‘O blues nunca esteve tão bem’: quem é o guitarrista chamado de ‘salvação’ do gênero

‘O blues nunca esteve tão bem’: quem é o guitarrista chamado de ‘salvação’ do gênero - Foto
Fonte da notícia: Valor Valor

Contra uma série de crenças que por um tempo previram a queda do blues como força planetária desde a morte de B.B. King, em 2015, um jovem de 27 anos, Christone “Kingfish” Ingram, originário do mesmo Mississippi de John Lee Hooker, Willie Brown e Muddy Waters, tem sido recebido pelo mundo como uma espécie de salvação.

Kingfish, chamado assim por sua semelhança com o personagem George “Kingfish” Stevens, da série cômica americana “The Amos Andy Show”, sabe provocar explosões levando seus blues originários para enlaces com o rock, o funk e algumas baladas pop. Sua guitarra e sua voz têm a mesma força, e essa combinação o coloca à frente de sua própria geração, marcada ou por uma coisa (as vozes de Marcus King, Jontavious Willis, Samantha Fish e Asher Belsky) ou outra (as guitarras de Eddie 9V, DK Harrell, Grace Bowers e Jared James Nichols).

O Best of Blues & Rock Fest, evento que será realizado entre 20 e 22 de novembro, no Parque Ibirapuera, em São Paulo, já tem nomes fortes o suficiente para ser considerado um êxito, como Roger Daltrey, o eterno vocalista do The Who, e Eddie Vedder (vocalista do Pearl Jam). Mas é bom olhar para Kingfish.

Buddy Guy o chamou em público de “a próxima explosão do blues”, o jornal inglês The Guardian o classificou como uma “estrela formada” e o Los Angeles Times o considerou uma “ameaça tripla” por causa de uma combinação de solos, voz e composições. Em entrevista ao Valor, Kingfish fala sobre expansão versus retração do blues, que hoje conta com apenas um representante da linhagem de ouro do gênero em atividade: Buddy Guy, de 90 anos.

“Na minha visão, o blues nunca esteve tão bem”, diz. Ele acredita que o filme “Pecadores”, vencedor de quatro Oscars em 2026, serviu como um catalisador do blues para as novas gerações.

“Ele projetou o blues para um público totalmente novo, um público jovem. Enquanto tivermos coisas assim e caras como eu, Mathias Lattin, Dylan Triplett e tanta gente, o blues vai estar sempre por aí.

E eu sinto que os jovens vão acabar tendo que nos ouvir em algum momento.” Kingfish ouve uma pergunta com um tom crítico do jornalista a seu estilo.

Sua voracidade inicial parecia sempre engolir suas ideias, fazendo as frases saírem emboladas da guitarra. Isso parece ter mudado com o tempo.

“Sim. Acho que, quanto mais eu envelheço, mais você vai ouvir essa maturidade.

Quando eu era mais novo, eu queria tocar o máximo de notas que conseguisse. Hoje estou tentando reduzir um pouco, sentir mais, ter mais variedade.

Ainda faço coisas malucas, mas quero mostrar um lado mais maduro da minha música.” As questões de lugar e pertencimento para sentir um blues em sua plenitude, tão caras às gerações anteriores, não parecem ser um problema.

Ter uma “alma blues” não é, segundo Kingfish, uma exclusividade de quem nasceu nos Estados Unidos. “Qualquer pessoa pode tocar e sentir o blues.

Todo mundo vai ter aquela mesma alma? Não, de jeito nenhum. Seria bobagem pensar assim.

Agora, se faltar alma é porque a pessoa não nasceu nos Estados Unidos? Eu não diria isso. Isso abriria um outro assunto.”

Como ele fala de alma, se torna incontornável o assunto influências. A explosão de seus solos leva a pensar que Kingfish tenha algo de guitarristas texanos brancos como Stevie Ray Vaughan e Johnny Wynter, mas não.

Aqui está sua lista mágica: “Eu fui apresentado ao universo da guitarra por B.B. King e Muddy Waters.

Mas, quando comecei a me aprofundar, passei a ouvir caras como Son House, Robert Nighthawk, Albert Collins, Hubert Sumlin, Otis Rush e Magic Sam. A lista continua”.

Mas ele termina olhando para a frente. Ou para o lado.

“Estou sempre ouvindo gente como Thundercat, H.E.R. e Kendrick Lamar.

E também alguns caras do blues rock, como Lattin, Dylan Triplett e Jontavious Willis. Tem muita gente se movimentando e fazendo barulho no mundo do blues.”

Mas barulhos nem sempre são bem-vindos, e Kingfish sabe disso. Quem estiver à sua frente na plateia do festival vai saber por que ele é também conhecido nas internas como um músico vigoroso e estridente.

Depois de ouvir por muitas vezes técnicos de som pedindo que abaixasse o volume da guitarra, resolveu seguir as regras. “Sim, isso ainda acontece durante a passagem de som.

E, sabe, eu não sou um... como posso dizer? Na falta de um termo melhor, eu não sou um babaca.

Então, normalmente eu sigo as regras e diminuo um pouco.”

Publicação Original Valor valor.globo.com
Acessar no site oficial
Compartilhar: WhatsApp Facebook Telegram X
Curadoria e Apuração Editorial QTU Conteúdo jornalístico publicado em conformidade com os nossos Princípios Editoriais e política de transparência.
Conhecer a Redação →