Nove mulheres foram encontradas mortas desde julho em Ekurhuleni, região a leste de Joanesburgo, na África do Sul. Os casos, registrados em circunstâncias semelhantes e com relatos de violência extrema, têm provocado medo e indignação no país. Apenas nesta semana, três corpos foram localizados na região. Até o momento, porém, a polícia não confirmou que as mortes estejam relacionadas ou que tenham sido cometidas por um único criminoso. Quer ler mais notícias de Mundo? Acompanhe o canal no WhatsApp Quer morar fora? Veja guia interativo que reúne informações sobre 36 países Uma das vítimas mais recentes é Dineo Evelyn Motapane, de 38 anos e mãe de dois filhos. Ela foi vista com vida pela última vez no domingo e posteriormente encontrada em uma área residencial de Ekurhuleni, com ferimentos provocados por espancamento e sinais de queimaduras, segundo informações reunidas pela BBC. Dois dias depois de a família identificar o corpo, a tia de Dineo, Nokwanda Matshikiza, falou sobre o impacto da morte e a dificuldade de explicar o crime à filha da vítima. — Como você explica que sua mãe foi brutalmente assassinada, jogada em um campo e simplesmente deixada lá, descartada como um pedaço de lixo? — questionou Nokwanda. Ela também questionou quantas outras mulheres ainda precisarão morrer antes de uma mudança na resposta das autoridades. — Não há como fazer as pazes com isso. É algo com que você nunca consegue se reconciliar, algo que nunca consegue superar — acrescentou. Ao lembrar do assassinato da sobrinha, Nokwanda afirmou: — O que vamos fazer, eu não faço ideia — soluçou: — Mas alguma coisa precisa mudar. Por nós, por todas as outras mulheres. Quantos outros corpos serão encontrados antes que alguma coisa aconteça? Corpos encontrados em diferentes pontos da região Uma das primeiras vítimas foi Itumeleng Kekana, de 32 anos, que trabalhava como comerciante. Ela desapareceu e foi encontrada 17 dias depois, em julho. O corpo estava muito machucado, parcialmente vestido e havia sido jogado de uma ponte. O irmão de Itumeleng, Themba Kekana, falou à BBC sobre a perda da família. — Estamos devastados pela dor — disse Themba, com os olhos marejados. Ele também relatou o impacto da morte sobre a filha da irmã. — Olho para a filha pequena da minha irmã e meus olhos se enchem de lágrimas. Sei que não há como tirar essa dor dela. Nenhuma família deveria ter de lidar com o que estamos enfrentando. A polícia ainda não confirmou se existe uma ligação entre os nove assassinatos.
Até o momento, apenas uma prisão havia sido feita em conexão com os casos. O suspeito foi detido dois dias depois da descoberta do primeiro corpo, em 15 de julho, mas nenhuma pessoa havia sido presa especificamente pelas mortes de Itumeleng ou Dineo, nem pelos outros seis casos mencionados. As autoridades também não determinaram se os crimes são obra de um assassino em série ou se os episódios não têm relação entre si. Violência extrema amplia medo entre mulheres A sequência de mortes reacendeu a discussão sobre a violência contra as mulheres na África do Sul. A maioria das vítimas tinha entre 20 e 30 anos e, segundo o material reunido pela BBC, quase todas sofreram violência extrema antes de morrer. O avanço dos casos aumentou também a sensação de insegurança entre mulheres que já se consideravam vulneráveis. Em Ekurhuleni, relatos de moradores apontam mudanças na rotina e maior receio de circular sozinhas pelas ruas. Entre abril e junho deste ano, a polícia registrou 5.427 homicídios no país. Os dados oficiais não dividem as vítimas por gênero. Nesta semana, porém, a Comissão de Direitos Humanos da África do Sul divulgou números segundo os quais 569 mulheres foram assassinadas no mesmo período, uma média de seis mulheres por dia. Outras 1.052 foram vítimas de tentativa de assassinato. Governo volta a ser pressionado A nova sequência de mortes ocorre menos de um ano depois de o governo sul-africano classificar a violência de gênero como um desastre nacional. A medida foi anunciada em novembro do ano passado, depois de semanas de protestos que culminaram na marcha "Women's Shut Down", realizada durante a cúpula do G20 na África do Sul. Na ocasião, a então ministra do Desenvolvimento Social, Nokuzola Sisisi Tolashe, afirmou que o reconhecimento da gravidade da violência permitiria uma resposta mais ampla do governo. Agora, diante dos novos assassinatos, organizações e ativistas voltaram a cobrar medidas das autoridades. O presidente Cyril Ramaphosa afirmou nesta semana que a investigação sobre os crimes de Ekurhuleni deve ser conduzida de forma abrangente. — Nenhuma pedra sobre pedra — afirmou Ramaphosa: — Como nação, precisamos nos posicionar em defesa dos direitos, da segurança e da dignidade de mulheres e meninas. Anistia pede crime específico para feminicídio A Anistia Internacional defendeu que o feminicídio seja reconhecido como um crime específico na África do Sul. A diretora da organização no país, Shenilla Mohamed, afirmou que a falta dessa classificação dificulta a dimensão do problema. — Cada dia em que o feminicídio continua sem ser reconhecido como crime é uma falha em enfrentar o assassinato deliberado de mulheres. É hora de chamá-lo pelo que ele é: feminicídio — disse Mohamed: — Feminicídio é um crime motivado por gênero. É o assassinato de uma mulher porque ela é uma mulher. Segundo a organização, 33 países já criminalizam o feminicídio como um crime específico, entre eles Gabão e Marrocos. Para a Anistia, a adoção da classificação na África do Sul poderia ajudar a medir melhor a dimensão da violência contra mulheres. — Isso obrigaria o Estado a enfrentar sua falha em proteger mulheres e meninas da violência — afirmou Mohamed: — Não é possível corrigir aquilo que não se monitora. Ativistas relacionam violência a heranças históricas Lebogang Ramofoko, ativista pelos direitos das mulheres e pela justiça social, relacionou os níveis de violência contra mulheres negras no país a processos históricos de colonização e apartheid. — Os corpos das mulheres negras foram tratados como descartáveis neste país desde tempos imemoriais, em uma herança que vai da colonização ao apartheid — disse ela à BBC, referindo-se ao sistema legalizado de racismo que vigorou até 1994. Segundo Ramofoko, as consequências desses períodos ainda aparecem na violência contemporânea. — O que vemos acontecer com as mulheres é testemunho de legados de violência desses sistemas, cujos traumas nunca foram enfrentados. Ela fez uma ressalva sobre a relação entre violência histórica e homens negros: — Isso não quer dizer que os homens negros sejam inerentemente violentos, mas, em sistemas nos quais a violência foi infligida contra eles durante décadas, historicamente as mulheres negras eram as pessoas sobre as quais essa violência acabava sendo descarregada. Esse ciclo não foi rompido. Kempton Park concentra cinco dos nove casos Kempton Park, um dos distritos de Ekurhuleni, é uma das áreas que concentram parte dos casos recentes. Cinco dos nove corpos foram encontrados na região. O aumento do medo também se refletiu em mobilizações organizadas por moradores e grupos de defesa das mulheres. Lumka Maqhubela, integrante da Girl2Woman Foundation, participa dos protestos e afirmou que a população já não se sente protegida. — Estamos de luto, estamos com medo — disse ela. — Se a polícia não pode mais nos proteger, o governo deveria intervir e fazer alguma coisa. Lumka acrescentou: — Está claro que não estamos seguras. Não podem nos dizer, pela polícia, para ficarmos mais vigilantes. Eles deveriam fazer mais para tornar nossas comunidades seguras. O que mais esperam que façamos? Não estamos seguras em lugar nenhum, nem em nossas casas, nem nas ruas. Isso precisa parar. Thulisile Sibande, de 32 anos, contou que passou a prestar mais atenção ao redor quando sai de casa. — Eu me sinto desconfortável — disse Thulisile. — Quando vou a uma loja, preciso olhar ao redor. Estou chocada e com medo. Com muito medo, é um trauma. Thembi Mabena, de 60 anos, morava no mesmo bairro de Dineo Motapane. Ela descreveu a mulher como alguém que costumava interagir com os moradores. — Ela ria todos os dias, com todo mundo — lembrou. — Agora estou preocupada. Segundo Thembi, o medo também passou a afetar meninas da região. — Conheço muitas crianças, meninas, que me dizem que têm medo de ir sozinhas à loja. Não há segurança, nem para mim. Sou velha, mas também não há segurança. Lerato Mzizi, de 20 anos, resumiu o sentimento entre parte das mulheres entrevistadas: — Na África do Sul, as mulheres não estão mais seguras — disse. Investigação ainda não aponta ligação entre crimes Apesar da semelhança entre parte das ocorrências, a polícia sul-africana ainda não confirmou uma conexão entre os nove casos. Também não há, até o momento descrito pela BBC, evidência apresentada pelas autoridades de que todos tenham sido cometidos pelo mesmo criminoso. Uma única prisão havia sido realizada em conexão com os assassinatos. O caso continua em investigação, enquanto famílias das vítimas e grupos de defesa das mulheres pressionam por uma resposta mais ampla das autoridades.
O Globo