Os “family offices” que cuidam de fortunas familiares na América Latina têm maior propensão a integrar a inteligência artificial (IA) na estrutura e em processos de investimentos, enquanto os seus pares no Canadá e nos Estados Unidos privilegiam a alocação em classes alternativas.
Esses são alguns dos resultados mapeados pela pesquisa “The changing faces of family offices”, publicado pela BlackRock, e que desta vez capturou as principais tendências nas Américas. Trata-se do primeiro levantamento conduzido pela Prequin, a empresa global de dados e análise de mercados privados, que foi comprada pela gestora americana no início de 2025, por US$ 3,2 bilhões.
Foram ouvidos 206 single family offices entre 13 de junho e 24 de agosto, que reúnem US$ 491 bilhões em investimentos financeiros. Na América Latina, 39 escritórios participaram, sendo uma dezena deles no Brasil.
No conjunto, a BlackRock reúne cerca de US$ 15,3 trilhões. Uma parcela de 65% dos entrevistados apontou a IA como tema de principal interesse de investimento nos próximos três a cinco anos, seguido por robótica e automação (53%) e tecnologia de defesa (50%).
“No Brasil, os meus clientes de private equity já investiam em IA em proporção maior que a média das Américas como um todo e de Latam [América Latina] por estarem muito próximos ao Vale do Silício, eles gostam do histórico de alto crescimento e muitos capturaram o primeiro ciclo da IA”, afirma Cristiano Castro, chefe de desenvolvimento de negócios da BlackRock no Brasil, ao comentar os dados da pesquisa e a percepção de campo no relacionamento com os 75 family offices brasileiros.
Outros temas que apareceram na pesquisa com “forte interesse econômico secular” foram saúde e longevidade, biotecnologia, cibersegurança e transição energética, todos com mais de 45%, seguidos por infraestrutura digital e data centers (37%), tecnologias espaciais (31%), realocação das cadeias de suprimentos e inovação de consumo, ambos com 27%, além de resiliência climática com 20%.
Na gestão da liquidez, Castro observa dados aparentemente contraditórios. Cerca de 26% dos entrevistados dizem ter uma alocação alvo de menos de 30% em ativos líquidos, enquanto 24% possuem alocação superior a 60%.
O apetite por estratégias alternativas, a exemplo de fundos de private equity, que compram participações em empresas, foi apontado por 32%, ante 26% da pesquisa anterior. Mas a iliquidez é citada como a barreira número um (54%) para aportar mais capital em mercados privados.
“O Brasil está na porção de ativos mais líquidos por causa das taxas de juros altas e do ‘home bias’ [o viés para investimentos locais]”, afirma Castro. Ele cita que, em geral, os family offices mantêm de 30% a 50% do patrimônio no exterior e a maioria tem intenção de balancear o peso para 50% a 50%.
“Só que eles não têm feito isso porque demandam uma maior liquidez e vários dos family offices têm muito dinheiro envolvido no negócio da família, em comparação aos globais.” Na última década, os family offices brasileiros aumentaram a alocação em private equity no exterior, após safras captadas por fundos locais começarem a vencer com resultados não tão bons.
As famílias passaram a usar ETFs, os fundos de índice negociados em bolsa, para a parcela de investimentos líquidos, compondo o portfólio com os alternativos pensando na perpetuação da riqueza. Outra tendência é a maior adesão a estratégias de “private credit” e investimentos de infraestrutura.
A alocação em infraestrutura global é baixa, diz Castro, mas as teses ficaram mais interessantes. “Tinha a questão da liquidez em projetos muito longos, e não tinha saída, isso tudo mudou, já tem secundário para sair e os retornos ficaram melhores.” Muitos desses investimentos também estão associados à infraestrutura de IA.
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