Trânsito na Via DutraRovena Rosa/Agência Brasi Cinco dias sem dormir. Esse foi o período em que Socorro Menezes, de 59 anos, enfrentou dificuldades para descansar devido à intensa movimentação de aeronaves perto de sua casa, em Teresina, no Piauí. Moradora do bairro Aeroporto, ela vive com o marido e a filha a poucos metros do muro do terminal. A situação ganhou repercussão nas redes sociais após ela publicar um vídeo bem-humorado mostrando os aviões passando a baixa altitude sobre a residência.Na época em que fez o registro, Socorro conta que a frequência dos voos era tão intensa que ela não conseguia dormir. “Acredito que de meia em meia hora era avião”, relata. Enquanto o marido dormia tranquilamente durante a noite, ela permanecia incomodada com o barulho. “Ele dorme a noite todinha, mas eu não durmo. Não consigo, avião toda hora.”A dificuldade chegou a fazê-la cogitar uma mudança. “Eu falei pro meu marido que ia vender a casa e sair daqui. Ele disse: ‘não, eu não vou sair daqui da minha casa, não’”, conta.Apesar do incômodo, Socorro diz que não costuma fazer reclamações formais ao aeroporto. Ela afirma compreender a situação de morar nas proximidades do terminal e prefere lidar com a passagem das aeronaves de maneira descontraída. “Eu fico brincando com os aviões. É um divertimento pra gente”, diz. O ruído pode interferir no descanso e ser naturalizado como parte da vida cotidiana. O barulho do trânsito, das buzinas e das obras faz parte da rotina urbana, mas seus efeitos vão muito além do incômodo. A exposição prolongada à poluição sonora está associada a distúrbios do sono, problemas cardiovasculares e prejuízos à saúde mental.No Brasil, pelo menos 87,4% da população vive em áreas urbanas, segundo o Censo Demográfico de 2022 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). De acordo com o arquiteto e urbanista especializado em acústica urbana Teddy Yanagiya, para entender os impactos da poluição sonora é preciso distinguir som e ruído. “O som pode ter qualidades boas, enquanto o ruído é sempre negativo”, explica.A intensidade do barulho e o tempo de exposição são fatores determinantes para os impactos da poluição sonora na saúde. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), a exposição a níveis elevados de ruído pode prejudicar o sono, aumentar o estresse e comprometer a saúde física e mental.Para dimensionar esses níveis, uma conversa pode atingir cerca de 60 decibéis (dB), enquanto o ruído do trânsito pode chegar a aproximadamente 80 dB. Buzinas podem alcançar 100 dB, e o barulho de um avião durante a decolagem pode atingir 140 dB. Os valores variam conforme a fonte sonora, a distância e as condições de medição. Quanto maior a intensidade sonora, menor deve ser o tempo de exposição para evitar danos, especialmente à audição.Poluição sonoraGemini Um problema silenciosoA poluição sonora é frequentemente subestimada porque seus efeitos nem sempre são percebidos de forma imediata, uma vez que o barulho não deixa marcas visíveis. Por isso, pode ser tratado como parte inevitável da vida urbana, e não como uma questão de saúde pública.“Muitas vezes, mesmo durante o sono, o organismo pode reagir a esses estímulos”, explica Teddy. “Às vezes você não está nem consciente para perceber que você está recebendo aquele excesso de ruído, mas o seu corpo está.”A exposição prolongada também pode fazer com que as pessoas se acostumem a determinados sons. Isso não significa, necessariamente, que o barulho deixou de afetar o organismo. A aparente adaptação pode dificultar o reconhecimento do problema e levar à naturalização de situações prejudiciais ao descanso e ao bem-estar.A experiência de Socorro ajuda a ilustrar essa diferença entre a percepção individual e os efeitos do ruído. Embora a moradora relate dificuldades para dormir durante os períodos de maior movimentação aérea, ela afirma não conhecer pessoas que tenham adoecido ou perdido a audição por conta dos aviões. “Eu não conheço ninguém que adoeceu por causa de avião. Deu dor de cabeça, ficou surdo por causa disso aí, não. É só o sono mesmo”, diz.A ausência de problemas de saúde percebidos pela vizinhança, porém, não significa que a exposição seja inofensiva. O barulho pode interferir no descanso mesmo quando não provoca sintomas imediatamente reconhecidos pelos moradores.O psicólogo Carlos Rodrigues, especialista em fatores de risco psicossociais, explica que a exposição contínua ao ruído pode manter o organismo em estado de alerta e dificultar a recuperação física e emocional.“Uma questão importante é que o barulho pode fazer com que a pessoa permaneça em estado de alerta durante boa parte do dia, dificultando o descanso e a recuperação do organismo. Além disso, a sensação de não conseguir controlar o ruído, como acontece com quem mora perto de avenidas movimentadas ou convive com barulhos frequentes da vizinhança, pode aumentar o desgaste emocional”, afirma.O cérebro recebe e interpreta continuamente os sons do ambiente. Quando eles são intensos, frequentes ou imprevisíveis, podem ativar respostas de alerta e estresse, envolvendo alterações na frequência cardíaca e a liberação de hormônios relacionados ao estresse, como o cortisol.Mesmo quando a pessoa afirma ter se acostumado a determinado barulho, isso não significa que o organismo deixou de reagir. É possível se habituar à percepção de um som, como o trânsito que passa diariamente em frente de casa, enquanto algumas respostas fisiológicas persistem, inclusive durante o sono.O especialista também explica que o ruído interfere na atenção e nas emoções. Quando é necessário fazer um esforço constante para ignorar os sons ao redor, atividades como conversar, estudar ou trabalhar podem se tornar mais cansativas. Isso favorece a irritabilidade e a sensação de esgotamento ao longo do dia.Um estudo publicado na revista Noise and Health em 2025, que reuniu estudos com mais de 15 mil pessoas, encontrou um risco cerca de 29% maior de sintomas de ansiedade e depressão entre adultos mais expostos ao barulho. O resultado não significa que o ruído, isoladamente, provoque esses transtornos, mas indica uma associação que reforça a importância de considerar a poluição sonora um fator de risco para a saúde mental.A origem do barulho também varia de acordo com as características de cada região. Teddy ressalta que bairros de diferentes perfis socioeconômicos podem enfrentar problemas de poluição sonora de forma desigual, embora as fontes variem. Em algumas regiões, predominam os ruídos de bares, festas e motocicletas. Em áreas próximas a grandes avenidas e rotas aéreas, o trânsito e a passagem de aeronaves podem comprometer o sossego.O que diz a legislação sobre poluição sonora?A fiscalização da poluição sonora cabe principalmente aos municípios, responsáveis por regulamentar estabelecimentos e fiscalizar atividades conforme as normas locais. Estados e União também atuam na área, mas os critérios e recursos disponíveis variam entre as regiões.Para Douglas Nadalini, advogado especializado em direito ambiental, o principal desafio não é a falta de leis, mas a aplicação das regras.“O Brasil tem uma boa base de regras sobre o tema. A Constituição garante o direito a um meio ambiente equilibrado, há normas nacionais que dizem como o ruído deve ser medido e existem regras próprias de estados e municípios, mas o maior desafio está em aplicar essas regras de forma uniforme em cidades grandes e cada vez mais densas”, explica.O enquadramento jurídico depende da origem do barulho e das circunstâncias. Estabelecimentos comerciais e obras estão sujeitos a normas específicas, enquanto o controle do ruído do trânsito exige medidas voltadas aos veículos e à mobilidade urbana.“Barulho, por si só, não é crime. A Lei de Crimes Ambientais trata como crime a poluição em níveis capazes de causar dano à saúde humana”, ressalta Nadalini.Mesmo quando não há crime, o excesso de ruído pode resultar em sanções administrativas. Segundo o advogado, a falta de monitoramento contínuo também dificulta a identificação das áreas críticas e a formulação de políticas públicas preventivas.Em 2026, municípios brasileiros também avançaram em medidas específicas para combater o barulho provocado por motocicletas com escapamentos adulterados. Em Belo Horizonte (MG), a Câmara Municipal aprovou em definitivo, em setembro, o Projeto de Lei 558/2025, que prevê a proibição da circulação de motocicletas, ciclomotores e veículos similares com escapamentos adulterados, defeituosos ou que emitam ruídos e poluentes acima dos limites técnicos permitidos. A proposta prevê multa administrativa de R$ 500, com possibilidade de dobrar em caso de reincidência no período de um ano, além de campanhas educativas. O texto seguiu para sanção do prefeito.Em Valinhos (SP), a Lei Municipal nº 6.948/2026 entrou em vigor em julho e proibiu a emissão de ruídos por escapamentos de motocicletas modificados em relação à configuração original de fábrica. A norma prevê multa de cinco Unidades Fiscais do Município de Valinhos (UFMV), com possibilidade de dobrar em caso de reincidência em menos de 30 dias, além de retenção ou remoção do veículo. A penalidade aumenta em 50% quando a infração ocorre nas proximidades de hospitais e unidades de saúde. A legislação também estabelece regras para oficinas mecânicas e exige avisos sobre os limites de decibéis.As iniciativas procuram atuar sobre uma das fontes de ruído urbano e mostram como os municípios podem estabelecer regras específicas para enfrentar o problema. No entanto, a existência de normas não garante, por si só, a redução do barulho, uma vez que a própria aplicação das medidas depende da fiscalização e da capacidade de identificar as infrações.Buzinas podem alcançar 100 decibéis (dB)BellPhotography423/ iStock Como tornar as cidades menos barulhentas?Reduzir a poluição sonora exige mais do que responder a reclamações e aplicar multas. Para Teddy, é necessário combinar fiscalização, planejamento urbano, soluções técnicas e educação.“Eu acho que a gente precisa fazer, na verdade, um diagnóstico do ruído na cidade. A principal solução são os mapas de ruído”, afirma.Esses mapas podem ajudar a identificar as áreas mais expostas e as principais fontes de barulho. Com esse diagnóstico, é possível direcionar as medidas de controle de acordo com as características de cada região.Em locais com trânsito intenso, por exemplo, as ações podem incluir mudanças no pavimento, melhorias na mobilidade e fiscalização dos veículos. Já em áreas com muitas obras, o monitoramento pode orientar a atuação dos órgãos responsáveis.Outra possibilidade é reduzir o ruído diretamente na fonte, com o controle de veículos e a fiscalização de motocicletas que ultrapassam os níveis permitidos.O planejamento urbano também é importante. A localização de residências, hospitais e escolas deve considerar a proximidade de fontes intensas de barulho, para evitar que áreas sensíveis fiquem expostas.A prevenção também depende do comportamento da população. Campanhas educativas podem ajudar a mostrar que o espaço urbano é compartilhado e que o barulho produzido por uma pessoa afeta outras. Mas a conscientização precisa vir acompanhada de fiscalização e medidas concretas de controle.“Enquanto a gente não tiver um senso coletivo, eu acho que não vai mudar”, afirma Teddy.
O perigo oculto do barulho que afeta a saúde e o sono nas cidades
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