Por um momento abandonemos o frenesi eleitoral, esse sentimento bipolar que oscila entre eufórico e apocalíptico, para observar a cruel solidão futebolística. Há solidões profundas na vida — mas poucas são mais amargas do que a solidão de quem fracassa diante da multidão.
A semana foi pródiga em vilões súbitos e Voldemorts de ocasião. E péssima para aqueles batizados de Léo Jardim.
Na terça-feira, no Maracanã, o goleiro do Vasco fraquejou quando não podia. Na quinta, o técnico do Flamengo viu seu time ser eliminado com um jogador a mais.
Entre ambos tivemos Gustavo Nonato na marca da cal. Comecemos pelo Jardim vascaíno.
O frango grosseiro é o Grand Canyon da lambança futebolística. Parece visível a olho nu até do espaço.
Houvesse um vascaíno em órbita na última terça-feira e ele teria gritado: E teria sido um grito com eco.
O chute de Paredes veio variando, varou a ampla esquina glútea de Sosa e chegou perto de Jardim numa curva. Era defensável.
Um arqueiro de primeira divisão deveria agasalhar aquela bola sem sofrimento. Mas não.
O destino tinha outros planos — daqueles que escapam emitindo sons de granja e deixam penas como rastro. Jardim ainda espanou a bola de forma desajeitada para dentro — o que acrescentou infâmia à vergonha.
O peru decisivo é de uma crueldade nua — especialmente quando decreta uma derrota relevante. Ele deixa o corpo exposto diante da turba raivosa.
Assim que a bola entrou, Jardim se tornou um cadáver absoluto. Despencado.
Me lembrei da voz de Januário de Oliveira: Januário cantava as lesões físicas — mas a ferida ali era moral.
Era a faca profunda da humilhação, a culpa mourejando em cada poro. E a obrigação terrível de ficar de pé.
De caminhar carregando a cruz maltada da culpa. Não havia habeas corpus possível.
Havia apenas a opressiva vaia. A imensa vaia.
Um dia depois, o cadafalso receberia outro cliente. O Fluminense tinha acabado de levar a semifinal contra o Palmeiras em São Paulo para os pênaltis.
Coube a Nonato, um dos melhores homens em campo, a missão de cobrar a quarta penalidade. Pela primeira vez, o goleiro palmeirense Carlos Miguel acertou o canto.
E defendeu. O assassino do sonho tricolor tinha nome e CPF.
Nonato se agachou sentindo aquele vazio devorador de almas, aquele vácuo íntimo e profundo que milhões de brasileiros sentirão na noite do próximo domingo. Uns 60 milhões.
Outros 60 milhões estarão eufóricos. Alguém há de vencer, alguém há de perder.
Assim é a vida das disputas. Nonato não morreu.
Nem o Jardim vascaíno. Suas dores serão purgadas.
O momento de desesperança soa eterno... mas passa.
A humanidade muitas vezes está na capacidade de transformar ira santa em compreensão. Em se colocar no lugar do sujeito que perdeu o pênalti ou tomou o frango inapelável.
Em vislumbrar o drama de quem nos feriu. O mundo gira.
Em maio, na primeira fase da Libertadores, o Flamengo venceu o Estudiantes no Maracanã graças a um erro tosco do goleiro Muslera. Na Copa do Mundo, o Uruguai foi eliminado por falhas dele.
Na quinta-feira, no Maracanã, Muslera defendeu três pênaltis e eliminou o Flamengo do outro Léo Jardim.
O Globo