Ouvir o Professor Mario Sergio Cortella é sempre enriquecedor. Na entrevista que ele deu ao Igor Coelho, conhecido como Igor 3K, um podcaster, apresentador e empresário brasileiro, cofundador e principal apresentador do Flow Podcast, ele falou sobre vários temas relevantes, especialmente sobre a retórica bolsonarista, que troca o debate real pela manipulação, alienação e pela agressão à pessoa, ao invés de buscar desconstruir o argumento com um argumento melhor.
Um dos pontos mais curiosos foi quando ele levantou a etimologia da palavra “rival”. A palavra rival vem do latim rivalis, que originalmente significava “aquele que compartilha o uso do mesmo riacho ou rio” (derivado de rivus, que quer dizer “riacho” ou “pequeno curso d’água”), muito curioso, não é?
Na Roma Antiga, as pessoas que viviam nas margens de um mesmo rio eram chamadas de rivales; contudo, enquanto a água era abundante, o compartilhamento era pacífico; no entanto, em períodos de seca ou escassez, a necessidade de usar a mesma água gerava conflitos e disputas entre os vizinhos.
Com o tempo, a palavra deixou de descrever apenas um “vizinho de rio” e passou a designar qualquer adversário, concorrente ou aquele que disputa a mesma coisa. Os rivais, a meu juízo, são aqueles que mais nos fortalecem, pois nos obrigam a estudar, trabalhar, construir bons argumentos e manter sempre a atenção sobre todas as coisas.
Já a palavra inimigo vem do latim inimīcus, que é formada pela junção do prefixo de negação in- (“não”) com a palavra amīcus (“amigo”); é aquele que não é amigo. Com o tempo, o termo passou a designar não apenas a ausência de amizade, mas também a oposição, a hostilidade e a ameaça.
Não apenas palavras, são formas de compreender o outro na esfera da polis, da Política como atividade humana voltada para a organização, administração e tomada de decisões em uma sociedade. Atividade que envolve a gestão de recursos, a distribuição de poder e a criação de leis ou regras que orientam a convivência pacífica entre as pessoas.
O neofascismo, que no Brasil é representado pelo bolsonarismo e nos EUA pelo trumpismo, não quer debater, interagir ou relacionar-se respeitosamente com os diferentes. Na Política, a meu juízo, não há lugar para cultivar inimigos, mas para respeitar os rivais, debater com eles e, muitas vezes, aprender com eles.
Lamentavelmente, depois que o fascismo voltou a transitar pelas ruas, sob a alcunha de bolsonarismo, tem sido muito difícil o exercício da cidadania, pois eles não nos veem como rivais; todos que não assentem integralmente com o ideário da extrema-direita destruidora das instituições são seus inimigos.
Por isso, vencê-los no domingo é ato de defesa da civilização, da ética e da democracia.
Brasil 247