"Oi de novo. Sou eu, o Orkut." É assim que Orkut Büyükkökten, criador de uma das redes sociais mais populares do Brasil nos anos 2000, anuncia uma nova iniciativa para tentar recuperar o que considera ter se perdido na internet: as conexões genuínas entre pessoas. Em uma carta aberta publicada no site oficial da plataforma, o empreendedor convida antigos usuários a assinar uma petição em apoio à criação de uma nova rede social, centrada em pessoas autênticas, comunidades e relações humanas. A proposta é reunir milhões de assinaturas para demonstrar o interesse do público em uma alternativa às plataformas atuais. Mais do que resgatar a nostalgia do Orkut original, a iniciativa vem acompanhada de críticas ao modelo de negócios das redes sociais, à dependência dos algoritmos de engajamento e à crescente presença de conteúdos produzidos por inteligência artificial. "Fiquei em silêncio por um tempo, mas preciso falar com você. O trabalho de toda minha vida tornou-se algo urgente como nunca imaginei. Há mais de duas décadas, criei algumas das primeiras redes sociais. E vi, junto com você, as redes sociais tomarem o rumo errado", escreve Büyükkökten. Na carta, o empreendedor relembra um período em que as interações digitais eram marcadas pela descoberta de pessoas e comunidades, antes da predominância dos feeds personalizados. "Você lembra de quando a internet era humana? De quando receber uma mensagem de alguém em outro continente parecia mágica? Outra pessoa tinha atravessado o mundo para compartilhar um pedacinho de si. Talvez a conexão durasse só um instante, mas era emocionante porque era real." Para o fundador, a transformação das redes sociais ao longo dos últimos 20 anos colocou a captura da atenção dos usuários acima da qualidade das relações estabelecidas nas plataformas. "O que aconteceu? Vinte anos otimizando tudo para capturar a sua atenção. Feeds construídos em torno do engajamento, não da conexão. Uma geração de crianças entregue a algoritmos que as viciaram, dividiram e as venderam para anunciantes. Não é de surpreender que tenham crescido solitárias e ansiosas", afirma. Um dos principais argumentos apresentados por Büyükkökten é que o avanço da inteligência artificial tornou mais difícil identificar quem está do outro lado da tela. Embora reconheça o potencial da tecnologia, ele considera que a proliferação de conteúdos sintéticos ameaça um dos princípios que, em sua visão, justificaram a criação das primeiras redes sociais: a possibilidade de estabelecer contato com outra pessoa. "Eu ainda amo esta indústria, mas é desesperador ver o que ela se tornou. 'Aja rápido e quebre coisas', dizia o lema. Pois bem: as coisas estão quebradas. E agora as máquinas chegaram", escreve. "A inteligência artificial é uma tecnologia extraordinária, mas está dissolvendo a única premissa que tornou as redes sociais especiais e dignas de serem construídas: a de que havia uma pessoa do outro lado", acrescenta. Na avaliação do empreendedor, a presença crescente de bots, deepfakes, agentes autônomos e publicações geradas por IA contribui para a perda de confiança nas interações digitais. "Você já viu o que a IA está fazendo com as redes sociais: bots, lixo de IA, deepfakes, agentes autônomos descontrolados, conteúdo sintético. Sabe o que a IA não consegue criar?", questiona. Em seguida, ele responde com uma sequência de sentimentos que considera essenciais às relações humanas: "Alegria. Esperança. Gratidão. Encanto. Diversão. Inspiração. Amor. É isso que faz uma vida valer a pena." Apesar das críticas, a proposta não prevê abandonar a inteligência artificial. Segundo o site, a tecnologia poderia ser utilizada para ajudar usuários a conhecer novas pessoas, reencontrar antigos amigos e aprofundar amizades, sem substituir o contato humano. A volta das comunidades Outro ponto central da proposta é recuperar o papel das comunidades, espaços que reuniam usuários do Orkut original em torno de interesses, experiências e assuntos em comum. Büyükkökten afirma que esse é um dos recursos mais lembrados pelas pessoas quando falam da antiga plataforma. "Quando as pessoas me contam do que mais sentem falta no orkut.com, elas sempre falam das comunidades. Pessoas que consertavam a mesma moto. Pessoas que pegavam a mesma linha de ônibus. Pessoas que odiavam segunda-feira." O fundador estabelece uma diferença entre a lógica dos feeds atuais, em que os usuários consomem publicações selecionadas por algoritmos, e a participação ativa em grupos com interesses compartilhados. "Num feed, você é plateia; numa comunidade, você é membro. Esse era o ponto", afirma. Na visão apresentada na carta, uma nova geração de redes sociais deveria recompensar comportamentos como gentileza, curiosidade, amizade e confiança, em vez de priorizar o tempo de permanência dos usuários nas plataformas. "Vejo um futuro diferente para a internet, construído em torno de pessoas reais, com um ser humano do outro lado de cada mensagem. Um futuro que não gira em torno de algoritmos, olhos capturados e otimização de tempo na tela", escreve. Como participar da petição do Orkut? Para apoiar a iniciativa, os interessados devem acessar o site orkut.com e preencher um formulário com idade, nome, país e endereço de e-mail. A inclusão de um número de telefone é opcional. Após a assinatura, cada participante recebe um código único e um cartão digital de apoiador, que pode ser compartilhado com amigos e conhecidos. O site esclarece que a assinatura não garante uma conta na futura plataforma, a reserva de um nome de usuário ou um lugar na fila de acesso. A página também não informa uma data de lançamento da nova rede social. Na parte final da carta, Büyükkökten pede que os interessados compartilhem a iniciativa com pessoas com quem gostariam de se reconectar. "Eu sei como chegar lá: vamos reconstruir a internet pela qual nos apaixonamos. Aquela com pessoas autênticas, conexão real e pertencimento genuíno. Mas não consigo construí-la sem você." O empreendedor encerra a mensagem defendendo uma mudança na forma como as plataformas digitais são desenvolvidas. "Um algoritmo não consegue fazer a vida valer a pena. Mas um amigo consegue. Uma comunidade consegue. Então, vamos parar de otimizar para capturar a atenção e começar a otimizar uns para os outros." E conclui: "Vamos tornar a internet humana de novo, juntos!" Mais Lidas
'Oi de novo': Orkut reaparece com petição por rede social com pessoas autênticas e conexões reais
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