O músculo esquecido por mulheres e homens bombados

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Na academia, a conversa costuma ser parecida. “Eu uso, mas uso pouco.” “Já baixei a dose.” “Faço ciclo, dou pausa, realizo exames.” Há quase uma crença coletiva de que o problema dos esteroides anabolizantes está no exagero — e que, com moderação, o coração aguenta.

Um estudo norueguês publicado agora no European Heart Journal – Cardiovascular Imaging, uma das revistas mais respeitadas de cardiologia do mundo, acaba de desmontar essa ideia. Pesquisadores do Hospital Universitário de Oslo acompanharam homens praticantes de musculação ao longo de vários anos.

Eles já haviam sido avaliados entre 2017 e 2019 e, em 2025, foram chamados de volta para refazer o ecocardiograma — o exame de ultrassom que mostra o tamanho, a espessura e a força do coração. Voltaram 70 usuários ou ex-usuários de anabolizantes e 35 homens que treinavam pesado, mas nunca tinham usado as substâncias.

A pergunta era simples e, ao mesmo tempo, raramente respondida: o que acontece com o coração de quem continua usando em comparação com quem para? A resposta veio em duas partes.

A primeira é preocupante. Os homens que seguiram usando — em média, havia 17 anos somando todos os ciclos — continuavam com o músculo do coração espesso demais, a chamada hipertrofia ventricular.

Mais que isso: a força de bombeamento estava abaixo do normal. Continua após a publicidade

A fração de ejeção, que mede quanto sangue o coração expulsa a cada batida e costuma ficar acima de 50% em pessoas saudáveis, estava em média em 48%. E a capacidade de o coração relaxar e se encher de sangue entre uma batida e outra piorou com o tempo.

O detalhe que deveria fazer qualquer usuário parar para pensar: esses homens tinham reduzido a dose semanal quase pela metade desde a primeira avaliação. Não adiantou.

O coração não melhorou. A mensagem dos próprios pesquisadores é direta: diminuir não é suficiente; para o coração se recuperar, é preciso parar.

Continua após a publicidade E aqui está a segunda parte da resposta — a boa notícia.

Quem interrompeu o uso teve uma melhora real. A massa do músculo cardíaco diminuiu e a força de bombeamento subiu, em média, 6 pontos percentuais.

Os ex-usuários que estavam havia mais tempo sem usar ficaram com o coração muito parecido (mas não igual) ao de quem nunca tinha tocado em anabolizante. Ou seja: o coração tem uma capacidade impressionante de se refazer, desde que ganhe a chance.

Outro achado chamou atenção: entre os que usavam remédio para controlar a pressão, a função do coração era melhor. Isso reforça algo que a cardiologia já conhecia: pressão alta é uma das vias pelas quais os anabolizantes machucam o coração, e tratá-la faz diferença.

Continua após a publicidade Há uma razão para eu, endocrinologista, insistir nesse tema.

O uso de anabolizantes deixou de ser coisa de fisiculturista de palco. Hoje está na academia do bairro, em homens de 30, 40, 50 anos que querem um corpo mais definido, em “reposições hormonais” feitas sem nenhuma necessidade e em protocolos vendidos nas redes sociais como se fossem vitamina.

O preço pode aparecer anos depois — em forma de arritmia, insuficiência cardíaca, infarto precoce e até morte súbita. Parar, porém, nem sempre é simples.

Muitos homens que interrompem os anabolizantes ficam com a produção natural de testosterona desligada por meses, com cansaço, desânimo, queda da libido e perda de massa muscular. É exatamente aí que muitos voltam a usar.

Por isso, a saída não deve ser solitária: com acompanhamento médico, é possível atravessar essa fase com mais segurança. Continua após a publicidade

Se você usa, a recomendação é conversar abertamente com um médico — sem medo de julgamento. Medir a pressão, avaliar o colesterol, fazer um ecocardiograma e planejar a interrupção são passos concretos.

O estudo norueguês deixa um recado que vale mais que qualquer shape: o coração perdoa muito, mas só começa a perdoar quando você para de usar bomba. Publicidade

Publicação Original Notícias Veja veja.abril.com.br
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