Os 15 minutos de fama das doenças

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Fonte da notícia: O Globo O Globo

Há doenças que parecem surgir de repente no debate público. Não porque tenham se tornado mais frequentes, mas porque alguém conhecido decidiu falar sobre elas.

Um diagnóstico revelado por um artista, apresentador ou atleta pode fazer milhões de pessoas procurarem informações sobre um tema que, até então, mal conheciam. Na infância, esse efeito é ainda mais evidente.

Doenças graves são menos frequentes em crianças e, por isso, muitas vezes permanecem distantes do cotidiano das famílias até que uma história concreta lhes dê rosto e nome. Foi o que aconteceu com o retinoblastoma depois que os jornalistas Tiago Leifert e Daiana Garbin tornaram público o diagnóstico da filha, Lua.

A partir da própria experiência, criaram uma campanha para alertar pais sobre os sinais desse câncer ocular e a importância do diagnóstico precoce. O mesmo fenômeno aparece em outras áreas.

Marcos Mion transformou a experiência familiar com o autismo em uma voz pública pela informação e pela inclusão. Ao falar sobre o filho, Romeo, ajudou a levar o transtorno do espectro autista para conversas que vão além dos consultórios e das famílias diretamente envolvidas.

Cintia Dicker e Pedro Scooby compartilharam o diagnóstico de gastrosquise da filha, Aurora, que precisou de cirurgia ao nascer. O relato levou ao noticiário uma malformação pouco conhecida, em que o bebê nasce com parte do intestino fora do abdômen.

Malvino Salvador e Kyra Gracie falaram sobre a internação do filho, Rayan, por bronquiolite, ainda bebê. O episódio abriu espaço para discutir uma doença mais frequente na infância, mas que pode exigir cuidados hospitalares.

Outro caso que veio a público e ganhou espaço no noticiário foi a estenose craniofacial. Roberto Justus e Ticiane Pinheiro falaram sobre a cirurgia da filha, Rafaella, ainda pequena.

A condição envolve o fechamento precoce das suturas, estruturas que separam os ossos do crânio. Histórias assim aproximam a saúde infantil do público.

Estudos sobre comunicação em saúde mostram que a divulgação de doenças por pessoas conhecidas pode aumentar a busca por informações, estimular conversas e, em alguns casos, mudar comportamentos. A fama abre uma janela de atenção que pode e deve ser aproveitada para oferecer informação correta.

A mídia também exerce esse papel quando inclui temas de saúde e questões sociais em novelas, séries, reportagens e programas de grande audiência. Uma personagem ou uma história bem construída podem ajudar a explicar uma condição, reduzir preconceitos e mostrar ao público realidades que antes pareciam distantes.

Comunicação, nesse sentido, também é uma ferramenta de saúde pública. Mas existe um cuidado importante.

Quando uma doença entra nas trends das redes sociais, ou seja, fica em evidência, muito conteúdo superficial ou mesmo de má qualidade aparece. E as pessoas são bombardeadas com informações de todo tipo sobre o assunto, muitas delas gerando preocupação e medo desnecessários.

Não é raro pediatras receberem em seus consultórios pais assustados com um possível diagnóstico alardeado pelos meios de comunicação. A experiência de uma pessoa, famosa ou não, nunca substitui evidência científica.

Um caso individual não explica todas as formas de uma doença, nem autoriza generalizações sobre tratamento, prognóstico ou diagnóstico. A exposição também precisa respeitar a privacidade, sobretudo quando envolve crianças, que não escolheram estar sob os holofotes.

Quando alguém com grande alcance decide compartilhar uma experiência de forma responsável, porém, pode prestar um serviço relevante. A notoriedade chama a atenção.

Cabe às famílias, aos profissionais de saúde e aos meios de comunicação transformar essa atenção passageira em conhecimento, menos preconceito, e cuidado que permaneça depois que as manchetes desaparecerem.

Publicação Original O Globo oglobo.globo.com
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