O escritor haitiano-canadense Thélyson Orélien, de 38 anos, admitiu ter cometido plágio em trabalhos anteriores, mas nega ter usado inteligência artificial (IA) para escrever seu romance mais recente, "C'était ça ou mourir". A controvérsia levou o júri do prêmio Goncourt, considerado a mais prestigiosa distinção literária francesa, a retirar a obra da lista de finalistas deste ano.
Quem é Thélyson Orélien, escritor no centro de polêmica envolvendo IA e plágio Repercussão: Escritor interrompe turnê na França após ser acusado de usar IA em produção de livro Em comunicado divulgado na terça-feira por sua editora francesa, Orélien pediu desculpas por apresentar textos de outras pessoas como se fossem seus, mas classificou como “calúnia e heresia” a acusação de que uma máquina teria produzido partes do romance. O que o escritor admitiu sobre plágio Orélien reconheceu ter reproduzido textos de outros autores em trabalhos anteriores, mas afirmou que sua admiração por eles não justificava a apropriação. “Mas a admiração não me dá o direito de me apropriar de textos que não são meus e reivindicá-los como se fossem meus”, declarou.
O escritor também reconheceu a gravidade da conduta e pediu desculpas: “Cometi erros inaceitáveis, apesar da minha juventude e inexperiência. Lamento profundamente e peço desculpas sem reservas”. As acusações envolvem publicações anteriores ao romance lançado neste ano. A emissora pública canadense Radio Canada informou que quatro artigos de opinião assinados por Orélien em 2012 e 2013 continham material plagiado.
A emissora também apontou semelhanças entre trechos do conto Où va le monde, premiado em 2012, e passagens de Le Matin des Magiciens, livro francês publicado em 1960. Por que o romance foi acusado de usar inteligência artificial A suspeita surgiu no mês anterior, quando um perfil pouco conhecido nas redes sociais afirmou ter submetido "C'était ça ou mourir" à ferramenta Pangram, usada para detectar textos produzidos com inteligência artificial.
Segundo a publicação, o resultado indicava que o livro havia sido escrito com auxílio da tecnologia. Posteriormente, descobriu-se que Samuel Fitoussi, colunista do jornal conservador francês Le Figaro, administrava parcialmente a conta responsável pela acusação. Orélien negou ter usado IA na produção do romance. Ele reconheceu que recorreu a ferramentas de pesquisa, principalmente para consultar expressões idiomáticas estrangeiras, mas afirmou que nenhuma frase foi criada por uma máquina.
“De fato, usei ferramentas de pesquisa aqui e ali, principalmente quando se tratava de expressões idiomáticas estrangeiras”, declarou. “Mas nenhuma frase deste livro foi criada por uma máquina”, acrescentou. Não foi divulgada uma conclusão independente sobre o uso de inteligência artificial na obra, nem foram detalhadas as evidências que fundamentaram a decisão do júri do Goncourt de retirar o romance da disputa. Qual é a história do livro Orélien cresceu em uma família de classe média no Haiti e se mudou para o Canadá após o terremoto de 2010, que matou mais de 200 mil pessoas e destruiu sua casa. A experiência migratória está relacionada à narrativa de "C'était ça ou mourir", que acompanha a difícil jornada de um haitiano rumo ao Canadá. Ao explicar a origem do romance, o escritor disse que a história reúne experiências pessoais e de outras pessoas que passaram pela migração. Segundo ele, a narrativa “vem das minhas próprias feridas e das feridas de outros migrantes”.
Orélien afirmou que começou a escrever o livro em 2017 e concluiu uma primeira versão, com 300 páginas, em 2019, antes de as ferramentas de inteligência artificial se tornarem amplamente disponíveis. Em seu comunicado, sustentou que a tecnologia não criou “o significado ou a estrutura de uma narrativa que vem das minhas entranhas”. Escritor critica repercussão Nas primeiras manifestações sobre o caso, Orélien negou categoricamente o uso de IA. Com o aumento da repercussão e o surgimento das denúncias de plágio, deixou de comentar o assunto publicamente e interrompeu abruptamente sua turnê literária pela França. Ao voltar a se pronunciar, afirmou que o silêncio permitiu que outras pessoas contassem sua história por ele. “O silêncio tem um preço: ao permanecer calado, eu estava deixando que outros contassem minha história por mim”, declarou. O escritor também criticou os “especialistas” que, segundo ele, “partiram para cima” de seu romance. Embora tenha reconhecido a legitimidade das críticas ao plágio, Orélien afirmou que a reação pública ultrapassou os limites do debate sobre a obra. Ele descreveu as últimas semanas como “insuportáveis” e disse ter sido alvo de “ameaças”, “linchamento midiático” e “assédio racista”. Ao encerrar o comunicado, pediu que o romance fosse julgado “pelo que é”. O caso provocou um debate entre escritores e editores franceses sobre o uso da inteligência artificial na literatura e os critérios para determinar a autoria de uma obra.
O Globo