O sequestro de Abílio Diniz e o impacto nas eleições presidenciais de 1989

O sequestro de Abílio Diniz e o impacto nas eleições presidenciais de 1989 - Foto
Fonte da notícia: O Globo O Globo

O empresário Abilio dos Santos Diniz dirigia sua Mercedes-Benz a caminho do Clube Pinheiros, em São Paulo. Naquela manhã de segunda-feira, 11 de dezembro de 1989, o então vice-presidente do Grupo Pão de Açúcar pretendia jogar tênis e, depois, seguir para seu escritório.

Ao entrar entrar na Rua Seridó, porém, o executivo de 52 anos viu um Caravan caracterizado como ambulância atravessado na pista. Assim que ele freou, seu automóvel foi atingido em cheio por um Opala na traseira.

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Diniz não teve tempo de sacar os dois revólveres que levava consigo. Em uma questão de segundos, de acordo com a descrição de duas testemunhas, quatro criminosos armados saíram dos carros que o encurralaram.

Eles tiraram o empresário da Mercedes e o levaram para dentro da Caravan. Instagram: Siga nosso perfil, com imagens de 101 anos de jornalismo

O sequestro ganhou destaque no noticiário. O crime ocorreu dias antes do segundo turno das eleições presidenciais daquele ano.

Fernando Collor e Luiz Inácio Lula da Silva disputavam o eleitorado. Quando os primeiros bandidos foram presos, policiais alegaram que acharam com eles material de campanha petista, manuais de guerrilha e uma agenda com contatos de integrantes do partido de Lula.

Porém, líderes do PT e autoridades federais descartaram que houvesse ligação do bando com a legenda. Os agentes foram acusados de plantar os itens no local.

Cenas forjadas? Preso com camisa de Lula e material exibido pela polícia após sequestro em 1989 Reprodução e arquivo

Quase 40 anos depois, nesta quarta-feira, o senador eleito Guilherme Derrite (PP-SP), ex-secretário de Segurança Pública de São Paulo, publicou um vídeo exibindo suspeitos de tráfico presos com camisas do PT, em Piracicaba. Mas os PMs envolvidos na prisão estão sendo acusados de forjar a cena.

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Depois do sequestro de Abílio Diniz, a família do empresário passou dias sem receber um contato dos bandidos. Na sexta-feira, antevéspera da eleição, quatro criminosos foram presos em dois locais.

Eles se identificaram como membros do grupo Movimiento de Izquierda Revolucionaria (MIR), do Chile. Na manhã de sábado, um sequestrador argentino levou policiais ao cativeiro do empresário, um sobrado na Vila Santa Catarina, mas o plano de usar o bandido preso para capturar os demais não deu certo.

Flávio Bolsonaro: O desmaio durante um debate na Band, há dez anos Escoltado por um policial disfarçado, o criminoso bateu à porta do imóvel.

Quando um comparsa abriu, ele se jogou para dentro do sobrado, e os outros bandidos apontaram armas para o agente, que fugiu. Começou um cerco de 36 horas.

A Praça Hashiro Myazaki foi tomada por 50 policiais e atiradores de elite em pontos estratégicos. Vizinhos foram impedidos de entrar ou sair de casa.

Durante as tensas negociações, os seqeestradores mantiveram um revólver apontado para a cabeça do empresário. Um sequestrador preso observado por Dom Evaristo Arns, em 1989

Fernando Pereira/Agência O GLOBO Diretor do Grupo Pão de Açúcar, Luís Carlos Bresser Pereira conversava com os bandidos junto a um delegado do Grupo Anti-Sequestro (GAS), através de uma janela lateral.

A quadrilha queria fugir e exigia um helicóptero, um carro-forte e um avião. Bresser chegou a falar com Abílio, de longe.

O empresário, ajoelhado, disse que estava bem e pediu para a polícia não invadir. A conversa foi interrompida quando um criminoso disparou um tiro para impedir a aproximação de um agente.

O drama só terminou no domingo, por volta das 17h, depois de negociações que incluíram até mesmo o cardeal arcebispo de São Paulo, Dom Paulo Evaristo Arns. Os bandidos só se entregaram depois que chegaram ao local os cônsules da Argentina e do Chile na capital paulistana, com a garantia de que os criminosos não sofreriam violência.

Quando deixaram o sobrado, eles foram conduzidos para dentro de um micro-ônibus da polícia, enquanto Abílio Diniz era cercado por populares e repórteres. Lula ficou com 46,97% dos votos válidos, enquanto Collor obteve 53,03%.

Para analistas, as imagens do material da campanha petista ligadas aos sequestradores teve um impacto negativo para o ex-sindicalista nas urnas, mas o elo entre os bandidos e o partido jamais ficou comprovado. O cativeiro de Abílio Diniz no sobrado em São Paulo

Arquivo/Agência O GLOBO Em dezembro de 1998 oito sequestradores presos (os canadenses David Spencer e Christine Lamont haviam sido extraditados em novembro daquele ano) completaram trinta e oito dias em greve de fome, a mais longa do país, e obtiveram redução da pena.

O Tribunal de Justiça de São Paulo aceitou pedido de revisão criminal, diminuindo as sentenças de 26 a 28 anos de reclusão para de 15 a 18 anos. Além disso, por terem trabalhado no presídio, eles tiveram a pena reduzida em um ano e meio.

Abilio Diniz morreu em fevereiro de 2024, aos 87 anos, vítima de insuficiência respiratória em função de uma pneumonite. Ele estava internado no Hospital Albert Einstein, em São Paulo.

O empresário era o 31º brasileiro mais rico do mundo, com patrimônio estimado em US$ 2 bilhões, segundo a Forbes.

Publicação Original O Globo oglobo.globo.com
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