui gradualmente, embora ainda haja procura para as festas de fim de ano.
Jacyro Macchi Júnior, produtor e vendedor de patos de Vigia. (Foto: Everaldo Nascimento)
Para conseguir atender ao período de maior movimento, o manejo do plantel é ajustado ao longo do ano. “Quando chega mais ou menos em maio, a gente começa a aumentar de novo pra atender a demanda do Círio”, afirma Jacyro. A estratégia leva em consideração o ciclo de aproximadamente três meses das aves.
Preços são mantidos, apesar do aumento dos custos
De acordo com o produtor, o preço praticado atualmente é o mesmo do ano passado, apesar do aumento dos custos de produção, principalmente dos insumos utilizados na alimentação das aves.
“A gente tá praticando o mesmo preço que a gente praticava no ano passado. A gente tá seguindo um congelamento no mercado, apesar dos custos terem aumentado significativamente com o preço dos insumos, insumos das rações dos patos”, relata.
A produção atende diferentes segmentos. Além do pato inteiro congelado, a granja comercializa cortes como peito e coxa e também pato desfiado. Os compradores incluem restaurantes, bufês, feirantes, revendedores e consumidores individuais.
(Foto: Everaldo Nascimento)
Levantamento do Dieese/PA realizado no início de setembro mostra que a oferta ainda era restrita. Nas pesquisas realizadas em 4 de setembro, o pato vivo foi encontrado somente nas feiras do Ver-o-Peso e da 25 de Setembro. As aves pesavam entre 2,5 quilos e 3 quilos e eram comercializadas por até R$ 200 a unidade. Considerando o peso, esse valor corresponde aproximadamente a R$ 66 a R$ 80 por quilo.
No caso do pato congelado, encontrado principalmente em supermercados, o levantamento identificou uma única marca, Germânia, com preços entre R$ 39,95 e R$ 57,99 por quilo. A diferença entre o menor e o maior valor era de R$ 18,04 por quilo, uma variação de 45,16%.
(Foto: Everaldo Nascimento)
Produção ainda se recupera após a pandemia
Apesar da preparação para o Círio, Jacyro afirma que a produção ainda está em processo de recuperação após as dificuldades enfrentadas durante a pandemia de Covid-19.
Segundo ele, o empreendimento chegou a ser reduzido a cerca de 15% do tamanho que tinha anteriormente. A retomada ocorre de forma gradual.
“Na realidade a gente reduziu o empreendimento a 15% do que a gente tinha. Agora a gente tá desenvolvendo de novo, mas vai bem lento”, conta.
Uma das atividades afetadas foi a venda de patinhos de um dia para outros estados. A mudança nas malhas aéreas durante o período fez com que o transporte de animais vivos fosse interrompido, levando à redução dessa parte da produção.
(Foto: Everaldo Nascimento)
Atualmente, o foco está principalmente nos animais destinados ao consumo. Para o Círio deste ano, o produtor afirma já ter estoque regular preparado para a entrega e aves prontas para o abate.
Cuidados sanitários precisam acompanhar aumento da produção
O aumento da demanda também exige atenção redobrada com a sanidade e o manejo das aves. Para o médico-veterinário Odilon José Claudino Soares, professor e diretor-geral do Centro Universitário Anhanguera de Marabá, o crescimento das vendas não deve levar à redução do tempo necessário para a criação dos animais.
A orientação é antecipar o planejamento dos lotes, garantindo que as aves estejam no ponto adequado no período de maior procura. Segundo o veterinário, acelerar artificialmente o crescimento pode provocar problemas metabólicos, excesso de gordura, mortalidade e redução da qualidade da carne.
Entre os principais cuidados estão a manutenção da água limpa, a conservação da cama das aves seca, o controle de acesso às instalações e a prevenção do contato com aves silvestres ou outros animais. Também são importantes o acompanhamento do calendário sanitário, o isolamento de aves doentes e o registro de informações sobre vacinação, tratamentos, origem dos animais e lotes.
O manejo também deve evitar situações de estresse, como superlotação, calor excessivo, barulho e transporte inadequado. De acordo com o especialista, o transporte até o abate é um dos momentos críticos, sendo necessário utilizar caixas apropriadas, garantir ventilação e evitar aglomeração e temperaturas elevadas.
O Liberal