A crise do Supremo Tribunal Federal (STF) tem aumentado a radicalização entre setores evangélicos bolsonaristas, que disseminam nas redes sociais narrativas bíblicas que colocam o ministro André Mendonça, indicado pelo ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), como “escolhido” de Deus e reforçam o apoio à candidatura de Flávio Bolsonaro (PL) à Presidência da República. Por outro lado, as publicações enquadram o colega de Corte Alexandre de Moraes como um adversário na “batalha espiritual”. Seis horas para debater 'questão de ordem': Sessão do STF não chegou sequer ao mérito do que pesa sobre Moraes; entenda Relembre: PF apontou 52 mensagens de Vorcaro a Moraes em relatório usado em julgamento no STF Esse é o principal movimento das últimas semanas observado no relatório “Narrativas evangélicas e contexto eleitoral”, da Casa Galileia em parceria com o Instituto Democracia em Xeque. Os responsáveis pelo levantamento analisaram 26.762 postagens, que concentraram mais de 180 milhões de interações feitas entre 31 de agosto e 13 de setembro por 573 perfis de lideranças políticas e religiosas, organizações, veículos de mídia e influenciadores evangélicos no Instagram, YouTube, X, TikTok e Facebook. Segundo a nova análise, o conflito foi o tema central no segmento no período, mobilizando profecias de justiça divina, oração, providência, personagens bíblicos e a ideia de uma batalha entre o bem e o mal, que atribui a Mendonça um papel de “instrumento divino” e coloca Moraes no campo do adversário moral.
Quer acompanhar de perto o noticiário das eleições? Participe da comunidade do GLOBO no WhatsApp O pastor Silas Malafaia, a bispa Sônia Hernandes e a pastora Valnice Milhomens são algumas lideranças que protagonizam as narrativas. Uma suposta profecia compartilhada por Valnice há cerca de cinco meses durante a Vitoriosas Conference, um evento destinado a mulheres evangélicas, voltou a repercutir. Na época, a pastora disse que “Deus age por meio do pastor presbiteriano e ministro do STF”. “Diante de tudo o que se desenrolou na república em Brasília, tornou-se evidente que o Senhor permaneceu soberano sobre a história, conduzindo os destinos da nação, mesmo nas horas em que tudo parecia perdido. E agora, os últimos acontecimentos reacenderam a esperança dos brasileiros”, diz a publicação que recupera a fala de Valnice. Faça o teste do GLOBO e descubra: Com qual candidato a presidente você mais se identifica? Já Malafaia fez uma publicação com a legenda “mensagem profética” em que traz uma fala dita por ele no Sete de Setembro do ano passado. No pronunciamento, o pastor se dirige a Moraes ao afirmar que Deus o “derrotaria no tempo certo”. O relatório destaca que Malafaia aumentou seu alcance nas redes sociais desde que voltou a atacar publicamente o ministro. Outra postagem recupera a participação da bispa Sônia Hernandes nos atos do Sete de Setembro deste ano na Avenida Paulista, em São Paulo, quando ela orou por Mendonça e afirmou que, nas próximas eleições, “as trevas não vão ocupar nenhum cargo no país”.
Quem também atribuiu a ação de Mendonça a uma dimensão religiosa foi a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro (PL) ao afirmar que, quando o ministro foi indicado à Corte, orou pela sua vida durante um retiro espiritual e recebeu de Deus a confirmação de que ele chegaria ao tribunal. Michelle, que disputa uma vaga no Senado, disse ainda que Mendonça é “escolhido e ungido do Senhor” e que “a amada Igreja o ama”. Qual é o seu perfil ideológico? Teste do GLOBO revela sua posição político-ideológica com base em uma série de perguntas O ministro escolhido por Jair Bolsonaro por ser "terrivelmente evangélico" também foi associado a personagens bíblicos, como Daniel na cova dos leões, enquanto Moraes apareceu nas postagens ligado a figuras como a do rei Belsazar, último mandatário da Babilônia que caiu após gestos de arrogância e profanação. O ministro desafeto do bolsonarismo foi representado ainda junto a imagens demoníacas. Após tornar públicas mensagens Daniel Vorcaro, dono do Master, para Alexandre de Moraes, o próprio Mendonça, que é pastor presbiteriano, gravou um vídeo de agradecimento: “Meus irmãos e minhas irmãs, minha palavra se dirige a vocês essencialmente para agradecer tantas mensagens de oração e de carinho. Estejam certos que suas preces a Deus têm sido fundamentais para me sustentar e sustentar a minha família”, disse o juiz. Apoio explícito a Flávio Bolsonaro O relatório aponta um aumento na quantidade de lideranças evangélicas que tornaram explícito o apoio a Flávio na disputa presidencial, caso do apóstolo Estevam Hernandes, do pastor André Fernandes, que lidera a Igreja Celeiro, e do apóstolo Valdemiro Santiago, que conduz a Igreja Mundial do Poder de Deus. O senador esteve em ambas as congregações recentemente.
O pastor Cláudio Duarte também se manifestou por meio de um vídeo, que alcançou mais de 1 milhão de pessoas, no qual pede aos seguidores para se posicionarem contra o atual presidente, Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que busca a reeleição.
Embora a direita mantenha o maior engajamento entre lideranças políticas evangélicas, no outro lado do espectro político o candidato a deputado federal André Janones (Rede-MG) é o que mais se destaca, com 151 posts acumulando 5 milhões de interações. O conteúdo envolve ataques a Flávio Bolsonaro, Mendonça e ao deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG), além da defesa de Lula. O deputado federal Henrique Vieira (PSOL-SP) também aparece de forma relevante ao utilizar referências a Jesus e à tradição cristã para questionar a coerência entre o discurso religioso e as práticas políticas de seus adversários do campo bolsonarista. Já as postulantes ao Senado Benedita da Silva (PT-RJ) e Marina Silva (Rede-SP), embora notórias no meio evangélico, focam em temas ligados às suas candidaturas.
O Globo