O episódio do Maracanã após Vasco x Boca Juniors é mais um capítulo lamentável da torcida brasileira que confunde paixão com vandalismo e, no fim, só consegue prejudicar o próprio clube. Os números oficiais do consórcio Fla-Flu não deixam margem para narrativa romântica: 489 cadeiras destruídas, sendo apenas 47 no setor da torcida visitante.
O restante — a esmagadora maioria — ficou em áreas ocupadas por torcedores do Vasco. Somem-se a isso oito vasos sanitários quebrados, bebedouros, torneiras, corrimãos e a colagem de adesivos que danificou sinalização e pintura do estádio.
Prejuízo superior a R$ 300 mil. Não foi “a torcida argentina que fez estrago”.
Foi, majoritariamente, a torcida da casa.O contexto torna o comportamento ainda mais inaceitável. Flamengo e Fluminense administram o estádio e travaram uma briga judicial justamente para evitar que o Vasco usasse o Maracanã, alegando preservação do patrimônio e da operação.
O Vasco conseguiu a autorização na Justiça e lotou o estádio. A resposta de parte da torcida, depois da eliminação, foi depredar o que não é seu.
Em vez de aceitar a derrota e sair, transformaram a frustração em destruição de patrimônio público e de um estádio que o próprio clube precisou de decisão judicial para usar. O resultado prático é previsível e cruel para o Vasco: o consórcio vai cobrar o ressarcimento integral.
O clube que já saiu eliminado da Sul-Americana agora ainda herda uma conta de centenas de milhares de reais e uma relação ainda mais deteriorada com os administradores do principal estádio do Rio. Cada cadeira quebrada e cada adesivo colado dificulta futuros pedidos de uso do Maracanã.
A torcida que diz “amar” o clube acaba entregando argumentos de graça para Flamengo e Fluminense serem mais rigorosos da próxima vez. Não é “paixão”.
É falta de responsabilidade. Enquanto torcidas de outros países também têm problemas de violência, no Brasil esse padrão se repete com uma regularidade constrangedora: o estádio vira alvo quando o time perde, o prejuízo fica para o clube e, no dia seguinte, a mesma torcida cobra “união” e “respeito ao patrimônio”.
O Maracanã não é brinquedo de torcida rival nem de torcida da casa. Quem depreda estádio no dia em que o próprio time precisa do local para jogar não está ajudando o clube.
Está sabotando. Casos assim mostram por que muitos estádios brasileiros ainda são geridos com desconfiança e por que o diálogo entre clubes rivais no Rio continua tão deteriorado.
Enquanto parte da torcida tratar patrimônio alheio como extensão da arquibancada, o custo — financeiro e político — vai continuar sendo pago pelo clube que ela afirma defender.Até a próxima.
Jovem Pam