Os desenhos invisíveis de Oscar Niemeyer e a página que lhe devo

Os desenhos invisíveis de Oscar Niemeyer e a página que lhe devo - Foto
Fonte da notícia: Brasil 247 Brasil 247

No segundo fim de semana de julho de 1998, viajei de Brasília ao Rio de Janeiro em missão confiada pelo presidente do Congresso Nacional, senador Antônio Carlos Magalhães. Precisava ouvir Oscar Niemeyer sobre uma intervenção na sede do Legislativo.

Encontrei-o no escritório instalado na cobertura do Edifício Ypiranga, Avenida Atlântica, 3940, em Copacabana, onde trabalhou durante décadas de frente para o mar. O prédio estreito, desenhado por Mário Freire em 1935, é um exemplar do art déco carioca.

As varandas avançam sobre a fachada em curvas tão pronunciadas que lhe deram o apelido de Mae West, numa referência ao busto da atriz americana. Da cobertura, uma janela de dezessete metros acompanhava a linha sinuosa do edifício.

Oscar trabalhava cercado de desenhos, papéis e uma vista que nenhum arquiteto precisaria inventar. Antônio Carlos Magalhães cogitava abrir um fosso de seis metros de largura e quase dois de profundidade para afastar manifestantes das proximidades do Congresso.

Oscar escutou a preocupação com a segurança e encontrou outra solução: espelhos d’água com cerca de sessenta centímetros de profundidade, integrados à composição arquitetônica do palácio. Uma decisão política de separar pessoas acabaria inscrita na paisagem da capital.

O projeto foi aprovado em agosto de 1998. Em 4 de março do ano seguinte, Niemeyer esteve em Brasília, examinou o resultado e sugeriu outro espelho d’água para a face voltada à Praça dos Três Poderes.

O episódio permite uma pergunta que ainda considero legítima: que imagem de democracia se produz quando o espaço público precisa ser redesenhado para manter cidadãos à distância? Quando encerramos o assunto dos espelhos d’água, Oscar começou a me fazer perguntas.

Da segurança do Congresso passamos ao destino das pessoas que frequentam os espaços públicos, à justiça, à liberdade e à cidadania mundial. Aos noventa anos, o arquiteto que já havia desenhado tantas cidades queria ouvir as ideias de quem chegara ali para tratar de um fosso.

Foi então que me convidou a escrever para sua revista Vanguarda. Apertou calorosamente minha mão e demorou-se naquele gesto enquanto soltava baforadas generosas de seu charuto Cohyba.

Chamou-me de “tovarich” e pediu um artigo que oferecesse aos jovens razões para lutar por justiça e liberdade. Falou da Terra como um só país e elogiou meu “humanismo esperançoso, sadio”.

Saí dali com uma incumbência que deveria ter cumprido. Em 16 de novembro de 2011, voltei a encontrá-lo na mesma cobertura.

A fotografia daquela tarde nos mostra segurando um DVD, Arquitetura da Unidade. O documentário, dirigido e produzido pelo jornalista Vicente Adorno, estreara em 22 de novembro de 2006 na TV Cultura, da Fundação Padre Anchieta.

Adorno e o cinegrafista Valdir Rodrigues haviam viajado à Alemanha, à Índia e aos Estados Unidos para registrar Casas de Adoração Bahá’ís. Vicente Adorno

Oscar deteve-se nas imagens do Templo de Lótus, em Nova Délhi. Expliquei-lhe o princípio da unidade do gênero humano, tão presente na arquitetura dessas casas de oração, abertas a todas as pessoas.

Embora gostasse de afirmar seu ateísmo, mostrou uma curiosidade que me surpreendeu. Estávamos diante de um homem de 103 anos, interessado em compreender a fé de alguém cuja visão espiritual não compartilhava.

Recordou uma reflexão que fazia sobre as igrejas: a satisfação de contemplar uma obra concluída era menor que a importância que os fiéis lhe atribuíam, porque ali acreditavam aproximar-se de Deus. Fiquei pensando na rara liberdade daquele raciocínio.

Oscar admitia que a experiência de outras pessoas pudesse conferir aos seus edifícios uma dimensão que escapava ao domínio de quem os desenhara. A conversa levou-nos a Camus.

Referindo-se a O Estrangeiro, Oscar falou da razão como possível inimiga da imaginação e da necessidade, em certas ocasiões, de afastá-la para fazer algo bonito. Respondi que nossa tragédia começa quando a razão pretende governar sozinha os sentimentos.

Ele ouviu, retomou o assunto, e continuamos assim, dando às palavras o tempo de provocar outras perguntas. Em determinado momento, mencionou “aquela menina” entregue por Getúlio Vargas aos nazistas.

“Que menina, Oscar?”, perguntei. “Ora, Olga Benário, a mulher do Prestes, e aquilo foi de uma crueldade…”.

Referia-se à decisão de Vargas, que assinara em 27 de agosto de 1936 o decreto de expulsão de uma mulher judia, comunista e grávida. Na voz de Oscar, Getúlio era responsabilizado pessoalmente pelo destino que ajudara a selar.

Olga deu à luz Anita Leocádia numa prisão alemã e foi assassinada aos 34 anos, em 23 de abril de 1942, numa câmara de gás em Bernburg. Sessenta e nove anos separavam sua morte daquela conversa em Copacabana.

Oscar falava dela como se o crime acabasse de lhe ser comunicado. Sua censura ao ditador tinha a dureza de quem, mesmo depois de tantas décadas, continuava sem conseguir perdoá-lo.

Mas, quem perdoaria? Guardei especialmente a maneira como pronunciou “menina”.

Era uma palavra de afeto em meio à lembrança de uma violência de Estado. Minutos antes, discutíamos filosofia e arquitetura; agora, diante de mim, o criador de Brasília se demorava no destino de uma mulher arrancada do Brasil.

A idade lhe acrescentara histórias, mas não reduzira sua capacidade de indignação. Essas lembranças frequentemente reaparecem nas conversas com meu amigo Coriolano José Silva Corrêa, arquiteto nascido no centro do Recife, neto de um vaqueiro de Canhotinho, no agreste pernambucano.

Coriolano também conheceu Niemeyer, numa aula magna em sua cidade. Mudou-se para Portugal em 1983 e, dois anos depois, estabeleceu-se na Madeira, sem levar para longe o sentimento que o liga à terra natal.

Partilhamos uma afeição particular pelo Nordeste e por Pernambuco, o Leão do Norte, com sua longa história de resistência. Gosto de ouvi-lo falar do Recife, dos antepassados e da coragem de um povo que aprendeu a defender o próprio lugar no mundo.

Nossa amizade reúne duas lembranças de Oscar: a dele, diante de um auditório recifense; a minha, numa cobertura voltada para o Atlântico. Brasília, um ano mais nova que eu, prepara-se para receber o Templo Bahá’í do Brasil, cuja concepção arquitetônica está em desenvolvimento.

Imagino Oscar examinando seus desenhos e fazendo perguntas sobre luz, proporções e acolhimento. Gostaria de contar-lhe que a cidade que ajudou a criar terá uma Casa de Adoração aberta a todas as crenças, dedicada à oração e à unidade humana.

Em 2011, mostrei-lhe imagens de casas de oração erguidas em países distantes; agora, a cidade onde vivo receberá um templo dessa tradição. Seu significado estará também nas portas abertas e na possibilidade de pessoas de crenças diferentes partilharem o silêncio.

Penso na atenção com que Oscar examinou o Templo de Lótus. Queria ter ouvido suas perguntas sobre esse novo espaço de Brasília.

Oscar morreu em 5 de dezembro de 2012, aos 104 anos, no Rio de Janeiro. Quando soube, escrevi que o Criador o convidara a desenhar outras utopias entre sóis, galáxias e anéis de Saturno.

Imaginei-o tomando partido de Plutão, rebaixado da categoria de planeta, ou procurando no universo uma injustiça contra a qual pudesse protestar. Era meu modo de conservar sua irreverência.

Ainda vejo o sol descendo sobre Copacabana quando saí da cobertura naquele novembro de 2011. Despedi-me com a naturalidade de quem imagina uma próxima visita.

Só depois percebi que aquela seria nossa última conversa. Oscar guardava na mesma memória a beleza de um templo distante e a morte de Olga Benário.

Eu saía dali levando, novamente, a promessa feita em julho de 1998. Tive mais de 14 anos para entregar o artigo que Oscar me pedira.

Nesse período, escrevi milhares de páginas para leitores que jamais conheci; para ele, deixei o papel vazio. Posso reconstituir nossos encontros, publicar estas memórias, descrever a confiança que depositou em mim.

Nada disso lhe devolve a oportunidade de ler o texto prometido. Oscar morreu sem recebê-lo.

Nem o afeto que lhe dedico me dá o direito de atenuar essa omissão.

Publicação Original Brasil 247 brasil247.com
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