O povo brasileiro vai ganhar as eleições, apesar das influências externas, diz Celso Amorim

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Fonte da notícia: Carta Capital Carta Capital

O assessor especial de Lula para assuntos internacionais critica o ‘patriotismo’ que carrega a bandeira norte-americana Na busca pela reeleição, o presidente Lula enfrenta tudo e todos.

O dito “centrão” ficou neutro no primeiro turno e agora está em sua maioria com Flávio Bolsonaro. A “Faria Lima” é anti-Lula desde criancinha.

A grande mídia faz uma cobertura com falsas equivalências entre os dois candidatos. E há ainda a interferência estrangeira, de forma sutil ou escancarada, via Washington e a big tech Meta.

“O povo brasileiro vai ganhar essa eleição”, apesar das “influências imensas do lado de fora”, diz a CartaCapital o embaixador Celso Amorim, assessor especial de Lula para assuntos internacionais. O Brasil, prossegue ele, é uma espécie de última barreira contra aquilo que os Estados Unidos chamam de “Hemisfério Ocidental”.

Uma voz, a mais importante e mais forte, contrária à “dominação total” dos EUA na região. Em dezembro de 2025, a Casa Branca publicou uma nova “Estratégia de Segurança Nacional”.

Um documento espantoso. Supõe que a hegemonia econômica e política do Tio Sam estaria ameaçada e que seria preciso agir.

Valeria tudo, até armas. E com justificativa divina: “O propósito do governo americano é garantir os direitos naturais dados por Deus aos cidadãos americanos”.

Para concretizar-se no Hemisfério Ocidental, área geográfica considerada nos EUA como as Américas e a Groelândia, o documento ressuscitava a doutrina Monroe. Posta em prática no século 19, essa doutrina pressupõe que as Américas são quintal de Washington.

Nenhuma nação da região tem o direito de contrariar os EUA e nenhuma de fora, o de tirar proveito econômico das riquezas locais. O Brasil tem grandes reservas de minerais críticos, substâncias difíceis de encontrar na natureza e de grande valor na economia do futuro.

Aliás, do presente: produção de energia limpa, de supercomputadores, inteligência artificial. “São o que foram o petróleo, com a diferença de que são críticos”, diz Amorim.

E tudo isso se traduz na vida real em empregos, por exemplo. “Não dá para querer que o Brasil seja parte de um quintal”, afirma o embaixador.

Que acrescenta: fica “impressionado” com aquele alegado patriotismo que carrega a bandeira dos Estados Unidos e se enrola nela. Uma cena comum em passeatas bolsonaristas, como aquelas na Avenida Paulista, em São Paulo.

Aconteceu inclusive no Dia da Pátria, o 7 de Setembro. O Brasil, afirma Amorim, quer ter boas relações com os EUA, mas não aceita que os americanos digam com quem o País pode se relacionar.

Um dos pressupostos da “Estratégia de Segurança Nacional” da Casa Branca é que do “quintal” só os Washington pode tirar proveito. Daí as tentativas de neutralizar a presença chinesa.

Aconteceu sobre o Canal do Panamá quando Donald Trump voltou à Casa Branca. Sete meses após o retorno, Trump baixou um tarifaço contra as exportações brasileiras.

O mundo todo sofria com o protecionismo ianque, mas no caso do Brasil havia ingredientes específicos. Na carta do anúncio da medida contra o Brasil, ele mencionava processos judiciais contra Jair Bolsonaro (“vergonha internacional”, nas palavras dele) e decisões judicias contra “plataformas de mídia dos EUA”.

A Meta é uma dessas plataformas. Controla o Instagram, considerada pela campanha lulista como a rede social mais importante da eleição.

O comitê da reeleição foi à ONU denunciar o favorecimento de Flávio Bolsonaro pela Meta. Usuários da plataforma também botaram a boca no trombone.

Especialistas das Nações Unidas concordaram com as denúncias e cobram explicações da empresa. “É muito mais do que provável, é quase certo, que tenha havido outro tipos de interferências através de outros meios”, diz Amorim, ao comentar o caso da Meta e a hipótese de ações subterrâneas do governo norte-americano para influenciar a eleição brasileira.

O embaixador reconhece, porém, que a relação bilateral de Lula com Trump é boa. Tem sido assim desde que os dois presidentes se encontraram nos bastidores da Assembleia Geral da ONU de 2025, em Nova York, dois meses depois do tarifaço no Brasil.

“O presidente Trump, dentro do campo ideológico dele, tem uma certa dose de pragmatismo”, afirma Amorim, para quem o americano identifica em Lula disposição para conversar. “Ele dialoga com o Xi Jinping, por que não pode dialogar com o Lula?”.

Já a diplomacia dos EUA, levada adiante pelo Departamento de Estado, o equivalente ao nosso Ministério das Relações Exteriores, tem atitude bem diferente. “O Departamento de Estado tem uma orientação para a América Latina que é muito negativa”, diz Amorim.

“Tenho a esperança de que, uma vez passado esse período, nós vamos ter uma relação mais razoável com os Estados Unidos.” Com o antecessor de Trump, a relação fluía melhor.

Lula firmou com Joe Biden uma parceria a favor dos trabalhadores. Na guerra comercial contra o Brasil, o governo Trump invocou um suposto corpo mole brasileiro contra o trabalho forçado.

“Ironia das ironias”, segundo Amorim. Os EUA, ressalta o embaixadpr, não assinaram a grande maioria das convenções da ONU sobre direitos trabalhistas, e o Brasil sim.

É um exemplo do significado da defesa da soberania, uma das bandeira de Lula na eleição. “Soberania não é uma coisa abstrata”, anota o embaixador.

André Barrocal Repórter especial de CartaCapital em Brasília Muita gente esqueceu o que escreveu, disse ou defendeu.

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