Maria Fernanda Delmas (esq.), do Valor, mediou debate com Nasser Malik, do Citi; Daniel Erikson, da Covington; e Ethan Zindler, da BloombergNEF Vanessa Carvalho/Valor A globalização deve continuar, mas em um cenário de maior fragmentação, formação de coalizões regionais e busca por soberania em determinados setores. Ao mesmo tempo, a expansão da inteligência artificial (IA) traz incertezas sobre produtividade e emprego, aumenta a pressão sobre a infraestrutura de energia e começa a enfrentar resistência de comunidades aos impactos dos data centers, avaliaram especialistas durante o painel “Navegando pela nova economia global”, no Fórum Agenda Global 2026. Daniel Erikson, consultor sênior da Covington e ex-assessor especial da Presidência dos Estados Unidos na gestão Joe Biden, afirmou acreditar na continuidade da globalização, mas disse observar uma retomada da soberania em alguns setores. Para ele, os países podem adotar uma espécie de “soberania à la carte” ou em “sistema de bufê”, escolhendo as áreas em que querem ser soberanos e aquelas em que estão dispostos a ceder algum grau de soberania em troca de benefícios econômicos, políticos ou sociais. Nasser Malik, head global de sustentabilidade e transição no corporate banking do Citi, também descartou um cenário em que os países simplesmente se fechem. Segundo ele, porém, forças estruturais devem manter um grau de fragmentação maior que no passado, com a formação de coalizões e alinhamentos entre países, em uma espécie de “globalização regional”. Na inteligência artificial, Erikson afirmou que ainda há grande incerteza sobre os efeitos na economia e na produtividade. Alguns setores, disse, serão completamente transformados, enquanto outros sofrerão mudanças menores. Na América Latina, que convive com baixos níveis de produtividade, ele alertou para o risco de alguns países perderem oportunidades ligadas à IA, tanto na inovação industrial e na integração à cadeia de suprimentos da tecnologia quanto na área regulatória. A expansão da IA também amplia a demanda por infraestrutura. Ethan Zindler, diretor de pesquisa em políticas públicas e países da BloombergNEF, afirmou que a demanda por eletricidade nos Estados Unidos pode duplicar em cinco anos devido aos data centers, pressionando também a demanda por gás natural no mundo. Embora países como o Brasil também busquem atrair esses empreendimentos, entre dois terços e três quartos dessa atividade estão hoje nos Estados Unidos. Segundo Zindler, diante deste cenário, a BloombergNEF prevê uma quantidade “realmente substancial” de nova geração a gás nos Estados Unidos nos próximos dez anos, apesar da continuidade da expansão das energias renováveis. “O progresso significativo na descarbonização do setor elétrico dos EUA, em particular, ao longo dos últimos 20 anos, está essencialmente parando.” A expansão dos data centers também começa a enfrentar resistência nas comunidades. Malik afirmou que, embora existam preocupações com os efeitos da IA sobre os empregos, os receios mais imediatos estão relacionados aos preços da energia, à disponibilidade de água, ao ruído e a outros impactos locais. Segundo ele, essa oposição se acelerou nos últimos 12 meses e “pegou muitos dos envolvidos de surpresa”. Nos mercados emergentes, Malik apontou ainda que o principal desafio para ampliar os investimentos em energia renovável não está necessariamente na tecnologia, mas em fatores como risco soberano e perfil de crédito das empresas de energia. Apesar desses obstáculos, ele destacou um aumento dos investimentos em renováveis em países de renda média e citou Brasil, Índia e Turquia entre os mercados que estão atraindo capital em maior escala.
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Países tendem a adotar uma ‘soberania à la carte’
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