O preço virou motivo para voltar

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Fonte da notícia: O Globo O Globo

Em quatro meses, o tratamento da obesidade no Brasil mudou mais do que em quatro anos. Desde junho, quando chegou às farmácias a primeira semaglutida produzida no país, os dados públicos da Anvisa mostram um movimento que eu nunca tinha visto.

Em agosto, o Brasil comprou cerca de uma vez e meia mais caixas de medicamentos da classe GLP-1 do que a média do início do ano. A receita da categoria ficou praticamente a mesma, e o preço médio por caixa caiu cerca de um quarto.

O dinheiro que circula é o mesmo. O tratamento que ele compra é muito maior.

No consultório, esse número tem rosto. Ao longo dos últimos três anos, vi o motivo de abandono do tratamento mudar a cada fase do mercado.

Primeiro foi o desconhecimento: pouca gente sabia o que essas medicações faziam. Depois veio a falta, com o desabastecimento das canetas importadas.

Em seguida, o preço. Agora, pela primeira vez, o preço aparece no sentido contrário, como motivo para recomeçar.

Na plataforma de cuidado contínuo que ajudei a fundar, mais da metade dos pacientes que tinham interrompido a semaglutida importada voltou ao tratamento. Quem chega para buscar tratamento também mudou.

O paciente que procura atendimento hoje é, em média, mais velho, chega com obesidade mais avançada e relata diabetes com mais frequência do que o de um ano atrás. Não é quem já estava tratado trocando de marca.

É quem estava fora e entrou. Do ponto de vista de saúde pública, é a melhor notícia do ano.

Há um dado que me preocupa e me anima ao mesmo tempo. Cerca de um em cada três pacientes que chegam já tendo usado caneta relata ter usado tirzepatida sem marca, manipulada ou importada sem registro, sem nenhuma garantia do que havia dentro da seringa.

É o paciente mais sensível a preço que eu conheço: três em cada quatro dizem que o critério para a próxima caneta é caber no orçamento. Muitos ainda estavam em uso quando procuraram ajuda.

Para esse paciente, contar com uma opção registrada e mais acessível é uma porta de saída do mercado paralelo. É a chance de trocar a seringa de origem duvidosa por uma prescrição, um médico e um acompanhamento.

Agora, o alerta. Preço resolve a entrada, não a permanência.

Já escrevi aqui que a molécula faz metade do trabalho. A outra metade continua sendo a mesma: acompanhamento, mudança de comportamento e alguém olhando para o paciente entre uma consulta e outra.

Remédio mais barato traz o paciente de volta, mas não garante que ele fique. Se a gente repetir o modelo de sempre (uma receita, uma consulta a cada seis meses e o paciente sozinho no intervalo), vamos assistir ao mesmo filme com mais figurantes: mais gente começando e mais gente desistindo.

O que me dá esperança é que quem está chegando parece entender isso. Nos primeiros meses, esses pacientes têm usado o acompanhamento mais do que a média: abrem o aplicativo, conversam com a equipe, voltam às consultas com a nutricionista.

Ainda é cedo para falar de resultado, e eu não vou falar. O que dá para dizer por enquanto é que a porta de entrada se abriu e que o paciente está disposto a ficar, se encontrar com quem ficar.

A obesidade é uma doença crônica. Ninguém trata hipertensão com uma aferição de pressão por semestre, e não faz sentido tratar obesidade com uma receita por semestre.

O mercado fez a sua parte e baixou a barreira do preço. Falta a nossa parte: construir, em escala, um cuidado que acompanhe o paciente na mesma velocidade em que ele está chegando.

A medicina da continuidade deixou de ser uma ideia. Virou uma urgência.

Publicação Original O Globo oglobo.globo.com
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