'Nunca tive contato', 'é mentira' e 'nunca entrei em avião': as contradições de Flávio sobre a relação com Vorcaro

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Fonte da notícia: O Globo O Globo

Desde o início do ano, o senador e candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL-SP) acumula contradições ao se pronunciar sobre sua relação com Daniel Vorcaro, o banqueiro que operou a maior fraude financeira do país. Sem reconhecer a fragilidade das versões apresentadas ao longo dos meses, o candidato vem tentando adaptar o discurso a cada nova revelação do escândalo do Banco Master. Em março, quando o número de seu telefone apareceu na agenda de Vorcaro, Flávio afirmou que nunca havia tido contato com o então dono do Banco Master. Dois meses depois, questionado sobre o financiamento do filme Dark Horse, cinebiografia de Jair Bolsonaro, reagiu: “É mentira”. Horas mais tarde, após a divulgação de mensagens e áudios, admitiu que conhecia o banqueiro e havia recorrido a ele em busca de recursos para a produção. Em julho, ao tentar delimitar novamente o alcance da relação, fez outra afirmação categórica: “Nunca entrei em avião de Vorcaro”. Mas o parlamentar embarcou em aeronave operada pelo Prime You, empresa que teve entre os seus donos o banqueiro. ‘Nunca tive contato’ Em 16 de março, após a Folha de S.Paulo revelar que seu telefone constava na agenda de Vorcaro, Flávio afirmou negou ter qualquer relação com o banqueiro. Ele argumentou que a presença de seu número no aparelho não significava que os dois se conhecessem. — Nunca tive contato. O número do meu telefone não é propriamente um segredo — afirmou Flávio ao jornal na ocasião , sugerindo que o seu número poderia ter sido repassado por terceiros. Dois meses depois, Flávio mudou radicalmente sua versão e afirmou que conhecia Vorcaro desde dezembro de 2024. Flávio admite que fez cobrança a Vorcaro sobre patrocínio de filme de Bolsonaro Em vídeo divulgado em 13 de maio, após a publicação de mensagens e áudios pelo Intercept Brasil, admitiu também que havia recorrido ao banqueiro para financiar o filme sobre o pai. — O que aconteceu foi um filho procurando patrocínio privado para um filme privado sobre a história do próprio pai. Zero de dinheiro público. Zero de Lei Rouanet. Na mesma manifestação, apresentou sua cronologia para a relação: — Conheci Daniel Vorcaro em dezembro de 2024, quando o governo Bolsonaro já havia acabado e quando não existiam acusações nem suspeitas públicas sobre o banqueiro. O contato é retomado quando há atraso no pagamento das parcelas de patrocínio necessárias para a conclusão do filme. ‘É mentira’ A admissão ocorreu poucas horas depois de outra negativa. Naquele 13 de maio, na saída de uma agenda no Supremo Tribunal Federal, um repórter do Intercept Brasil perguntou a Flávio sobre a informação de que Vorcaro havia financiado o filme. — É mentira, não é isso não. Os cinco erros de gestão de crise de Flávio Bolsonaro após divulgação de áudio de Vorcaro Questionado sobre a origem da informação, respondeu “De onde você tirou isso?” e, na sequência, voltou a negar: — É mentira, eu já te falei isso, pelo amor de Deus. Aí não dá. Jornalistas, bom trabalho. Militante, saia. Horas depois, o Intercept publicou mensagens e áudios que mostravam Flávio tratando diretamente com Vorcaro do financiamento de Dark Horse. Segundo a reportagem, a negociação previa US$ 24 milhões, cerca de R$ 134 milhões na cotação da época, dos quais aproximadamente R$ 61 milhões foram repassados. Áudio revelado por site mostra mensagem de Flávio Bolsonaro para Vorcaro No dia seguinte, questionado pela GloboNews sobre o assunto, Flávio entrou novamente em contradição com os fatos:   — Eu não falei que era mentira. Tenho contrato de confidencialidade. Estou falando disso agora porque veio à tona, não tem mais como negar. Confrontado novamente, reconheceu: — Eu menti. Eu podia descumprir uma cláusula contratual? Isso gera multa, isso gera exposição dos investidores. Das cobranças aos encontros Os registros divulgados a partir de maio também mostraram a extensão da participação de Flávio nas tratativas do filme. Em áudio enviado em 8 de setembro de 2025, cinco dias depois de o Banco Central rejeitar a compra do Master pelo BRB, ele cobrou parcelas atrasadas e relatou preocupação com a situação financeira da produção. “E apesar de você ter dado liberdade, Daniel, de a gente te cobrar, eu fico sem graça de ficar te cobrando, tá? Mas enfim, é porque tá no momento muito decisivo aqui do filme, e como tem muita parcela para trás, cara, tá todo mundo tenso e preocupado”. Vorcaro respondeu que resolveria a situação. Logo depois, os dois fizeram uma ligação de WhatsApp de dois minutos e 38 segundos. Conversas entre o senador e o banqueiro Arte O Globo Outros registros apontam encontros e novas tentativas de aproximação. Em agosto, há indicação de uma reunião presencial. Em setembro, integrantes da produção disseram a Vorcaro que Flávio queria encontrá-lo para mostrar material já gravado. Em outubro, o senador convidou o banqueiro para um jantar com o ator Jim Caviezel, que interpreta Jair Bolsonaro, e o diretor Cyrus Nowrasteh. Em 7 de novembro, dez dias antes da prisão de Vorcaro, Flávio enviou ao banqueiro um vídeo da produção: — Tá perdendo, irmão! Tudo isso só está sendo possível por causa de vc! Vorcaro respondeu: “Que demais” e, depois, “Ficou perfeito”. A PF descreveu Flávio, em relatório tornado público neste mês, como interlocutor direto de Vorcaro nas tratativas financeiras de Dark Horse. Os investigadores ainda buscam esclarecer a origem dos recursos, o papel das empresas utilizadas nos repasses, o destino do dinheiro remetido ao exterior e a atuação de cada envolvido. Flávio é investigado e nega irregularidades. ‘Não vai ter surpresinha’ Depois de admitir o financiamento, Flávio passou a argumentar que qualquer novidade sobre sua relação com Vorcaro estaria ligada exclusivamente ao filme. Em 15 de maio, afirmou à CNN Brasil: — Pode vazar um videozinho mostrando o estúdio, que eu possa ter enviado para ele, ou algum encontro que eu possa ter tido com ele. Foi tudo para tratar exclusivamente do filme. Não vai ter surpresinha. Não virão coisas novas. Quatro dias depois, tornou-se público um encontro até então não relatado: Flávio procurara Vorcaro pessoalmente depois da primeira prisão do banqueiro, quando ele já estava em prisão domiciliar e usava tornozeleira eletrônica. Flávio confirmou a reunião e disse que procurou o empresário para encerrar a questão do filme: —  Eu fui, sim, ao encontro dele para botar um ponto final nessa história, dizer que, se ele tivesse me avisado que a situação era grave como essa, eu já teria ido atrás de outro investidor há muito mais tempo e o filme não correria risco. A reunião ocorreu na casa de Vorcaro, em São Paulo, depois de o banqueiro ter sido solto em 28 de novembro. Flávio anunciou sua pré-candidatura à Presidência dias depois, em 5 de dezembro. Prestação de contas prometida por Flávio não foi divulgada Em 19 de maio, depois de admitir as tratativas para financiar o filme, Flávio afirmou que havia determinado à produtora que apresentasse uma prestação de contas dos recursos usados no filme em até 30 dias. O prazo terminou em 18 de junho sem que o candidato ou a produção tornassem público o conjunto de documentos prometido. Flávio nunca apresentou esta prestação de contas. Depois, passou a sustentar que a promessa já havia sido cumprida porque a produtora entregara documentos durante uma investigação da Polícia Civil de São Paulo, e parte das informações acabara publicada pelo g1. Em entrevista à TV Globo, afirmou: — Eu falei: eu quero em 30 dias que a produtora apresente uma prestação de contas. E, antes desse prazo, a prestação de contas foi feita inclusive na investigação que estava acontecendo na Polícia Civil de São Paulo por exigência minha, antes dos 30 dias, inclusive eu vi na própria imprensa, foi publicado no site do G1. O material citado por Flávio não detalha os gastos realizados nos Estados Unidos e nem transações do fundo Havengate, estrutura financeira no alvo da PF. ‘Nunca entrei em avião de Vorcaro’ Em julho, Flávio voltou a estabelecer publicamente os limites de sua relação com o banqueiro. Depois de Michelle Bolsonaro compartilhar uma publicação sobre supostas festas promovidas por Vorcaro, o senador afirmou durante um encontro com mulheres conservadoras em Brasília: — Eu quero garantir para vocês aqui: a única relação que eu tenho com Vorcaro é sobre o filme do meu pai. É a única. Vocês não vão me ver em festinha de Vorcaro. Nunca entrei em avião de Vorcaro e nunca estive em festinha de astronauta. Em vídeo antigo, Flávio Bolsonaro nega ter viajado em avião de Vorcaro A declaração sobre o avião voltou à tona nesta semana. Em 19 de janeiro de 2025, Flávio, a mulher, Fernanda, e as duas filhas viajaram de Fort Lauderdale, nos Estados Unidos, para Brasília em um Legacy 650 operado pela Prime You, que tinha Vorcaro entre seus sócios naquele período. A aeronave era de propriedade compartilhada. Uma das cotas estava vinculada à Prime You, enquanto outra pertencia ao advogado Willer Tomaz, amigo de Flávio. Tomaz afirmou que convidou o senador, solicitou o voo e arcou integralmente com a viagem. Procurado pelo GLOBO, Flávio não negou ter feito o deslocamento, mas afirmou que desconhecia a participação da empresa ligada a Vorcaro na propriedade da aeronave: — Na época o avião era do Willer, eu tive zero contato com Vorcaro. Fizemos uma viagem em família, mais nada. O avião era dele. Não sabia da cota da empresa. Para mim o avião era do Willer. Qualquer coisa além disso é distorção da realidade. Quatro dias tentando falar com Vorcaro Nesta quinta-feira, O Estado de S. Paulo revelou mais um elemento que contrasta com a negativa inicial de Flávio de que nunca tivera contato com Vorcaro. O candidato tentou falar com o banqueiro em cada um dos quatro dias anteriores à primeira prisão, entre 13 e 16 de novembro de 2025. No último deles, escreveu: “Irmão, estou e estarei contigo sempre, não tem meia conversa entre a gente. Só preciso que me dê uma luz!”. Vorcaro foi preso no dia seguinte, no Aeroporto de Guarulhos, quando se preparava para embarcar para o exterior. As mensagens ampliam o que se sabia sobre a frequência dos contatos entre os dois, mas não revelam o assunto que Flávio pretendia tratar nem há elemento público que indique que ele soubesse antecipadamente da operação policial.

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