247 – Uma investigação baseada em mensagens de WhatsApp, registros telefônicos e documentos financeiros revelou a proximidade entre Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, e o ministro Kassio Nunes Marques, do Supremo Tribunal Federal (STF). Os contatos ocorreram durante o andamento de processos judiciais que envolviam interesses bilionários da instituição financeira e incluíram encontros intermediados por um desembargador, benefícios oferecidos pelo banqueiro e pagamentos a uma empresa que transferiu recursos ao filho do magistrado.
As informações foram publicadas pela revista Piauí, que analisou dezesseis conversas extraídas do celular de Vorcaro, decisões judiciais, documentos empresariais e um relatório do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf). A apuração identificou uma rede de relações envolvendo o ministro, seu filho Kevin Marques e o desembargador Newton Ramos, do Tribunal Regional Federal da 1ª Região (TRF1), responsável por organizar encontros entre o banqueiro e Nunes Marques.
Um dos episódios mais relevantes ocorreu em 1º de outubro de 2024, quando Nunes Marques mudou sua posição em um julgamento da Segunda Turma do STF e apresentou o voto decisivo em favor da Destilaria Alcídia. Embora o Banco Master não tivesse créditos diretamente vinculados àquele processo, o resultado era acompanhado pela instituição devido aos possíveis efeitos sobre outras ações envolvendo indenizações bilionárias cobradas da União.
Na mesma data, Vorcaro cobrou de seu diretor jurídico, Luiz Rennó, atenção a um contrato relacionado a Kevin Marques. Meses depois, o executivo voltou a mencionar o filho do ministro ao discutir pagamentos mensais de R$ 500 mil.
“Esse aqui – 500 mil mês – mantém?”, perguntou Rennó, ao compartilhar o contato de Kevin. A investigação não demonstrou que Kevin tenha recebido pessoalmente esse valor mensal.
Segundo o Coaf, a Consult Inteligência Tributária recebeu R$ 6,6 milhões do Banco Master entre agosto de 2024 e julho de 2025. A empresa, por sua vez, transferiu aproximadamente R$ 282 mil ao filho de Nunes Marques.
Kevin nega ter prestado serviços ao Master ou recebido pagamentos diretamente de Vorcaro. Ele afirma que os recursos transferidos pela Consult remuneraram serviços jurídicos especializados.
Desembargador organizou encontros entre Vorcaro e Nunes Marques O desembargador Newton Ramos aparece como uma figura central na aproximação entre o banqueiro e o ministro do Supremo.
Segundo o levantamento da piauí, Ramos e Vorcaro trocaram 463 mensagens e realizaram 40 chamadas pelo WhatsApp entre março de 2024 e abril de 2025. As conversas mostram que o desembargador articulou pelo menos nove encontros presenciais entre o empresário e Nunes Marques, embora os registros não permitam confirmar a realização de todos eles.
Em 22 de abril de 2024, Ramos convidou Vorcaro para uma reunião com o ministro. “Amigo, tudo bem? Vem por aqui essa semana? Queria ver se tomávamos um vinho eu, vc e o Min Kassio.”
O encontro não ocorreu naquela ocasião porque o banqueiro estava prestes a viajar para Londres, onde participaria de um evento jurídico promovido pelo Banco Master. Em junho, o desembargador voltou a procurar Vorcaro.
Os dois acabaram se reunindo em Brasília, na residência de Ramos, em 17 de junho. Naquele dia, o magistrado compartilhou com o banqueiro dois contatos salvos em seu telefone como “Kassio Marques” e “Kevin Marques”.
Horas depois, Vorcaro solicitou à secretária que organizasse uma reunião com Kevin na sede do Master, em São Paulo. O encontro ocorreu em 20 de junho, com a presença do filho do ministro, de Francisco Craveiro de Carvalho Junior, amigo de longa data de Nunes Marques, e de uma terceira pessoa identificada como Álvaro Brito.
Kevin voltou à instituição em outubro daquele ano, novamente acompanhado de Craveiro. Os registros analisados pela revista mostram que os telefones de Kevin e Vorcaro tiveram 144 interações pelo WhatsApp entre junho de 2024 e maio de 2025, incluindo possíveis mensagens e chamadas.
O conteúdo dessas comunicações não pôde ser recuperado porque a conversa estava configurada para apagar automaticamente as mensagens depois de 24 horas. Nunes Marques mudou posição e deu voto decisivo em julgamento acompanhado pelo Master
A atuação de Nunes Marques no processo da Destilaria Alcídia constitui um dos principais pontos da investigação. O caso envolvia indenizações cobradas da União por empresas do setor sucroalcooleiro em razão de políticas de controle de preços adotadas pelo governo federal na década de 1980.
O Banco Master havia adquirido créditos judiciais de diferentes usinas, apostando na possibilidade de receber valores elevados caso as decisões fossem favoráveis às empresas. Segundo estimativas da Polícia Federal citadas pela piauí, a carteira de precatórios da instituição alcançava R$ 10 bilhões.
Inicialmente, Nunes Marques estava impedido de participar do julgamento da Destilaria Alcídia porque havia atuado no processo em 2018, quando integrava o TRF1. Em março de 2024, entretanto, o ministro afastou o impedimento.
Na decisão, afirmou que a restrição havia sido registrada “por equívoco da assessoria” e declarou: “Afasto o impedimento lançado no sistema, declarando-me habilitado a votar.”
Naquele momento, o julgamento estava empatado em dois votos a dois. Em setembro, Nunes Marques pediu vista, interrompendo a análise do processo.
O caso retornou à Segunda Turma em 1º de outubro, quando o ministro apresentou voto favorável à destilaria. A manifestação representou uma mudança em relação ao entendimento que havia adotado em 2018, quando votara contra a empresa no TRF1.
Com seu voto, a Segunda Turma decidiu por três votos a dois em favor da usina. Vorcaro comemorou o resultado em mensagem enviada naquela tarde:
“Ganhamos STF!” A piauí também identificou uma mensagem do então diretor jurídico do Master, Luiz Rennó, comemorando o desfecho e compartilhando o contato de Kevin Marques, acompanhada da expressão:
“Dominado aqui.” A proximidade temporal entre as comunicações, os encontros e a decisão judicial é um dos elementos destacados pela investigação.
Os registros apresentados, entretanto, não demonstram, por si só, que o voto tenha sido condicionado a pagamentos ou benefícios. Empresa recebeu R$ 6,6 milhões do Master e repassou dinheiro ao filho do ministro
As movimentações financeiras envolvendo Kevin Marques representam outro ponto central da apuração. Segundo relatório do Coaf, a Consult Inteligência Tributária recebeu R$ 6,6 milhões do Banco Master entre agosto de 2024 e julho de 2025.
Nesse período, a empresa transferiu aproximadamente R$ 282 mil ao filho de Nunes Marques. Kevin havia aberto seu escritório de advocacia em agosto de 2024, poucos meses depois de começar a exercer a profissão.
As mensagens mostram que executivos do Master discutiam pagamentos relacionados à Consult e mencionavam o contato do advogado. Em agosto de 2025, Rennó encaminhou a Vorcaro uma relação de pagamentos pendentes que incluía R$ 500 mil destinados à Consult.
Quando o banqueiro questionou a despesa, o diretor jurídico respondeu: “Muito importante tbem.”
Dois dias depois, Rennó informou que ainda faltava realizar o pagamento da empresa. Ao compartilhar o contato de Kevin, escreveu:
“Esse aí. Único ‘meu’ que faltou.”
Posteriormente, comunicou: “Foi pago.”
Em setembro, a referência a um pagamento de R$ 500 mil à Consult ainda aparecia em documentos encaminhados a Vorcaro. A reportagem não conseguiu determinar a natureza completa dos serviços prestados pela empresa ao banco nem demonstrar que os repasses tenham sido utilizados para remunerar decisões judiciais.
Kevin sustenta que recebeu R$ 281,6 mil da Consult por serviços jurídicos nas áreas tributária e administrativa, mediante emissão de notas fiscais, sem participação em atividades relacionadas aos clientes da contratante. Escritório da mulher de desembargador poderia receber até R$ 427 milhões
Além das relações envolvendo o filho de Nunes Marques, a investigação identificou um contrato de honorários firmado entre o Banco Master e um escritório de advocacia integrado por Camilla Ramos, mulher do desembargador Newton Ramos. O acordo previa remuneração equivalente a 5% do benefício econômico bruto obtido em doze processos relacionados a usinas de açúcar e álcool.
Como as ações envolviam aproximadamente R$ 8,5 bilhões, o contrato poderia render até R$ 427 milhões ao escritório, caso os resultados previstos fossem alcançados. Entre os processos estavam os das usinas Una e Capricho, que tramitavam no TRF1 e representavam expectativas de recebimento de aproximadamente R$ 1,2 bilhão para o Master.
As mensagens mostram que Vorcaro consultava Newton Ramos sobre o andamento dessas disputas. Em outubro de 2024, o banqueiro perguntou:
“Alguma evolução que mereça falarmos?” O desembargador respondeu:
“Por enquanto não, amigo.” Em seguida, acrescentou:
“Mas to em cima.” No dia seguinte, Ramos informou:
“Falei com ele. Vai tratar do assunto no fim de semana.”
Os registros não permitem identificar com segurança a pessoa mencionada pelo desembargador. A situação chama atenção porque Ramos mantinha contato próximo com um empresário interessado em processos que tramitavam no tribunal ao qual pertence, enquanto o escritório de sua mulher representava a instituição financeira nessas disputas.
Em nota, o desembargador afirmou que estava legalmente impedido de participar de julgamentos relacionados a causas patrocinadas pelo escritório de sua família e negou ter tratado dos interesses profissionais da mulher com outros magistrados. O escritório também declarou que Newton Ramos não integrava o colegiado responsável pelos processos e que, até o momento, não havia recebido honorários relacionados ao contrato.
Viagens, hospedagens e outros benefícios aparecem nas mensagens A investigação da piauí também identificou pedidos de benefícios feitos por Newton Ramos a Vorcaro.
Entre as solicitações estavam hospedagens em hotéis de luxo, ingressos para eventos, viagens em aeronaves particulares e serviços para familiares e convidados. Em novembro de 2024, o desembargador utilizou um avião disponibilizado pelo banqueiro para viajar a Buenos Aires.
Ao retornar, agradeceu a Vorcaro pelo apoio durante o fim de semana. Outras mensagens tratavam de acomodações para o Carnaval, camarotes na Sapucaí, uma casa em Trancoso e condições especiais de hospedagem no hotel Fasano.
Em maio de 2025, Ramos encaminhou a uma funcionária do banqueiro um pedido atribuído ao próprio ministro: “Ministro Kassio me pediu para ver se vocês conseguem para ele uma tarifa promocional para o Fasano.
Só uma diária.” Ao tomar conhecimento da solicitação, Vorcaro respondeu:
“Pode pegar e colocar minha conta.” Os registros também indicam que uma casa no Joá, no Rio de Janeiro, estava sendo preparada para receber o ministro durante o Carnaval, com providências relacionadas à segurança e à logística.
Em dezembro de 2024, a conversa entre Ramos e Vorcaro passou a ter mensagens apagadas automaticamente após 24 horas. Pelo menos 282 mensagens foram eliminadas depois da mudança.
A reportagem ainda identificou registros de interações entre o telefone de Vorcaro e um contato salvo como “Kassio Marques”, em 2 de dezembro de 2024. O conteúdo não foi recuperado.
O ministro afirmou à revista que nunca trocou mensagens com o banqueiro. Ministro nega favorecimento e contesta relação com processos do Master
Procurado pela piauí, Nunes Marques rejeitou as suspeitas de favorecimento ao Banco Master e negou ter solicitado benefícios a Daniel Vorcaro. Em nota, afirmou que “nunca votou a favor de Daniel Vorcaro (inclusive deu voto pela manutenção da prisão), nunca pediu nada ao banqueiro e nem recebeu nenhum pedido dele”.
O ministro também declarou que “nunca autorizou ninguém a falar em nome dele” e que “não pode se responsabilizar por conversas ou ações de terceiros”. Sobre o julgamento da Destilaria Alcídia, sustentou que a Segunda Turma do STF “deliberou à unanimidade pela inexistência” de seu impedimento.
Argumentou ainda que “não se tratava de ação sobre o Master” e que a decisão “não teve alcance geral nem serviu de precedente para outros processos do setor”. Em relação ao filho, Nunes Marques afirmou que Kevin “nunca recebeu nada do Banco Master”, que os recursos pagos pela Consult corresponderam a “serviços jurídicos” e que “nenhum parente advogou para o banqueiro”.
Kevin também negou qualquer prestação de serviços ao Master e afirmou que os pagamentos recebidos da Consult decorreram de atividades jurídicas regulares. Newton Ramos, por sua vez, declarou que não mistura suas relações pessoais com as funções exercidas no Judiciário.
“Acho que já tentei deixar claro que não misturo minhas relações pessoais ou do meu trabalho com a atividade profissional da minha esposa”, afirmou. Camilla Ramos e o escritório Queiroga, Vieira, Queiroz & Ramos confirmaram a existência de uma relação profissional com o Master desde 2024, mas ressaltaram que o contrato não abrangia processos no Supremo Tribunal Federal nem a ação da Destilaria Alcídia.
O escritório também afirmou que não comenta “conteúdos provenientes de vazamentos ilegais e seletivos” ou comunicações protegidas pelo sigilo profissional. Caso Master amplia questionamentos sobre relações no Judiciário
A divulgação dos novos registros ocorre em meio às investigações sobre as atividades do Banco Master e suas relações com autoridades públicas. A carteira de precatórios da instituição passou a ser examinada pelas autoridades após o avanço do escândalo financeiro envolvendo o banco.
Segundo a reportagem, a Corregedoria Nacional de Justiça cancelou requisições de pagamento que somavam R$ 4,7 bilhões relacionadas inicialmente às usinas Una, Capricho e Vale do Ceará-Mirim, ampliando posteriormente a revisão a outros casos. Newton Ramos também entrou no radar da Corregedoria, embora permaneça no cargo.
No Supremo, Nunes Marques é relator de um mandado de segurança que pede a instalação de uma Comissão Parlamentar de Inquérito para investigar o Banco Master no Congresso Nacional. Conforme a piauí, o processo estava sob sua relatoria havia sete meses sem despacho.
O ministro também ocupa a presidência do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), em um momento de decisões relevantes para a disputa presidencial de 2026.
Brasil 247