O dia seguinte no grupo de zap

O dia seguinte no grupo de zap - Foto
Fonte da notícia: O Globo O Globo

Você cumprimenta a mãe da aniversariante meio sem graça e ela te olha torto. Apesar do constrangimento, você não vai embora porque o seu Enzo quer ficar até o parabéns da Valentina. Serão horas de embaraço e mal-estar. Como você foi parar nessa situação? Na próxima segunda-feira, o presidente já estará eleito. Vida que segue, ao menos na teoria. Aquela discussão política com o motorista do táxi que você nunca mais verá na vida não tem muita importância, da mesma maneira que a treta nas redes sociais com desconhecidos será esquecida no dia seguinte. Problema mesmo são os grupos de zap. Não o da família, em que a intimidade faz com que as discussões tenham sempre um novo capítulo. A briga online do Natal pode ser resolvida na festa de réveillon. A questão são aqueles em que você é obrigado a conviver com seus integrantes, mas não tem muita intimidade com eles. O grupo dos moradores, por exemplo. Pode ser do condomínio, do bairro, da rua. Os administradores cansam de pedir para que se evite comentários políticos, mas tem sempre uns perturbados que não se aguentam, ainda mais nesta reta final. Aí é que mora o perigo. O vizinho mala resolve postar uma sandice sobre seu candidato. Você, de saco cheio daquela asneira, responde com o vídeo do Caetano. Aquele em que ele diz “você é burro, cara, como você é burro. Que coisa absurda. Isso aí que você disse é tudo burrice...”. Pronto. Lascou. Sei do que estou falando, acreditem. Daqui a uma semana você se encontra com o burro, quer dizer, com o vizinho, no elevador. Faltam dez andares. Aquele climão, ele com cara de bunda, você com um sorriso amarelo. Ainda tenta quebrar o gelo comentando o tempo ruim, mas o burro responde rosnando, quer dizer, zurrando. Vale a pena? Outro grupo perigoso: o dos pais da escola. JCada palavra precisa ser medida na régua. Nesta semana, o mais sensato é fingir de morto. Só que tem sempre aquela pessoa meio sem noção que solta uma fake news bizarra, aquela que de tão absurda faz o sangue ferver. Você, pacato cidadão, resolve responder à altura. Manda aquele clássico do Barroso no STF: “Você é uma pessoa horrível, uma mistura do mal com o atraso e pitadas de psicopatia”. Na hora você se sente vingado. Tolinho. Esqueceu que na próxima reunião de pais a tal pessoa estará lá, olhando atravessado. E também naquele aniversário do primeiro parágrafo, onde será servida mais uma torta de climão. E não dá para fazer nada, afinal, o Enzo é amigo da Valentina, então vocês têm que aturar um constrangimento que nunca será desfeito porque vocês não têm intimidade suficiente para deixar as coisas claras. Compensa? Nem preciso falar dos grupos do trabalho, do escritório, da firma. Ali qualquer observação sobre política é um tiro no pé, a ser lembrado no café, no banheiro ou no corredor. Isso quando não termina com um papo brabo no RH. Precisa? Por isso, até domingo, ao dar de cara com aquele comentário tóxico no grupo de zap, não caia na casca de banana: finja demência, faça a egípcia, conte até dez. Aceite uma verdade da vida: ninguém muda de opinião em grupo de WhatsApp. Melhor sair assoviando. Dito isso, bora votar, que desta vez as filas serão rápidas e urna eletrônica não olha torto nem guarda ressentimento.

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