‘O Master do Paraguai’ explodiu, derrubando o Presidente

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Fonte da notícia: Brazil Journal Brazil Journal

Era uma espécie de Banco Master – mas este derrubou um Presidente. Santiago Peña, o presidente do Paraguai festejado pelos investidores internacionais e que vinha comandando um ciclo de rápido crescimento no país, renunciou hoje ao cargo.

Peña tomou a decisão tentando evitar a abertura de um processo de impeachment; ele está sob suspeita de envolvimento no acobertamento de fraudes que culminaram com a quebra do quinto maior banco privado do país – deixando 2,9 milhões de clientes,  cerca de 60% da população adulta do Paraguai, sem acesso a seus depósitos.

O Ueno Bank, o maior banco digital do Paraguai, foi liquidado pelo Banco Central paraguaio na terça-feira. A instituição estava sob investigação das autoridades por manter um nível insuficiente de reservas.

Por volta das 3h20 da madrugada de terça, o aplicativo do banco deixou de mostrar as informações das contas dos clientes. No dia em que as atividades foram encerradas – com o bloqueio das movimentações – as reservas do Ueno não chegavam à metade do capital mínimo exigido pelos reguladores.

O colapso desencadeou uma onda de protestos que já dura três dias – o que elevou a pressão para a abertura do processo de impeachment. O Partido Colorado, de Peña, comanda o Congresso – mas o Presidente perdeu o apoio dos aliados.

Sua permanência no cargo ficou insustentável depois de o empresário e ex-presidente Horacio Cartes – líder dos colorados, bilionário do ramo de cigarros e considerado o homem mais poderoso do país – ter anunciado que votaria pela destituição de Peña. “Não vamos compactuar com o saque de recursos públicos e privados nem com a apropriação das economias dos aposentados,” Cartes disse hoje.

“A bandeira do Partido Colorado representa uma história de serviço à nação: honrá-la significa também agir com bravura quando a pátria assim o exige.” Pouco depois, Peña postou um vídeo no X afirmando que deixaria o cargo para preservar a estabilidade e as instituições democráticas.

A Câmara de Deputados, contudo, rejeitou a renúncia e aprovou por unanimidade a abertura do processo de impeachment, que deve ser votado ainda hoje no Senado. Quem deverá assumir o Governo é o vice, Pedro Alliana – outro protegido de Cartes.

Peña havia tomado posse em 2023 para um mandato de cinco anos. Era um dos mais próximos aliados do Governo Trump na América do Sul.

A próxima eleição paraguaia será em 2028. O Ueno teve uma ascensão meteórica nos últimos três anos – e com um empurrão decisivo de Peña, que era sócio do grupo controlador da fintech até o ano passado.

Em 2023, Peña nomeou para a presidência do Banco Central o economista Carlos Carvallo, um ex-diretor do grupo controlador do Ueno. Meses depois, a fintech ganhou aprovação para funcionar como banco comercial.

Carvallo renunciou na terça-feira, junto com a liquidação do banco. Graças a seus laços com o Governo, o Uneo conseguiu atrair o equivalente a US$ 850 milhões em depósitos de recursos públicos – incluindo aproximadamente US$ 380 milhões do sistema público de previdência.

A instituição era responsável pelo pagamento de milhares de aposentadorias e tinha também depósitos de empresas estatais. O Ueno nasceu de um rebranding de duas instituições financeiras com mais de quatro décadas, a Financiera El Comercio e a CrediCentro.

O controlador das financeiras, o Grupo Vázquez – do empresário Julio César Vázquez –, idealizou a fusão que deu origem inicialmente à Financiera Ueno, em 2021. Dois anos mais tarde, já com Peña no poder, sairia o aval para a fintech operar como banco comercial completo.

Um salto na expansão ocorreu em 2024, com a fusão com o Visión Banco – possibilitando a incorporação de uma vasta carteira de clientes. O Ueno se transformou em uma das principais plataformas de pagamentos do país.

Tinha também 75 agências. A fintech atraiu milhares de novos correntistas com ofertas generosas de cashback em compras de supermercado.

Investiu maciçamente em marketing e publicidade, patrocinou a seleção paraguaia de futebol e estampou seu nome no estádio do Cerro Porteño, o time mais popular do país. O consultor e ex-congressista Sebastián Acha disse ao Financial Times que a população ficou revoltada com o colapso da instituição – “e foi fácil, para as pessoas, identificar Peña como o responsável.”

A legislação paraguaia estabelece a cobertura e restituição total dos depósitos até o equivalente a 75 salários mínimos – cerca de 228 milhões de guaranis (US$ 37 mil ao câmbio de hoje). De acordo com Acha, durante 25 anos o BC havia ficado distante da ingerência política e era liderado apenas por quadros técnicos.

“Mas este Governo assumiu e começou a mudar isso.” É um fim melancólico – ainda que tipicamente sul-americano – para Peña, um economista de 47 anos que trabalhou no FMI e vinha realizando um Governo considerado ‘tecnocrático’ e pró-mercado.

Agora, a dúvida dos analistas é até que ponto a crise vai machucar o bom momento econômico do país, promovido a investment grade em 2024.

Publicação Original Brazil Journal braziljournal.com
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