Felipe relembra defesa de pênalti no 5 a 4, títulos pelo Flamengo e fala sobre atuar na liga de Luxemburgo aos 42 anos
Felipe defendia o Sampaio Corrêa e havia acabado de ser campeão maranhense de 2024 quando recebeu um telefonema com uma oferta que mudaria sua vida: um contrato de dois anos com o Differdange, de Luxembugo, que disputa, além da liga nacional, a fase preliminar da Champions. Aceitou e não se arrependeu. Aos 42 anos, o goleiro já se considera adaptado. Vive a expectativa de renovar por uma nova temporada e — quem sabe? — assumir um cargo na comissão técnica após isso.
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Como torcedor, não perde os jogos do Flamengo. E se recorda bem dos cinco anos em que defendeu a baliza rubro-negra. Como o icônico 5 a 4 no Santos, em 2011; a Copa do Brasil de 2013 e dois títulos cariocas (2011 e 2014).
Como é viver e jogar em Luxemburgo?
Não vou mentir. Apesar de ser Europa, não é o centro do futebol europeu. O país em si é um dos melhores para se morar em relação à qualidade de vida e segurança. E está há poucas horas de carro de Paris, Amsterdã, Alemanha e Bruxelas. O futebol não é 100% profissional. Com exceção do meu clube, que é o atual bicampeão e de perfil mais profissional, 80% dos jogadores das outras equipes trabalham. Tem médico, professor, advogado... Mas dá vaga para as competições europeias. Tanto que meu time jogou a pré-Champions e foi ao playoff da Conference League. Se tivéssemos passado, teria sido um marco.
Então já se adaptou?
Para mim, com 42 anos, estou muito surpreso de ainda conseguir jogar em alto nível e bater recordes. No ano passado fiquei 1.561 minutos sem sofrer gols. Fomos a melhor defesa da Europa no ano passado (15 gols sofridos). Eu joguei 29 de 30 jogos e tomei seis gols (na liga nacional).
A parte ruim é o frio, que a partir de outubro é bem intenso. E o idioma (o país tem três línguas: francês, alemão e luxemburguês). Eu estudo francês e consigo compreender o que falam. Só tenho dificuldade para falar. Mas há muitos brasileiros e portugueses no clube e no país. Então na alimentação tem churrasco, arroz, feijão... E tem uma galera que joga futevôlei, fut7, capoeira... Está sendo bem legal. Espero renovar mais um pouquinho e, quando parar, quem sabe ficar aqui e passar minha experiência para os mais novos.
Pensa em seguir vivendo aí mesmo após a aposentadoria?
Há uns anos, quando perguntavam o que queria fazer quando parasse, eu dizia que nunca tinha pensado nisso. Mas eles (a direção do clube) me pedem para dar treino aos goleiros mais novos. É como um aulão. E a criançada gosta de mim aqui. O diretor do clube já deu entrevista dizendo que pensa em me manter na comissão. São coisas que começo a ver com outros olhos.
Você joga aos 42 anos. O Fábio, aos 45. E tem o Cássio e o Weverton, com 38. A longevidade dos goleiros aumentou?
Tem a qualidade deles que ajuda bastante. Mas os treinamentos melhoraram. O pesado para o goleiro é mais a semana de treinos do que a partida. Às vezes no jogo mesmo a gente é pouco acionado. Mas é importante que esteja rendendo. Futebol é resultado. O Fábio faz defesas espetaculares.
Como cuida da sua forma? Houve alguma mudança em relação a como lidava com isso antes?
Se tivesse, no passado, a cabeça de hoje, ainda estaria jogando nos principais clubes do Brasil. Mas todo mundo pode aprender com seus erros. Hoje me cuido muito mais do que com 25 anos. Até porque, se hoje eu perco a noite de sono, é uma semana para recuperar. Sei que os excessos de antes não posso ter mais. Vou para a academia todos os dias, sei que preciso treinar mais que os outros. Também para o pessoal ver. Não gosto de falar dos 42. É só um número. Importante é que estou rendendo. Completei 50 jogos na liga e fui premiado como melhor goleiro do ano passado.
Tem conseguido acompanhar os jogos no Brasil?
Do Flamengo sempre. Do Vasco também, porque minha mulher é vascaína. Gosto de ver futebol. Vejo do Corinthians, do Cruzeiro. E do Santos, porque quero o Neymar na Copa.
Você participou com ele daquele 5 a 4 lembrado até hoje pelos torcedores.
Todo mundo lembra. Aqui em Luxemburgo, quando os brasileiros me veem, não precisa nem ser flamenguista ou santista, falam dos gols do Neymar e do Ronaldinho, do pênalti do Elano que defendi... Quem ganhou naquele jogo foi o futebol. Pena a gente não ter conquistado aquele título. Quando chegamos no aeroporto, parecia que tínhamos sido campeões. Saguão lotado, todo mundo comemorando.
Quão difícil era parar o Neymar?
A gente andava de bicicleta enquanto ele, de moto. Essa analogia explica bem. Era muito acima da média. Mas antes do jogo todo mundo falava do Neymar. E escantearam o Ronaldinho. Ele ficou puto. Lembro que, quando já estava 3 a 0 e ele fez o nosso primeiro, nem comemorou. Só chamou o pessoal. A gente via o brilho nos olhos dele. Botou a bola debaixo do braço e fez o que sabe: alegrar todo mundo.
Felipe e Ronaldinho Gaúcho no Flamengo, em 2011
Ivo Gonzalez
Chegou a falar com o Elano sobre o pênalti de cavadinha que você defendeu?
Quando ele foi para o Flamengo (2014), tinha essa resenha às vezes. E ele ficava puto. Um mês antes daquele jogo, o Brasil tinha sido eliminado da Copa América nos pênaltis. E o Elano errou a cobrança. Então, quando ele pegou a bola lá na Vila Belmiro, a torcida já estava vaiando, porque não vinha bem. Eu pensei: “Vai no pênalti de segurança, um pancadão no meio”. Tanto que, quando cavou, dou até um passo para a esquerda. E a bola ficou meio que para eu baixar para pegá-la. Como ele quis fazer graça dele, pensei: “Agora vou fazer a minha também”. E dei a embaixadinha. O Neymar veio para cima de mim e dei logo um “pedala” para ele ficar ligado também (risos). Foi legal fazer minha graça. Mas foi um lance que marcou o jogo. Estava 3 a 2 para o Santos. Se a gente toma o quarto gol ali, ia ficar mais difícil.
Este foi o seu jogo mais especial pelo Flamengo?
Eu guardo bastante coisa. A primeira disputa de pênalti, na semifinal da Taça Guanabara de 2011 contra o Botafogo. Tinha acabado de chegar e entrando no lugar do Bruno, que era um exímio pegador de pênaltis. Foi minha chance de mostrar “Calma que estou aqui também”. O título carioca invicto foi importante. E não tem como não lembrar da Copa do Brasil de 2013. Era um time desacreditado, brigou para não cair no final do ano. Não era a potência que é hoje. Mas se uniu e abraçou o Jayme de Almeida depois que o técnico anterior (Mano Menezes) pediu demissão. Lembra muito a história do Andrade em 2009. E conseguimos um título que nem o mais o fanático dos flamenguistas iria imaginar.
Você também foi campeão carioca em 2014, com aquela frase “Roubado é mais gostoso”.
Que atribuem a mim. Eu não digo que não falei porqure não tenho 100% de certeza (de que não falou). Mas, se tivesse dito, teria que ter vídeo ou áudio. Na única entrevista que dou e que tem vídeo, falo “ganhar desse jeito é mais gostoso”. Mas eu me referia ao gol do título no final. Ainda estávamos dentro de campo, a gente não sabia que tinha sido ilegal. Mas as pessoas fizeram essa associação. Aí dizem “Ah, mas no dia seguinte você aparece na TV pedindo desculpas”. É que fui tão bombardeado que no dia seguinte a própria diretoria do Flamengo me pediu para falar isso. E também picharam a casa do meu tio no Gardênia, a torcida do Vasco foi lá. Mas ficou sendo daquelas coisas que viram verdade. Hoje até minha esposa, que é vascaína, me defende mais do que eu.
