Muitas vezes, a decisão de um homem procurar um médico começa com uma conversa em casa. Companheiras que percebem mudanças, insistem em uma consulta ou simplesmente incentivam o cuidado com a saúde podem ter um papel importante nesse processo.
Um levantamento do Centro de Referência em Saúde do Homem de São Paulo, divulgado pelo Ministério da Saúde, mostra que 70% dos homens que procuram atendimento médico tiveram influência da companheira ou dos filhos. O dado ganha destaque durante o Novembro Azul, campanha de conscientização sobre a saúde masculina e o câncer de próstata, e ajuda a dimensionar a importância do apoio familiar para aproximar os homens dos consultórios.
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A resistência em buscar atendimento também aparece em uma pesquisa da Sociedade Brasileira de Urologia (SBU), realizada com 1.500 homens acima dos 40 anos. Segundo o levantamento, 46% só procuram um médico quando apresentam algum sintoma.
Além disso, 18% têm as consultas agendadas pelo parceiro ou parceira, enquanto 78% reconhecem que as mulheres cuidam mais da própria saúde do que os homens. Por trás desses números está uma relação com o autocuidado que ainda é atravessada por preconceitos e constrangimentos.
No caso da saúde urológica, o receio de falar sobre o próprio corpo e de realizar exames pode contribuir para o adiamento das consultas. A questão é especialmente relevante diante da estimativa do Instituto Nacional de Câncer (INCA) de 77.920 novos casos de câncer de próstata por ano no Brasil entre 2026 e 2028.
A doença é a mais incidente entre os homens brasileiros, desconsiderados os tumores de pele não melanoma, e pode não apresentar sintomas nas fases iniciais. O papel das companheiras na quebra de preconceitos
O urologista Lucas Takikawa, especialista em doenças da próstata, observa que muitos homens deixam de procurar atendimento por associar mudanças no corpo ao envelhecimento ou por não dar importância a determinados sinais. Dificuldade para urinar, alterações no jato urinário e necessidade frequente de levantar durante a noite para ir ao banheiro, por exemplo, merecem avaliação médica, mesmo quando não representam necessariamente um problema grave.
Nesse cenário, a participação das companheiras pode ir além de lembrar o parceiro de marcar uma consulta. Conversar sobre saúde, ajudar a desfazer ideias equivocadas sobre os exames e tratar o assunto com naturalidade são formas de diminuir o constrangimento que ainda afasta parte dos homens dos consultórios.
O incentivo também pode ajudar a transformar a prevenção em um tema presente na rotina do casal, e não apenas em uma preocupação quando surgem sintomas. Uma revisão científica publicada na revista Preventive Medicine, que analisou 19 estudos sobre relações sociais e exames de próstata, identificou que homens casados ou com companheiras apresentavam, em geral, maior adesão ao rastreamento.
Os pesquisadores, no entanto, ressaltaram que ainda são necessários novos estudos para compreender melhor essa associação. Informação também ajuda a vencer a resistência
A avaliação da próstata deve considerar a idade, o histórico familiar e as condições individuais de cada homem. Exames como o PSA e o toque retal podem ser discutidos durante a consulta, mas a indicação precisa ser individualizada.
O Ministério da Saúde e o INCA não recomendam o rastreamento indiscriminado de homens sem sintomas. Para as mulheres que desejam incentivar os companheiros a cuidar da saúde, o diálogo pode ser um primeiro passo.
Falar sobre consultas e exames sem tabu, compartilhar informações confiáveis e mostrar que procurar ajuda não diminui a masculinidade são atitudes que podem contribuir para mudar essa relação. O Novembro Azul, portanto, também abre espaço para discutir como os preconceitos em torno da saúde masculina afetam a vida a dois e a dinâmica familiar.
O apoio das companheiras pode ser decisivo para iniciar essa mudança, mas o cuidado precisa ser incorporado pelos próprios homens como parte da rotina.
O Globo