O amor virou assunto para empreendedores: saiu Vinicius de Moraes, entrou o coach de palco

O amor virou assunto para empreendedores: saiu Vinicius de Moraes, entrou o coach de palco - Foto
Fonte da notícia: O Globo O Globo

Estudar, se formar, conseguir um emprego. Um bom emprego, de carteira assinada.

Chegar às nove, sair às seis. Fazer hora extra para ganhar mais, se esforçar para conseguir a promoção.

Até ontem, lembro bem, esse era o sonho. O texugo do mel e a eleição

Não mais. A carteira assinada parece ter se tornado coisa do passado.

Os jovens querem “virar a chave”: ser empreendedores, trabalhar onde e quando der vontade. Ser o próprio patrão.

Querem cuidar do seu próprio negócio, ser CEOs do seu destino, “desbloquear o seu potencial”. Devem estar certos, são jovens.

Ninguém acha que está errado aos 20 anos. Lembro disso também.

Talvez ser empregado de carteira assinada seja mesmo um sonho do passado. A CLT, dizem, ficou para trás.

Mas só no trabalho? Ficantes, conversantes, contatinhos.

Nada muito firme, nada muito seguro. Hoje é você.

Amanhã, não sei. Se funciona, seguimos; se não, deixa pra lá: próximo! Se isso não é pejotização, não sei mais o que é.

Sofrer por amor virou coisa do passado: pra quê? Se um vai, logo chegará outro, ainda a tempo de um date no sábado à noite. Basta organizar bem: tem o Tinder, tem o Bumble, tem a DM do Instagram.

É preciso conhecer gente, rolar perfis, fazer a fila andar. Tem que despejar Rivotril nas águas do Guandu

O amor virou assunto para empreendedores. Saiu Vinicius de Moraes, entrou o coach de palco.

Os sonetos foram substituídos por emojis: de foguinho, de diabinho, até de berinjela. Funciona, dizem.

Onde só se tinha olhos para o outro, agora é de bom tom focar em si mesmo. É preciso ter a terapia em dia e cultuar o autocuidado: se não performar com competência, a startup — quer dizer, a relação — não vinga.

Tem que se proteger do ghosting, que nada mais é do que uma demissão sem aviso prévio. A vertigem da paixão, que em outros tempos seria um contrato de experiência, agora é uma red flag para os investidores: melhor tomar um Dramin e seguir o seu caminho.

Desviar, sim, dos emocionados e dos intensos, que estes são passionais, arriscados demais para qualquer empreendimento. Não têm o mindset necessário para um relacionamento de high ticket.

Mas e a CLT no amor, onde foi parar? Existe reciclagem para carteiras de trabalho afetivas? O coach manda sair da zona de conforto. E quem gosta de morar nela?

Fico feliz com a alegria dos jovens empreendedores, mas sou velho o suficiente para ter percebido que muitas vezes as coisas não são como os coaches prometem e que nem todos têm vocação para Elon Musk. Às vezes, é melhor um salário na mão do que um monte de dívidas voando.

O dia seguinte no grupo de zap Também fico feliz com a leveza das relações atuais: ninguém mais perde o chão ou quebra a cara.

Deve ser bom e ainda evita rugas e cabelos brancos. Porém, já percebi que o frenesi do sábado à noite pode se esvair no domingo de manhã, e que, às vezes, numa quarta-feira de chuva, depois do Jornal Nacional, ter alguém ao lado para conversar sobre aquela viagem tão sonhada é um privilégio.

O autocuidado é importante e ter uma agenda cheia de contatinhos é útil para quem “não gosta de rótulos”, mas acho que escolher um sofá novo a dois, ler o jornal de domingo juntos na cama ou ter alguém para segurar a mão na hora da notícia ruim pode ser tão bom quanto rolar infinitamente a tela do Tinder.

Pensando bem, quem sou eu para dar opinião? Só um CLT do amor, nada mais.

Somos poucos, cada vez menos, mas basta um par para que a gente não desapareça de vez.

Publicação Original O Globo oglobo.globo.com
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