O Brasil passaria em um 'teste de estresse'?

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Fonte da notícia: O Globo O Globo

Numa disputa acirrada em que derrapadas podem custar caro, a virada de Lula parece mais associada aos erros de Flávio, que também deram munição ao time digital do PT, do que aos méritos de sua gestão. O outro lado desse resultado é que há muitas dificuldades e riscos adiante.

A inquietação da sociedade é terreno fértil para reações a faíscas de descontentamento, sendo o peso da oposição eleita no Congresso um dos sinais da cisão e do anseio de mudanças. A desconfiança do mercado financeiro, com seu impacto nos preços de ativos, torna o quadro ainda mais propenso a acidentes de percurso.

Tudo isso em um quadro econômico mais frágil em comparação ao de 2022, com a dívida pública e os gastos mais elevados como proporção do PIB; estatais que voltaram a ser deficitárias; a economia desacelerando; endividamento e inadimplência tirando sono de famílias e empresas; a enorme defasagem de preços de combustíveis, principalmente do diesel — o reajuste pode elevar o risco de greve de caminhoneiros.

Haverá iniciativas do governo para reduzir o risco de cenários de estresse? Nessas circunstâncias, os investidores buscam sinais de como será o Lula 4, já que a manutenção da política fiscal atual implica riscos muito elevados.

Naturalmente, o foco inicial é a formação do time econômico. Será um time com diagnósticos corretos e com capacidade de propor medidas tecnicamente robustas e com estimativas de impacto confiáveis?

A base técnica é a espinha dorsal, mas a credibilidade do programa depende de mais fatores, a serem observados pelos agentes econômicos, no caso, o tripé da política. Primeiro, se o ministro da Fazenda será politicamente hábil para convencer internamente sobre a necessidade de reformas, de afastar medidas que ferem as boas práticas na gestão das contas públicas — como os gastos fora do Orçamento — e do compromisso com a disciplina fiscal.

O presidente da República sofre muitas pressões por gastos e renúncias tributárias, cabendo ao ministro da Fazenda alertar sobre as restrições fiscais, bem como apontar se há justificativa plausível para cada iniciativa pretendida. Ministro forte é aquele que conta com a confiança do presidente na hora de dar más notícias.

Segundo, se haverá liderança do presidente nessa agenda, coordenando a coalizão e arcando com o custo político dos ajustes. A Fazenda propor medidas e encaminhar ao Congresso está longe de ser o suficiente para construir credibilidade na gestão fiscal.

E o compromisso precisa se traduzir em atuação dos estrategistas políticos, começando pela Casa Civil. Atualmente, o presidente Lula, bem como os articuladores políticos, adotam um discurso negacionista em relação ao ajuste.

Terceiro, se haverá esforços para ampliar o apoio no Congresso, trazendo o centro democrático para o governo, algo que o PT costuma ter dificuldade. O desafio é enorme.

Mas nem tudo são más notícias. A renovação do time econômico é por si só um reconhecimento da necessidade de correção de rota.

E alguns nomes possíveis para assumir a Fazenda, citados pela imprensa, têm capacidade técnica e política comprovada em seus Estados. Nomes que supostamente contam com a confiança do presidente.

Há muitos gastos de baixa qualidade, cujos ajustes podem ser paulatinos, mas em várias frentes, preservando os que mais precisam de ajuda estatal, de forma a conter resistências políticas. O próprio time econômico atual, em um reconhecimento da necessidade de ajustes, vem sinalizando com a consolidação de políticas sociais.

As promessas de campanha não precisam ser entregues rapidamente e podem ser recalibradas — por exemplo, o transporte público gratuito no final de semana, que deveria ter a aprovação de cada prefeitura e com contrapartida, de forma a incentivar a busca do melhor modelo, conforme as características e demandas locais.

Não se trata exatamente de promover uma mudança abrupta na trajetória de gastos e dívida, mas de haver um plano consistente e crível, para o curto prazo e para o mandato presidencial, na direção da consolidação fiscal. Compromissos críveis, com sustentação política, podem trazer melhora no ambiente econômico, antes mesmo da entrega do plano proposto.

O caminho é longo e espinhoso, mas é necessário para evitar uma crise econômica e para garantir a governabilidade. E ele é possível.

Publicação Original O Globo oglobo.globo.com
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