Mudei o meu local de votação: saí de Copacabana, agora estou no Jardim Botânico. Ao contrário do que esperava, não economizei tempo: as filas aqui são maiores do que lá. E ainda ganhei uma ironia de presente: meu primeiro voto foi na antiga Bonino, uma galeria de arte. Agora voto no Clube Militar. Mudou o mundo ou mudei eu? Enquanto matutava na fila, pensando que o tempo não é irônico, mas sim sarcástico, passou por mim, acompanhada por um mesário, uma senhorinha. Foi levada para a frente da fila. Oitenta anos, talvez? Não me surpreenderia se fossem noventa ou mais. Andava convicta, mas com alguma dificuldade. Fiquei com inveja. Não tenho nem sessenta e, vejam só, já estou mudando o lugar de voto por pura preguiça. A senhorinha, bem mais velha do que eu, não tem a obrigação de votar, mas está aqui para ajudar a decidir o destino do Brasil. Com a idade que tem, sabe o que vai dar certo e o que não, qual candidato vai fazer o correto e qual não, e, principalmente, consegue reconhecer as roubadas travestidas de “novidade” ou os que estão dando voltas na política há décadas e nunca cumprem nada do que prometem. Depois de uma certa idade, a expressão “quem não te conhece que te compre” pode ser usada com a devida autoridade. Ainda matutando — a fila era grande —, pensei: o voto dela deveria valer mais que o dos outros. O dobro, talvez o triplo. Um garoto de vinte anos, cevado a telas e redes sociais, vai acreditar em qualquer coisa que o algoritmo mande. Ele tem sonhos, mas sua ingenuidade pode botar tudo a perder. As pessoas mais velhas não, essas sabem onde estão se metendo. Já estiveram muitas vezes no museu de grandes novidades da política, já quebraram a cara ao acreditar no que não deviam. São mais difíceis de enganar. Aqui no Rio, por exemplo: os mais velhos lembram a prisão do Moreira Franco, do Garotinho, da Rosinha, do Cabral, do Pezão. Será que os mais novos lembram ao menos dos desastres que foram o Witzel ou o Cláudio Castro? Acho que a senhorinha que vi ontem na fila tem todos eles na memória. É o que presumo, do nada, pelo sorriso que deu ao deixar a urna. Talvez o ingênuo seja eu. A minha teoria do voto em dobro balançou quando chegou um homem da mesma idade da senhorinha. Bermuda, cinto, camisa de botão, mocassim. Parecia um síndico de prédio da Barata Ribeiro nos anos setenta. Só faltou a capanga. Estava enfezado e tratou com rispidez o mesário que lhe ofereceu água. Hummm, sei não, talvez para ele o dobro seja demais. Há muitos caras por aí que se tornam autoritários com a idade, acham que sabem tudo e que só pode ser do jeito deles. É triste. O voto destes deveria valer a metade dos outros. Pensando bem, o da tia do zap nem isso, que espalhar fake news é muito feio. Bom mesmo era ser um jovem ingênuo. O tal homem saiu resmungando, deu até medo. Chegou a minha vez. Usei a minha cola, que estou velho demais para decorar números. Digitei a sequência, apertei o “Confirma”. Seja o que Deus quiser. Acho que o melhor é mesmo um voto por pessoa, seja homem, mulher, tia do zap, garoto novo ou velho rabugento. Que vença a vontade da maioria. Só espero que não esqueçam a democracia e que eu possa estar nesta mesma fila daqui a quatro anos. Quem sabe encontro de novo a senhorinha que sorri? A galeria Bonino fechou décadas atrás. A fila me deu uma baita dor na lombar. Mudou o mundo, mudei eu.
O voto dos mais velhos devia valer o dobro
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O Globo
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