Minha labuta, que exerço com prazer e vocação, é auxiliar famílias a tomarem decisões importantes e complexas. “Muito cuidado com suas decisões precipitadas” talvez tenha sido a frase que mais disse nos últimos dias.
Eu entendo o investidor. Também já me senti assim, especialmente quando Dilma Rousseff se reelegeu.
A Lava-Jato já representava uma crise política relevante e precedia a onda de dificuldades financeiras e recuperações judiciais das grandes empreiteiras. Com o resultado da eleição, confesso, questionei a capacidade do povo brasileiro de discernir quais eram os verdadeiros problemas do país.
Meu sentimento foi compartilhado por outros, e muitos decidiram sair do país, vendendo seus pertences e ativos para se aventurar por terras norte-americanas ou lusitanas. Talvez tenham feito um ótimo negócio, não sei dizer.
Menos de dois anos após o início de seu segundo mandato, Dilma foi afastada. Michel Temer assumiu e, com bom trânsito no Legislativo, emplacou o teto de gastos, a reforma trabalhista e a ampliação das concessões de aeroportos, rodovias e infraestrutura.
Com a melhora da percepção sobre a condução econômica, os prêmios de risco recuaram. Em “Same as Ever: A Guide to What Never Changes (2023)”, o autor Morgan Housel defende que o mundo está constantemente mudando, mas a natureza humana permanece essencialmente a mesma.
Em outras palavras, não sabemos quais crises acontecerão, mas sabemos que haverá crises, euforia, medo, ganância e excesso de confiança. Eu gosto dessa abordagem, pois ela me ajuda a compreender o comportamento dos investidores e empresários brasileiros diante das incertezas atuais.
Os problemas mudam, os personagens também, mas a forma como reagimos a eles tem muito pouco de novidade. O problema é que, ao tratar de assuntos complexos, essa forma intuitiva e reativa muito nos atrapalha.
De forma simplificada, recorremos a atalhos mentais e trocamos uma pergunta difícil (o que acontecerá no futuro?) por uma pergunta mais fácil (isso se parece com o quê?). Na política não é diferente.
O juro sobe, o dólar reage fortemente e as ações caem. O futuro revela-se nebuloso e a incerteza toma conta das nossas emoções.
A pergunta difícil, “qual é a melhor decisão diante deste cenário, considerando os riscos, as probabilidades e os custos de cada alternativa?”, é substituída por uma muito mais simples: “se as coisas estão tão ruins, ficarão, portanto, cada vez piores! Não seria melhor sair daqui?”.
Investidores ansiosos e preocupados liquidam posições em ativos depreciados, fazem câmbio nos momentos de maior estresse, abandonam investimentos de longo prazo e, não raramente, decidem vender empresas, imóveis ou mesmo mudar de país. Não necessariamente porque os fundamentos de seus negócios tenham se deteriorado, mas porque o medo do que pode acontecer passou a determinar suas decisões.
Não quero dizer que não haja motivos para preocupação. Ao contrário.
O Brasil enfrenta desafios enormes, ainda mais em um ambiente internacional menos favorável: juros americanos estruturalmente mais elevados, conflitos geopolíticos que pressionam os preços da energia e alimentam vetores inflacionários, além de um cenário de crescente protecionismo.
Internamente, a deterioração fiscal pressiona os juros e compromete a sustentabilidade da dívida pública, enquanto o empresariado enfrenta uma combinação adversa de elevada carga tributária, insegurança jurídica e custo de capital que asfixia seus balanços e desestimula investimentos.
Quando penso na poupança do investidor brasileiro, ratifico que os que ficam mais vulneráveis às oscilações de seus ativos são aqueles que não souberam manter uma exposição adequada fora do país. Discutia outro dia com meu sócio sobre um comportamento curioso do investidor brasileiro.
Quando o dólar se desvaloriza, ele não faz câmbio, afinal, “agora vamos esperar cair mais um pouco, as coisas estão indo bem”. Por outro lado, quando o cenário se deteriora e o dólar dispara, o raciocínio se inverte: “não dá para ficar aqui, mas também, nesse nível de câmbio vou esperar cair um pouco”.
Minha sugestão prática é que você execute uma estratégia de envio recorrente de recursos para um país de moeda forte, diversificando assim seu risco de forma planejada, mas, por favor, sem adiamentos desnecessários. Mas não, não se desespere.
Embora alguns creiam que é possível mudar o país fazendo críticas contundentes a 10 mil km de distância, acredito na política de base, que se manifesta no exercício de um trabalho excelente e na influência que exercemos, no dia a dia, sobre nossos conterrâneos. E, mais do que isso, o Brasil carece de todos nós.
Temos muito a fazer. Evandro Bertho é sócio fundador da Nau CapitalE-mail: evandro.bertho@naucapital.com.br
Este artigo reflete as opiniões do autor, e não do jornal Valor Econômico. O jornal não se responsabiliza e nem pode ser responsabilizado pelas informações acima ou por prejuízos de qualquer natureza em decorrência do uso destas informações.
Valor