Após ser bem-sucedido em denunciar os riscos que enxerga na candidatura de oposição, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva disparou o que parece ser sua bala de prata para virar a eleição. O tiro combina um patamar de mobilização digital inédito para os padrões da esquerda, considerado superior ao desempenho do portal Muda Mais na campanha de reeleição de Dilma Rousseff, com a decisão de dobrar a aposta na disputa pela bandeira anticorrupção, por meio do desafio dos sigilos.
Como efeito, todas as pesquisas divulgadas na semana confirmaram o acirramento da polarização, ainda que apontem uma leve vantagem estatisticamente insegura do senador Flávio Bolsonaro. O reconhecimento da efetividade do chamado “Exército do Lula”, que saltou de 5 milhões para 7 milhões de inscritos em 24 horas, refletiu-se na abortada proposta do presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), André Mendonça, associado politicamente ao bolsonarismo, de proibir canais com mais de 200 mil membros nas 48 horas anteriores e nas 24 horas posteriores ao segundo turno.
Qualquer interferência judicial no canal, a essa altura do campeonato, deve ser interpretada como golpismo. O lendário comandante vietnamita Võ Nguyên Giáp, que ganhou guerras contra a França e os Estados Unidos, demonstrou que o primeiro passo para uma vitória espetacular é conquistar a paridade.
Com a esquerda reduzindo a zero a assimetria com a direita nas redes e Lula encurralando Flávio com um desafio à sua integridade, estrategistas avaliam que o senador pode acabar derrotado também na última dimensão decisiva da disputa. Para esses estrategistas, problemas cada vez mais estruturais do novo capitalismo, como o custo de vida e a insegurança socioeconômica, em permanente contraste com os escândalos de corrupção política e o estilo de vida de famosos e super-ricos, alimentam o sentimento antissistema.
Esse sentimento, porém, está longe de impulsionar apenas a extrema-direita, como indica a onda de protestos na Europa. O desafio para quem governa seria não se limitar a responder às novas demandas, como as por educação e incentivos à independência econômica pessoal, mas em fazer isso compartilhando ativamente a indignação civil com os constrangimentos impostos pelo poder econômico à democracia.
O DESAFIANTE BBB E O INCUMBENTE ANTISSISTEMA Mesmo tendo governado três mandatos completos, de um total de quatro e meio exercidos pelo PT, a trajetória pessoal, política e governamental de Lula foi marcada pela resistência constante das camadas de alta renda à sua liderança e às suas políticas, o que lhe confere plena legitimidade para se definir como antissistema.
São exemplos desse antagonismo estrutural as críticas da época aos aeroportos parecerem rodoviárias, aos mecanismos de democratização do ensino superior e a alegoria da patroa rica contrariada ao encontrar a empregada doméstica na Disney. No contexto hodierno, essa oposição do “andar de cima” também se manifestou diante da valorização do salário mínimo, da taxação dos super-ricos e do fim da escala 6×1.
Para esses especialistas, Flávio ficará ainda mais vulnerável se, no último debate, for associado abertamente à simpatia que recebe do mercado financeiro, de onde parte a defesa de cortes nos gastos sociais. O senador também poderá ser tensionado caso Lula consiga expor as restrições fiscais, monetárias e cambiais defendidas pelo establishment para impedir que o governo atenda às demandas da sociedade na profundidade necessária.
Em três dias, a sucessão presidencial poderá ser definida também por uma disputa em torno da honestidade, na esteira do acerto de contas do país com a prisão de Lula e a posterior anulação de suas condenações. Sinal dos tempos, o advogado Márlon Reis, idealizador da Lei da Ficha Limpa, declarou voto em Lula.
O confronto final ocorre em meio à disputa entre forças que protagonizaram, como algozes e vítimas, episódios decisivos da história recente, como a prisão do petista, a vitória de Jair Bolsonaro, a pandemia de COVID-19, a suspeição de Sergio Moro, o retorno de Lula à Presidência e a condenação do ex-presidente.
Em contraponto à vantagem de Lula na iniciativa política, consultorias internacionais descartam a possibilidade de uma bala de prata e avaliam que, apesar do crescimento do petista, o incumbente não deverá derrotar seu opositor. Estimam em 70% as chances de vitória do senador Bolsonaro, cuja vantagem é calculada atualmente em cerca de dois pontos percentuais.
Os Fariaminions, como são conhecidos os farialimers que apoiam o clã Bolsonaro, já agendaram até mesmo confraternizações pós-eleitorais na região do “Condado”.
Brasil 247