Lá vinha o Mariano, no seu rosto um sorriso escondido, um sarcasmo aceso. Mariano era um bolsonarista envergonhado ou um antipetista no armário, como preferir.
Era astuto, não deixava as palavras traírem facilmente, calculava, evitava exibir seu íntimo político em público. Enfim, vestia a camisa da seleção, mas só em casa.
Por isso, se acercou sem comemorar a vitória de Flávio Bolsonaro no primeiro turno: – E aí, vai dar pra virar? – perguntou Mariano, irônico – Hoje não dá, vamos ver domingo – escondi minha esperança – É, hoje o Flávio ganha, mas as pesquisas erram, né? – Não dá pra saber.
O problema é o voto bolsonarista envergonhado – disse olhando no olho dele – Na hora da urna, aparece um monte de voto bolsonarista – E o exército do Lula hein, já se inscreveu? Já são mais de sete milhões – Foda é fazer em quinze dias o que deveríamos ter feito por quatro anos.
– Porra cara, você tá mal, vamulá. Um governo Flávio não vai ser tão ruim assim.
– Não? Peguei o celular e mostrei os vídeos de violências bolsonaristas recentes. Aumentei o volume na cena de uma mulher gritando “preto do caralho” no metrô Vila Sônia.
“Já começou a violência, não é só discurso” – Ah, com certeza os petistas devem ter provocado – E isso justifica dar um soco em uma mulher ou ser racista? – Não, claro que não, mas é que não pra saber o que aconteceu – A violência aconteceu. Fizemos um pequeno silêncio.
Cada um engolindo seco uma breve raiva. Mariano voltou:
– E o debate, que achou? – Uma bosta. Triste.
– Também achei – Deixa eu te fazer uma pergunta. O que os grupos bolsonaristas acharam do Flávio não responder nenhuma acusação sobre o Vorcaro, a Ana Clara, as balas? E o sigilo? O que eles acharam do desafio de abrir o sigilo? Todo mundo sabe que o Flávio tem muito B.O.
– Olha, a maioria – quase se traiu – o que me falaram é que o Lula não tem celular, então é pegadinha. Fora que quem precisa abrir o sigilo é ele, o do cartão corporativo dele e da Janja.
– Mas se ele abrisse o corporativo, aí o Flávio teria que abrir as contas dele hein – É, sim, sim – respondeu hesitante. Sem querer, jogou na defensiva: “O Lula tá meio gagá?” – Nem um pouco, pelo contrário.
Quem dera eu chegar com 80 anos nesse pique – Achei o Flávio melhor no debate – Ele começou melhor, o Lula caiu na armadilha dele, na história do Lulinha. Depois se acertou e começou a encurralar Flávio, que mentiu bastante, foi agressivo e não respondeu nada.
Mas o nível foi muito baixo. Quem já debateu com o Fernando Henrique não precisava passar por isso.
Mesmo treinado o Flávio é muito fraco. – O Lula também não respondeu nada do Lulinha – Disse que é caso pra PF – PF que é dele né? É muito difícil defender esse governo, o STF, as contas do governo indo pro saco, os escândalos de corrupção, acho que está na hora de aposentar Lula.
Não que eu torça pro Flávio, tá? Pra mim os dois são iguais – E o que você achou do Ministério da Prosperidade? Ou o SUS Padrão Einstein, não entendi a história de comprar dívidas. E a história da Ana Clara? – O Lula pagou dívida de MEI, vai dar canetinha, acabou com bet, aumentou Bolsa Família, tarifa zero de ônibus.
O desespero tá grande pro Lula. Por isso que as pessoas querem mudança – As pessoas?
Nós dois nos olhamos por três segundos e baixamos os olhos. Eu querendo falar que o Flávio é sócio de bet, Mariano, lembrar que o Lula foi preso.
Eu, perguntar como um senador recebe R$ 14 milhões de reais como advogado, só fazendo lobby. Mariano, chamar Lula de ladrão.
Eu querendo gritar que Flávio deu emenda pra miliciano que participou da morte da Marielle, Mariano com vontade de berrar que o Lula defende bandido e que o país tá uma bosta por causa dele. Eu desejando vomitar que votar em Flávio é autorizar o golpismo, ser cúmplice desse novo tipo de fascismo, que miliciano não pode ser presidente, o Master vai dar pizza e o Vorcaro vai sair ser solto, o filhinho de papai vai revogar o fim da 6×1 e é um entreguista.
Isso se passou em quatro segundos. Aí Mariano falou:
Metropoles