O que é que a Barra tem? Saiba por que as casas de shows do bairro estão atraindo turnês comemorativas de estrelas da MPB e do rock nacional

 

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Coincidência ou não, nos últimos anos, grandes nomes da MPB e do rock nacional vêm organizando turnês para celebrar marcos de suas trajetórias. Especiais, elas cumprem a função de revisitar grandes sucessos, destacar o aniversário de lançamento de um álbum emblemático, servir como despedida. Sendo assim, precisam de palcos especiais. E muitos grupos e artistas têm encontrado nas casas de shows da Barra o cenário perfeito para estas ocasiões. Os motivos variam: vão desde tradição a capacidade de público, qualidade da estrutura, localização acessível e conforto. Só este ano, pelo menos seis shows comemorativos das carreiras de nomes conceituados foram confirmados no bairro. E a lista deve crescer.

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— Essa tendência teve início em 2022, com a turnê de despedida do Milton Nascimento. Foi o primeiro que recebemos nesta linha. A partir de então, tivemos Maria Bethânia com Caetano Veloso e Gilberto Gil, entre outros. Realmente o mercado está bem aquecido — diz a gerente-geral da Farmasi Arena, Christiane Mascarenhas, casa que pode ter shows com várias configurações no espaço interno e também organiza eventos na área externa. — Em abril, vamos anunciar datas de outros dois grupos nacionais nessa mesma linha.

Em 2026, a Farmasi irá receber a turnê comemorativa de 50 anos de carreira de Djavan, em agosto, e o primeiro show da turnê “Encontro”, do Barão Vermelho, no fim de abril, que reúne integrantes da formação original, incluindo Frejat, e rodará o Brasil nos meses seguintes. No Rio, haverá participação de Ney Matogrosso. Também este ano, Alceu Valença levou o seu show de aniversário de 80 anos para a arena.

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O espaço é o que tem a maior capacidade de público na região. Em eventos esportivos, como o UFC, já chegou a receber 16 mil pessoas. Para shows, abriga entre quatro mil e 13 mil, a depender da configuração de plateia. Uma intervenção feita recentemente foi a colocação de uma cortina móvel que fecha o terceiro anel da arquibancada, para escondê-lo nos formatos de shows menores. Construída para os Jogos Pan-Americanos de 2007, a arena recebe shows internacionais desde os seus primeiros anos. Mas demorou até os artistas nacionais aderirem.

— O primeiro desafio é trazer o artista e mostrar que ele também pode fazer show aqui. Depois é manter, fazer com que queira voltar. Aí, um vê que o outro fez, percebe que é possível, e vai fluindo — explica Christiane, que destaca atrativos da casa. — Essas turnês vêm com uma grande estrutura de cenário, e aqui pode-se montar algo do tamanho que o artista quiser. E isso em um espaço fechado, climatizado e com estacionamento.

Ivan Lins no palco do Qualistage, cantor voltará à casa em abril

Divulgação/Dantas Jr

A grandiosidade das apresentações faz com que o público entenda essas apresentações como experiências únicas. Depois do início das vendas para duas datas de shows do Djavan, a produção abriu uma data extra. Mesmo com grande capacidade de público, não é raro que a demanda leve à marcação de mais uma apresentação.

— Normalmente, já deixamos uma pré-reserva (para abrir data extra). Claro que depende de como o show vai performar, mas todas essas turnês estão indo muito bem. O nosso público não é só da Barra; recebemos gente até de outros estados. Temos inclusive uma parceria de pacotes com o hotel Lagune (que fica próximo), para hospedagem e transporte — conta a gerente.

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Empresária de Djavan, Suzy Martins faz coro à analise da executiva da Farmasi.

— Nos últimos anos, houve uma mudança clara no mercado, com artistas de MPB e suas equipes passando a enxergar arenas e estádios como espaços viáveis. Existe uma demanda crescente por shows maiores, e a MPB tem respondido muito bem a esse movimento — diz ela. — A escolha da Farmasi Arena foi estratégica, considerando principalmente a capacidade, a estrutura e a localização, além de ser um espaço preparado para receber grandes produções.

Turnê do Barão Vermelho com integrantes da formação original terá primeiro show na Farmasi Arena

Divulgação/Pedro Dimitrow

Mesas, pista ou as duas configurações

Se a Farmasi Arena figura como o espaço com capacidade de receber os maiores públicos, o Qualistage ostenta a tradição de ser a casa de shows de grande porte mais antiga do bairro, com 32 anos, e também vem atraindo shows comemorativos. No próximo sábado, Ivan Lins faz lá uma apresentação da turnê dos seus 80 anos. Já em maio será a vez da única apresentação no Rio do show que celebra os 40 anos do aclamado álbum “Cabeça dinossauro”, dos Titãs. Os roqueiros acabam de estrear a turnê em São Paulo e passarão por mais outras duas cidades apenas.

Velho conhecido da casa, Ivan Lins ressalta que escolhe onde fará seus shows por critérios como qualidade técnica e público local.

— Eu já teria que fazer no Qualistage; tenho um grande público na Barra que me interessa muito. São jovens que cresceram ouvindo minhas canções e muitas vezes vão com seus pais ao show. É um público entusiasmado, que sabe mais das minhas músicas que o da Zona Sul; é o que mais conhece meu trabalho no Rio — garante. — E o Qualistage talvez seja a melhor casa da cidade. O Vivo Rio (no Flamengo) que me desculpe, adoro eles. Mas é muito bom tocar no Qualistage, é uma casa superpreparada, com som e acústica muito bons.

Tony Bellotto em show comemorativo dos 40 anos do disco "Cabeça dinossauro"

Divulgação/b+ca

Já a tendência de shows comemorativos de marcos de carreira ou longevidade, avalia ele, é natural numa geração que não pensava estar ativa tanto tempo.

— Na época em que eu comecei, quem tinha 80 anos já estava no túmulo. Hoje poder chegar aos 80 e compartilhar minha arte é incrível. Esses shows comemorativos acontecem pelo fato de termos chegado onde nós chegamos ainda vivos e com bastante público — diz.

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Em 2021, quando mudou de nome pela última vez, o Qualistage sofreu uma ampla reforma, para oferecer melhores condições e conforto para artistas e público. Sócio-diretor da casa, Bernardo Amaral diz que o espaço oferece atrativos que passam por histórico, capacidade de público, qualidade técnica e força de mídia. O preenchimento da agenda é feito de duas formas: além de receber propostas, a equipe procura os artistas:

— É sempre uma mão dupla. A conversa vem dos dois lados. Temos que estar sempre em contato com o mercado, para sabermos sobre essas homenagens e não deixarmos as oportunidades passarem.

Alceu Valença levou o seu show de 80 anos à Farmasi Arena

Divulgação/Farmasi Arena/Patrick Teixeira

Novas opções de transporte também contribuíram para que moradores de outras áreas da cidade passassem a frequentar as casas de show de Barra. Todas as grandes oferecem estacionamento. A Farmasi, nos últimos anos, investiu em asfaltamento para todas as mil vagas que possui. Mas a estação Jardim Oceânico do metrô e o BRT facilitaram a vida de quem não tem carro ou prefere sair para se divertir sem ele.

— O metrô foi muito importante. Mas tão ou mais importante é o BRT, que deixa aqui na porta e tem capilaridade. Além do táxi, tivemos aumento dos carros de aplicativo, o que também facilita muito. Como ficamos dentro do Via Parque, as pessoas pedem os carros daqui com uma melhor sensação de segurança — avalia Amaral.

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O gestor destaca a importância de as casas oferecerem configurações de plateia que permitam que se tenha só pista, só mesas ou um modelo misto, especialmente para os shows de MPB e rock. No caso do Qualistage, a capacidade de público varia de 3.200 a 8.500 pessoas.

— Estes artistas são atemporais, foram passando por gerações. Eles têm um público mais velho e também fãs em uma faixa de 30 e 40 anos. Os artistas têm adorado colocar o público em pé também, na configuração mista de pista na frente. Porque são shows animados.

José Augusto no palco do Espaço Hall

Divulgação/Espaço Hall/Ana Flávia Mendonça

No Espaço Hall, na Avenida Ayrton Senna, onde é possível receber até seis mil clientes em shows, dois shows comemorativos terão configurações diferentes nas próximas semanas. Os roqueiros do Biquini Cavadão terão formação mista, com cadeiras à esquerda e pista à direita, na noite que dividirão com os Paralamas do Sucesso, em junho. Já o romântico José Augusto terá apenas mesas na plateia do show que comemora os seus 50 anos de carreira.

— As mesas são importantíssimas para quem curte meu trabalho. Porque as pessoas não vão para dançar, mas para apreciar o que está acontecendo no palco. É sempre confortável ter uma mesa para se sentar e um garçom para te atender. Dessa forma, as pessoas ficam atentas ao show, mesmo comendo e bebendo antes da apresentação — diz o autor de “Evidências”, que mora no Recreio e vem buscando se apresentar mais na região.

Diretor artístico e sócio do Espaço Hall, Fabiano Fonseca avalia que o público da MPB é mais exigente que o de outros segmentos, mais atento em relação ao serviço da casa e busca mais conforto, além de pagar um ticket médio mais elevado. A casa vem buscando ainda ampliar o seu público, tendo o gênero como fator chave para alcançar este objetivo.

— Existia um preconceito em achar que éramos uma casa popular, que vem do Barra Music (antigo nome da casa). E fomos mostrando que podemos ter um público mais eclético. Tiramos essa resistência e viramos essa chave ainda em 2021 — avalia Fonseca, que monta a casa para 2.500 lugares, quando tem apenas mesas, como no caso do show de José Augusto — Ele é um grande artista de renome, mas não enche uma casa com seis mil lugares. No entanto, buscamos nomes como ele, que dão credibilidade e trazem um público de famílias.

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