O quarto ato do fenômeno batizado ‘lulismo’

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Fonte da notícia: Valor Valor

Na primeira eleição direta para presidente desde a ditadura militar, em 1989, Luiz Inácio Lula da Silva teve 47% dos votos válidos e foi derrotado por Fernando Collor de Mello, com 53% Antônio Ribeiro/Gama-Rapho via Getty Images

Nos últimos anos, aliados esperavam que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) preparasse um sucessor, o que não se confirmou. Agora, ele chega ao quarto mandato demonstrando que continuará sendo o protagonista dessa história.

Perguntado por que decidiu concorrer à Presidência da República, se em 2022 havia declarado que não se candidataria novamente, ele, primeiro, gracejou: “Mas em 1978, eu também prometi para minha mulher que seria meu último mandato de presidente do sindicato”. Referia-se à ex-primeira-dama Marisa Letícia e ao Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo e Diadema (SP), que comandou pela primeira vez em 1975.

Em seguida, respondeu: “Por responsabilidade política”. Nessa entrevista, a três dias do primeiro turno, Lula argumentou que seria o único capaz de impedir o retorno da família Bolsonaro ao poder.

Foi a eleição mais acirrada desde a redemocratização, na qual o líder petista enfrentou a rejeição mais alta de sua trajetória política. Mais do que o resultado de uma disputa presidencial, o que emergiu das urnas no domingo (25) foi a consagração de um estadista, que assumirá, depois de ser escolhido novamente pelo voto direto, o seu quarto mandato como presidente da República.

O cientista político André Singer chamou o fenômeno de “lulismo”. Líder sindical em 1980, discursa em assembleia de metalúrgicos

Antônio Carlos Piccino/Agência o Globo Ao fim do terceiro mandato, Lula conseguiu vencer não somente o bolsonarismo, mas também o sentimento antipetista, que recrudesceu a partir de 2016, com o avanço da Operação Lava-Jato e o impeachment da presidente Dilma Rousseff, e se aprofundou a partir de 2018, com o bolsonarismo.

O pernambucano que aos sete anos fugiu da fome no sertão, em um pau-de-arara com a família, rumo a São Paulo, virou torneiro mecânico, depois líder sindical, e fundou o Partido dos Trabalhadores (PT) em 1980 - em um movimento formado por sindicalistas, intelectuais e segmentos da Igreja Católica.

Teve trajetória marcada por altos e baixos, mas sempre comprometida com a democracia. Após as derrotas em 1989, 1994 e 1998, se elegeu presidente pela primeira vez em 2002, e ficou maior do que o PT.

Deixou amplo legado, baseado em prestígio internacional e realizações sociais, como a redução da pobreza, a retirada do Brasil do Mapa da Fome, a redução do desemprego e do déficit habitacional, a inclusão no ensino superior e o Farmácia Popular, que distribuiu medicamentos gratuitos para 25 milhões de pessoas.

Com políticas de transferência de renda, capitaneadas pelo Bolsa Família, a pobreza teve redução de 50,6% nos dois primeiros mandatos de Lula, segundo estudo da Fundação Getulio Vargas (FGV) divulgado em 2011. Em mais de um relatório, a Organização das Nações Unidas (ONU) destacou a contribuição do Bolsa Família para a saída do Brasil do Mapa da Fome, o que ocorreu em duas ocasiões: 2014, sob Dilma Rousseff, e em 2025, com Lula 3.

Diretas Já, em 1984: Lula e Ulysses Guimarães em manifestação Marcelo Prates/Agência o Globo

Lula também se vangloria de ser o presidente sem diploma que criou mais universidades públicas federais. Outra marca das gestões petistas é o Minha Casa, Minha Vida, que ganhou fôlego novo no terceiro mandato.

Na infraestrutura, um legado histórico é a transposição do Rio São Francisco, iniciada em 2007, e praticamente concluída até o fim do ano, com custos estimados de até R$ 12 bilhões. São 477 quilômetros de extensão, cortando o semiárido nordestino para levar água a 12 milhões de pessoas.

Dono de um currículo que contempla meio século de vida pública, três mandatos de presidente da República e um de deputado federal constituinte, e sete campanhas presidenciais, Lula despontou em 1978, quando, na presidência do Sindicato dos Metalúrgicos, comandou as greves das montadoras no ABC paulista.

Em 1983, quando o PT já estava presente em todo o território nacional, participou da fundação da Central Única dos Trabalhadores (CUT). O papel de liderança nas greves o levou à prisão pelo Departamento de Ordem Política e Social (Dops), que durou 31 dias, entre abril e maio de 1980.

Nesse período, perdeu a mãe, Eurídice Ferreira de Mello, a dona Lindu, a maior referência de sua biografia, mencionada em quase todos os seus discursos. Passados 46 anos, até hoje recorda aquela prisão, citando que o então chefe da Polícia Federal (PF), delegado Romeu Tuma, o autorizou a deixar o cárcere para comparecer ao funeral da mãe.

Pobreza teve redução de 50,6% nos dois primeiros mandatos do petista; combate à fome é marca Mais recentemente, a permissão para deixar a prisão em plena ditadura reapareceu em falas públicas de Lula como contraponto ao que vivenciou quando passou 580 dias preso em uma cela especial da PF em Curitiba (PR).

Ele foi condenado pelo então juiz Sergio Moro - hoje governador eleito pelo PL no Paraná - no âmbito da Operação Lava-Jato, mas, anos depois, teve a sentença anulada pelo Supremo Tribunal Federal (STF). Em um comício no Rio de Janeiro, no primeiro turno, Lula relembrou que o ministro do STF Dias Toffoli - ressaltando que o juiz foi indicado por ele para a Corte - não autorizou, em plena democracia, que ele deixasse a prisão para comparecer ao enterro do irmão Genival Inácio da Silva, o Vavá, em São Paulo.

Vavá morreu em 29 de janeiro de 2019. Toffoli proibiu o deslocamento de Lula até o local do sepultamento.

Na decisão, estabeleceu que Lula poderia se encontrar com os familiares em uma base militar, e que o corpo de Vavá poderia ser transportado do local do velório até ali, o que o petista considerou indigno. Após a fundação do PT, Lula estreou na disputa ao governo de São Paulo em 1982, sem sucesso.

Participou das “Diretas Já” ao lado de Ulysses Guimarães e Tancredo Neves, e em 1986 elegeu-se o deputado federal constituinte mais votado do país, com mais de 651 mil votos. A primeira candidatura ao Planalto do Planalto foi em 1989, quando surpreendeu ao chegar ao segundo turno contra Fernando Collor de Mello.

Nas eleições seguintes, enfrentou Fernando Henrique Cardoso (PSDB), que desfrutou de alta popularidade no começo, com o sucesso do Plano Real. Depois de três tentativas de se tornar presidente, Lula saiu consagrado das urnas em 2002, quando venceu o ex-ministro da Saúde José Serra (PSDB).

Seus principais aliados se tornaram ministros, como José Dirceu, Antonio Palocci e Luiz Gushiken (morto em 2013). Muitos continuaram do lado dele e coordenaram sua última campanha, como Paulo Okamotto, Gilberto Carvalho, Sérgio Gabrielli e Aloizio Mercadante.

Lula recebe a faixa presidencial de FHC em 1º de janeiro de 2003 Ivo Gonzalez/Agência O Globo

Palocci, que se tornaria ministro da Fazenda e homem forte do governo Lula 1, teve papel decisivo na elaboração da “Carta aos Brasileiros”, na qual o petista se comprometeu com a responsabilidade fiscal e a segurança jurídica. Anos depois, Palocci - que se projetara como favorito para a sucessão de Lula - se tornaria delator do presidente na Lava-Jato.

A campanha à reeleição em 2006 foi um dos momentos mais difíceis, quando próceres do PT, como José Dirceu, o então presidente do partido, José Genoino, e o ex-presidente da Câmara dos Deputados João Paulo Cunha foram abatidos pelo escândalo do mensalão. Quando o mundo político, analistas e o empresariado duvidavam da continuidade de Lula no poder, ele exortou o povo a ocupar as ruas para defendê-lo das acusações de que seu governo havia montado um esquema para compra de apoio no Congresso, fez uma campanha combativa e foi reeleito.

Derrotou o candidato do PSDB, Geraldo Alckmin. Anos depois, em uma reviravolta política, Alckmin se filiaria ao PSB para ser seu vice a partir de 2023.

“O Lula tem um instinto de sobrevivência muito forte”, disse ao Valor o deputado Rui Falcão (PT-SP), um dos aliados que conviveram mais perto do petista. Ex-presidente do PT, Falcão observou que, historicamente, Lula sempre reagiu diante das adversidades.

Citou as campanhas de 2006, 2022 e 2026 como exemplos da resiliência lulista. A partir de 2016, Lula e o PT sofreram derrotas em série.

Uma das fases mais amargas foi a prisão decretada por Moro, e confirmada pelas instâncias superiores, que o manteve no cárcere em Curitiba de abril de 2018 até novembro de 2019. Neste ano, o STF revisou o entendimento e passou a considerar que condenados só podem ser presos depois do julgamento de todos os recursos, e não após a segunda instância.

Em 2021, Lula foi reconduzido ao tabuleiro, depois de o STF anular as condenações da Lava-Jato por entender que a 13ª Vara Federal de Curitiba não tinha competência para julgar os casos e considerar que Moro foi parcial. Seu retorno ao poder, após abater Jair Bolsonaro, enfrentou um dos episódios mais tristes contra a democracia: uma semana depois da posse, em 8 de janeiro de 2023, uma multidão de bolsonaristas radicais depredou as sedes dos Três Poderes, na etapa final de uma tentativa de golpe de Estado engendrada durante a campanha presidencial.

Lula conseguiu vencer, mesmo sendo rejeitado por quase metade do eleitorado. No sábado (24), véspera do segundo turno, a pesquisa Quaest mostrou que 47% dos eleitores diziam que não votariam no petista.

O índice do seu adversário, no entanto, era ainda maior: 49% rejeitavam Flávio Bolsonaro (PL). E depois de amargar a reprovação ao seu governo maior do que a aprovação desde o ano passado, somente no apagar das luzes a Quaest captou a inversão dos índices, com 48% dos brasileiros aprovando o Lula 3, enquanto 45% não o avalizam.

Biografia com vitórias e derrotas teve ainda escândalos de corrupção que recaíram sobre Lula e o PT Os números contrastam com o auge do lulismo, quando o petista encerrou o segundo mandato com recorde de popularidade: 83% dos brasileiros avaliaram sua gestão como ótima ou boa, segundo o Datafolha.

Esse índice lhe proporcionou vitórias como fazer sua sucessora, e eleger Fernando Haddad (PT) para a Prefeitura de São Paulo em 2012. Sua biografia intercalou vitórias e derrotas nas urnas, além de escândalos de corrupção que recaíram sobre ele e o PT.

No capítulo final, lidou com a fraude do Banco Master, que abateu aliados (e todo um arco de políticos, de A a Z), sequestrou o Supremo Tribunal Federal (STF) e contaminou as eleições, principalmente no primeiro turno. Vivenciou falhas de estratégia e frustrações.

No rol de resultados que nem Lula nem o PT digeriram até hoje, consta a derrota de Haddad na disputa à reeleição em 2016, quando o eleitor paulistano optou pelo “outsider” João Doria (PSDB). Em 2016, Lula foi impedido pelo ministro Gilmar Mendes, do STF, de assumir a Casa Civil para liderar as articulações contra o impeachment.

Na tentativa de salvar o mandato de Dilma, experimentou traições, entre elas, a do então deputado Paulo Maluf, que prometeu votar contra o afastamento da petista, e fez o contrário no plenário. Também se sentiu traído em abril de 2026, quando os senadores rejeitaram a indicação do ministro da Advocacia-Geral da União (AGU), Jorge Messias, para uma vaga do Supremo.

Foi um revés histórico, já que o Senado não desaprovava um nome para a Corte Constitucional desde 1894. Aliados também consideram o maior erro do terceiro mandato o petista ter se “encastelado” no palácio, ao lado da primeira-dama Rosângela da Silva, a Janja, ignorando conselhos e apelos para se reunir com antigos aliados, e colocar em prática no governo a frente ampla, que pavimentou sua volta ao poder em 2022.

Um dos coordenadores da campanha à reeleição avalia que o petista, quando venceu pela primeira vez em 2002, “subiu a rampa junto com todos os companheiros”, mas 20 anos depois, achou que venceu por mérito próprio. “É como se ele pensasse que, em 2002, foi uma vitória coletiva, enquanto em 2022, ele ganhou sozinho”, lamentou.

Alvo de uma tentativa de golpe de Estado para que não tomasse posse em 2023, Lula se orgulha de pautar sua trajetória pela democracia. Em 2014, petistas e aliados queriam que ele voltasse a disputar a Presidência no lugar de Dilma, mas ele recusou a empreitada por acreditar que a reeleição era direito inalienável da titular do mandato.

Nos dois primeiros mandatos, tampouco bancou iniciativas de aliados que queriam alterar a Constituição nesse sentido. Há quem aponte o “pragmatismo” de Lula como uma das explicações de sua longevidade política.

Uma de suas declarações antológicas se deu em 2007, na votação da prorrogação da CPMF, o extinto “imposto do cheque”, ao qual ele fizera oposição, mas como presidente, passou a defender, para financiar gastos com a saúde. Para justificar a nova postura, citou Raul Seixas: “Prefiro ser considerado uma metamorfose ambulante, ou seja, mudando à medida que as coisas mudam”.

Publicação Original Valor valor.globo.com
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