Como 'power couples' da política alçaram primeiras-damas novatas ao Senado

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Fonte da notícia: Correio Brazilliense Correio Brazilliense

Renan Calheiros (MDB) é senador por Alagoas desde 1995, acumulando mandatos consecutivos. Randolfe Rodrigues (PT) representa o Amapá no Senado desde 2011, também em uma sequência de mandatos.Mas, em 2027, Renan e Randolfe estarão fora da Casa. Eles não conseguiram ser eleitos no pleito desse ano, em que cada Estado escolheu dois senadores. Ambos darão lugar a novatas na política que nunca assumiram um cargo eletivo: em Alagoas, Marina JHC (PSDB), e no Amapá, Rayssa Furlan (Podemos). Em comum, elas são casadas com homens que acabaram de ser eleitos, no primeiro turno, como governadores — João Henrique Caldas (PSDB) em Alagoas e Dr. Furlan (PSD) no Amapá.Das 12 senadoras eleitas esse ano em todo o Brasil, sete têm vínculos familiares (como esposas, ex-esposas, filhas, netas, irmãs ou sobrinhas) com políticos que ocupam ou ocuparam cargos no Executivo de primeiro escalão (prefeito, governador ou presidente).Quatro são delas são ex-primeiras-damas e nunca ocuparam um cargo eletivo — além de Marina JHC e Rayssa Furlan, completam a lista Michelle Bolsonaro (PL-DF), casada com o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL); e Gracinha Caiado (União Brasil-GO), esposa do ex-governador de Goiás Ronaldo Caiado (PSD), derrotado no primeiro turno na disputa à presidência.Ou seja, mais da metade das senadoras eleitas têm vínculos familiares com políticos e um terço delas são ex-primeiras-damas novatas em cargos eletivos, segundo um levantamento exclusivo para a BBC News Brasil feito pelo Laboratório de Partidos, Eleições e Política Comparada (LAPPCOM).???? Novo app da BBC News Brasil: receba nossos alertas, vídeos e análises. Baixe aqui na Google Play Store (Android) e aqui na App Store (iOS).Esses power couples (gíria em inglês para falar de casais poderosos, como Beyoncé e Jay-Z) da política exploram amplamente a imagem pública dos cônjuges e fortalecem o poder local, e às vezes nacional, dos clãs familiares.Marina JHC, por exemplo, é nora de João Caldas, que foi deputado estadual e federal. A primeira suplente na chapa de Marina é a sogra dela, Dra. Eudócia. E seu marido, João Henrique Caldas — o "JHC" que apareceu ao lado do nome de Marina nas urnas —, foi eleito prefeito de Maceió (AL) em 2020 e reeleito em 2024 com uma votação expressiva, conquistando cerca de 83% dos votos válidos no primeiro turno. Para o governo estadual, ele teve 52% dos votos válidos. Marina nasceu em 1990 em Cuiabá (MT) e é formada em administração.A dermatologista Rayssa Furlan, 39 anos, é casada com outro político que tem tido votações expressivas. O também médico Dr. Furlan foi eleito prefeito de Macapá (AP) em 2020 e reeleito em 2024 com 85% dos votos válidos no primeiro turno. Rayssa, a primeira mulher a ser eleita senadora pelo Amapá, foi secretária municipal de Mobilização e Participação Popular na prefeitura do marido. Em sua chapa no Senado, o primeiro suplente é seu cunhado, Neto Furlan, irmão de Dr. Furlan.A advogada e produtora rural Gracinha Caiado, 67, também atuou no governo do marido em Goiás. Ela foi presidente de honra da Organização das Voluntárias de Goiás (OVG), que tem contratos com a gestão estadual, e participou da criação do programa Goiás Social.A cientista política Mayra Goulart, coordenadora do LAPPCOM, lembra que a eleição para o Senado é majoritária — ou seja, ganha que tem mais votos, diferentemente da eleição para a Câmara dos Deputados, por exemplo, em que as vagas são distribuídas proporcionalmente de acordo com o desempenho dos partidos."A eleição para o Senado, uma vez que o distrito dela é o Estado, está associada a uma relação ou de apoio ou de oposição ao governador", explica Goulart, professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ)."A candidatura ao Senado exige a capacidade de penetrar em diferentes territórios do Estado. E quando você se associa a um nome forte naquele Estado, tem maior facilidade de fazer seu nome chegar a diferentes redutos e municípios."Em 2018, quando também estiveram em disputa dois cargos de senador por Estado, apenas duas das sete senadoras eleitas (28,6%) tinham vínculos familiares com políticos — Zenaide Maia (PHS-RN), casada com um ex-prefeito e irmã de um deputado federal; e Daniella Ribeiro (PP-PB), filha de um ex-prefeito e irmã de um deputado federal.Esse ano, o percentual de senadoras eleitas com vínculos familiares aumentou para 58,3% e cresceu a participação das esposas de políticos. As quatro estreantes no Senado são justamente novatas na política e casadas com políticos."Na eleição atual, as esposas são exatamente as estreantes. Isso relativiza a ideia de renovação, uma vez que elas já trazem consigo um capital familiar", aponta Goulart, que assina o levantamento com as pesquisadoras Giulia Gouveia (UFRRJ) e Vanilda Chaves (USP).A BBC News Brasil pediu posicionamentos das quatro senadoras novatas eleitas, mas recebeu resposta apenas de Gracinha Caiado."Conexões familiares, por si só, podem ser boas ou ruins. No nosso caso, essa relação sempre foi muito positiva e de resultados para o povo goiano", disse em texto a senadora eleita, destacando ser casada com Ronaldo Caiado há 36 anos e em paralelo ter uma "trajetória própria"."Minha identidade não precisa ser construída em oposição à dele. Tenho muito orgulho do legado de Ronaldo Caiado, do trabalho que realizou como parlamentar e, mais recentemente, como governador de Goiás", escreveu."Agora, como senadora eleita, terei um mandato, uma voz e responsabilidades próprias. Quero honrar os votos que recebi com muito trabalho, responsabilidade e compromisso. É pelas minhas ações e entregas que pretendo ser avaliada."O investimento da direita em quadros femininosAlém das estreantes, têm vínculos familiares com políticos as senadoras eleitas Teresa Surita (MDB-RR), ex-mulher de Romero Jucá; Marília Arraes (PDT-PE), neta de Miguel Arraes, prima de Eduardo Campos e irmã da deputada federal Maria Arraes; e Mara Rocha (Republicanos-AC), irmã do ex-deputado federal Major Rocha.Dessas sete senadoras, cinco são de partidos considerados de direita pelo levantamento (Gracinha Caiado, Mara Rocha, Marina JHC, Michelle Bolsonaro e Teresa Surita); uma de centro (Rayssa Furlan) e uma de esquerda (Marília Arraes).A pesquisadora Mayra Goulart aponta como mais uma possível explicação para o avanço de senadoras com vínculos familiares o investimento que alguns partidos de direita têm feito na formação de quadros femininos.Michelle Bolsonaro é o grande exemplo disso. De março de 2023 a junho desse ano, ela foi presidente do PL Mulher. Durante sua gestão, o partido ganhou mais de 72 mil novas filiadas, de acordo com levantamento do portal Metrópoles.O PL, que teve o maior número de eleitos (somando homens e mulheres) na Câmara e no Senado, também teve votações expressivas para mulheres no Congresso.Segundo Goulart, esse investimento por siglas de direita é feito com base num discurso conservador, que defende uma ideia tradicional de família e de um papel submisso da mulher. Nesse sentido, a ascensão de primeiras-damas nessa eleição chama a atenção da pesquisadora."O papel de esposa é muito emblemático nesse discurso da família tradicional, que é um papel de protagonismo subalterno. A esposa tem protagonismo principalmente no ambiente privado e doméstico, mas é um protagonismo subalterno à figura masculina."Nas redes sociais, essas senadoras eleitas exaltam serem mães e postam fotos de suas famílias. Também ressaltam o fato de serem mulheres e prometem se dedicar a pautas voltadas às mulheres e às crianças.Hoje, pela lei, os partidos devem ter no mínimo 30% das candidaturas em eleições proporcionais preenchidas por mulheres. Também devem destinar no mínimo 30% das verbas de campanha e do tempo de propaganda eleitoral para elas.Mas Goulart critica que, na prática, postulantes ao Senado com nomes conhecidos podem acabar concentrando recursos de campanha."Quando você coloca muitos recursos na candidatura de poucas mulheres, acaba diminuindo a possibilidade de entrada de novas mulheres na política e de fazer uma expansão efetiva da representação política de mulheres. E o voto no Senado não 'puxa' ninguém, como é no caso da eleição proporcional", explica.Como PL e Michelle Bolsonaro contribuíram com bancada feminina recorde na CâmaraPor dentro da rede de influenciadores que ataca o voto feminino no BrasilTalvez a presença das mulheres no Senado tenha ficado aquém do tamanho da bancada feminina almejada, mas fato é que essa eleição teve o maior número de mulheres eleitas para o Senado desde a redemocratização. Foram 12, ante 8 em 2002, que era o recorde anterior. Havia 54 vagas em disputa, e as mulheres ocuparão 22,2% delas a partir do ano que vem.Seis senadoras já tinham mandato vigente, com fim previsto para 2031. Assim, a bancada feminina terá no total 18 senadoras.Considerando as eleitas esse ano, 83,33% são brancas e 16,67% pardas, segundo o levantamento do LAPPCOM. A maioria, 91,67%, tem ensino superior completo. Na data da eleição, a idade média do grupo era de 51,8 anos, e a mediana, de 49,5 anos.

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