Após um fim de semana marcado por protestos violentos, saques e vandalismo na França, os prefeitos das principais cidades do país cobraram nesta segunda-feira (19) explicações do governo do presidente Emmanuel Macron sobre falhas na atuação das forças de segurança. Leia também: Protestos causam destruição na França e se espalham pela Europa França contabiliza danos após piores protestos em anos Macron rejeita renúncia de ministro do Interior após tumultos na França
Os prefeitos de Paris, Marselha e Lyon afirmaram, em artigo conjunto publicado no jornal Libération, que estão acostumados a manifestações e protestos. "Mas, no sábado... pela primeira vez, tivemos a sensação de que partes inteiras de nossas cidades haviam sido deixadas sem proteção", afirmaram os prefeitos, todos de centro-esquerda.
"Agora, precisamos reparar os danos sofridos por nossas cidades e enfrentar a indignação de nossos moradores, estarrecidos com esse nível de violência”, acrescentaram.
Centenas de milhares de pessoas foram às ruas para protestar contra o que muitos consideram uma deterioração e um mau funcionamento dos serviços públicos, que deixam os cidadãos entregues à própria sorte diante das pressões do custo de vida.
Em muitos locais, manifestações pacíficas foram rapidamente tomadas por grupos de manifestantes violentos, provocando cenas de vandalismo e caos.
Em Paris, pelo menos 300 a 400 estabelecimentos comerciais foram vandalizados durante o fim de semana, disse Dominique Restino, presidente da Câmara de Comércio de Paris, à emissora BFM.
Na Place Vendôme, onde ficam diversos hotéis e lojas de luxo, a maioria dos estabelecimentos estava fechada e cercada por seguranças, segundo um repórter da Reuters. A porta de entrada de uma loja da Dior foi destruída, enquanto as vitrines de lojas de várias outras marcas de luxo no centro de Paris, incluindo Rolex, Louis Vuitton, Ralph Lauren e Gucci, foram danificadas.
Em Marselha, o Olympique de Marseille, clube da primeira divisão do futebol francês, informou que sua loja oficial, localizada na histórica avenida principal da cidade, havia sido saqueada.
A França mobilizou 60 mil policiais e integrantes de outras forças de segurança no sábado, disse o ministro do Interior, Laurent Nunez, à rádio France Inter, mas reconheceu que o contingente não foi suficiente para controlar as multidões violentas em "determinadas cidades".
Os protestos ocorreram após semanas de manifestações estudantis, acompanhadas por episódios ocasionais de violência nas ruas, abalando o país a seis meses da próxima eleição presidencial e ampliando as pressões em meio à fragilidade da economia e ao aumento acelerado da dívida.
Os ativos franceses apresentavam desempenho inferior ao dos mercados europeus em geral nesta segunda-feira, embora as oscilações fossem mais contidas do que em outros momentos recentes de tensão política.
O temor de tensões dentro do frágil governo de Macron devido às aparentes falhas de segurança — justamente quando o governo precisa aprovar um projeto de orçamento considerado essencial para colocar as contas públicas sob controle — pode aumentar ainda mais a inquietação dos investidores.
O gabinete do presidente informou nesta segunda-feira que ele recusou o pedido de demissão do ministro do Interior, Laurent Nunez, e, em vez disso, determinou que ele ponha fim às barricadas e aos saques e seja transparente sobre o que Macron classificou como "falhas de inteligência e de antecipação", de acordo com comunicado do gabinete presidencial.
O início das férias escolares nesta segunda-feira parecia oferecer algum alívio imediato ao governo, mas estudantes organizavam novas concentrações e bloqueios em alguns locais, incluindo o Museu do Louvre e a universidade Sciences Po, no centro de Paris.
Marselha, uma das cidades mais atingidas pelos tumultos, proibiu reuniões públicas e manifestações. Enquanto isso, os sindicatos franceses convocaram uma nova rodada de greves e manifestações nacionais para 5 de novembro.
Governos europeus recomendaram que seus cidadãos que viajam à França evitem grandes aglomerações e tenham cautela. Vidros danificados na loja da Lacoste na avenida Champs-Élysées, um dia após confrontos durante uma jornada nacional de manifestações contra o custo de vida e o aumento dos preços dos combustíveis, em Paris Reuters/Stephanie Lecocq
Juros dos títulos sobem e ações caem Enquanto a França se dedicava à limpeza de suas ruas, Macron chegou ao Kuwait para uma viagem ao Golfo destinada a garantir fornecimentos adicionais de gasolina e diesel, com o objetivo de reduzir os preços dos combustíveis nos postos.
As questões relacionadas ao custo de vida também estiveram no centro de numerosas manifestações e protestos realizados em outros países europeus, incluindo Itália, Bélgica e Albânia, durante o fim de semana. Os altos preços dos combustíveis, em grande parte decorrentes da guerra no Irã, agravaram as dificuldades enfrentadas por muitas pessoas.
Na França, uma prefeitura foi incendiada, lojas foram saqueadas e edifícios foram cobertos de pichações no sábado, enquanto grupos violentos entravam em confronto com a polícia em todo o país.
As ações francesas estavam entre as de pior desempenho no mercado europeu nesta segunda-feira, com o índice CAC 40 recuando 1,3% no início do pregão. Enquanto isso, a queda nos preços dos títulos públicos elevou o rendimento dos papéis franceses de dez anos em 8 pontos-base, para 4,86%.
"A modesta recuperação dos diferenciais de juros franceses observada ao longo da última semana, aproximadamente, será posta à prova hoje", afirmou Jim Reid, analista do Deutsche Bank, em nota.
O presidente da França, Emmanuel Macron, enfrenta questionamento de prefeitos após falhas de segurança em protestos do fim de semana Ludovic Marin/Pool via Reuters
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