Onde deixei a chave? Qual era mesmo o nome daquele filme? Por que entrei neste cômodo? Todo mundo já passou por isso, e a reação costuma ser de irritação ou preocupação. Afinal, é a memória que nos diz quem somos, sustenta o que aprendemos e guia decisões simples, como o caminho de casa ou a senha do celular.
Quando ela falha, é natural sentir que algo saiu do lugar. Mas a neurociência mostra que o esquecimento também é parte do bom funcionamento da memória.
A todo instante, o cérebro é bombardeado por estímulos, como sons, imagens, cheiros e pensamentos. Reter tudo isso seria inviável.
Para funcionar bem, ele precisa selecionar o que é relevante e deixar o restante para trás, o que vale tanto para o compromisso da semana quanto para a cor da camisa de quem passou por nós na rua. Compreender como esse processo acontece é também compreender como a mente escolhe o que vale a pena guardar.
É o que procuro explicar na coleção de livros infantojuvenis de divulgação científica Aventuras de um neurônio lembrador (Editora ICH). Continua após a publicidade
<span class="hidden">–</span>Foto: ICH/Reprodução A seguir, gostaria de esclarecer como o cérebro funciona, quando o esquecimento está dentro do esperado e a partir de que momento vale ficar atento a possíveis problemas.
Continua após a publicidade Nem sempre escapar da memória é perder de vez
Lembrar envolve etapas: registrar, armazenar e resgatar quando necessário. Uma falha em qualquer uma delas apagar informações da mente.
Às vezes o conteúdo continua guardado, mas o acesso fica bloqueado na hora, como no fenômeno da “ponta da língua”, quando sabemos que conhecemos a palavra, mas ela não vem. Tudo começa pela atenção
A todo instante, o cérebro recebe milhares de informações ao mesmo tempo: sons, imagens, cheiros, pensamentos. Não dá para guardar tudo, e o foco funciona como um filtro.
Segundo Lent, “é preciso prestar muita atenção nas coisas consideradas importantes para o depois”. Muitas vezes, não conseguimos lembrar de algo porque isso não chegou a ser bem registrado.
Se lembrássemos de tudo, não conseguiríamos pensar Esquecer é essencial para o ser humano.
Uma mente capaz de reter absolutamente tudo ficaria soterrada por detalhes irrelevantes, e a capacidade de raciocinar e tomar decisões ficaria comprometida. Ao descartar o que não serve, o cérebro abre espaço para o que realmente importa.
Lembrar é manter no radar Imagine um edifício enorme, com bilhões de apartamentos, cujos moradores conversam o tempo todo por interfone.
É mais ou menos assim que os neurônios, as células do cérebro, se comunicam: cada sinapse é como um toque de um apartamento para outro, levando um recado. Quando a ligação se repete com frequência, ela se fortalece e a lembrança permanece.
Se aquele interfone quase nunca é acionado, a conexão enfraquece e a mensagem vai se apagando. Continua após a publicidade
A memória tem um ciclo ao longo da vida Já na infância, formamos uma quantidade enorme de sinapses e depois eliminamos as menos utilizadas, preservando as que a experiência reforça.
Essa “poda” segue pela vida adulta, e a rede de neurônios se reorganiza conforme aprendemos, vivemos e deixamos de recorrer a certos conteúdos. Ganhar e perder conexões, portanto, é um movimento contínuo, que acompanha a pessoa até a velhice.
Até aqui é normal. Depois, vale investigar
Perder a lembrança do nome de alguém que conheceu há pouco ou mesmo o fio da meada em dias de cansaço e estresse é comum e, na maioria das vezes, sem gravidade. O alerta acende quando a falha começa a atrapalhar o dia a dia: repetir a mesma pergunta várias vezes em pouco tempo, não recordar acontecimentos recentes importantes ou se perder em trajetos conhecidos.
Nesses casos, pode haver relação com condições como o Alzheimer, e o ideal é buscar avaliação médica. Quanto mais cedo a investigação, maiores as possibilidades de acompanhamento e tratamento.
* Roberto Lent é neurocientista, professor emérito da Universidade Federal do Rio de Janeiro, fundador da Rede de Ciência para a Educação e pesquisador do Instituto D’Or, além de membro da Academia Brasileira de Ciências. É vencedor do Prêmio Jabuti Acadêmico 2025 e autor da série Aventuras de um neurônio lembrador (Editora ICH)
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