A nova secretária de Imprensa do presidente Donald Trump, Katie Zacharia, subiu ao púlpito sob os olhares de uma sala lotada de jornalistas — e de boa parte de seu público. Ela abriu um largo sorriso diante daquele mar de rostos, alguns inquisitivos, outros amistosos. Com isso, ela entrou ao vivo e se tornou a voz oficial da pessoa mais poderosa do mundo. Leia também: Trump nomeia Katie Zacharia como nova porta-voz da Casa Branca Trump diz que secretária de imprensa da Casa Branca deixará cargo no fim de agosto Quatorze minutos e apenas três jornalistas com perguntas depois, tudo havia terminado. Ficou claro que a ex-comentarista da Newsmax conseguiu pelo menos uma coisa: devolveu o sentido de brevidade às coletivas de imprensa da Casa Branca. Em sua estreia, na terça-feira (13), Zacharia manteve o olhar baixo e frequentemente leu diretamente de um roteiro. Fez uma pausa e sorriu ao pronunciar as palavras "Departamento de Guerra". Tropeçou em uma pergunta sobre sua trajetória e confundiu as palavras "marido" e "presidente".
As poucas perguntas que aceitou não foram confrontadoras e vieram de veículos de comunicação que demonstram simpatia pelo presidente republicano. Em resumo: não deixou uma impressão memorável, ou, pelo menos, segundo alguns observadores, não a impressão que provavelmente desejava. Esse não seria um trabalho fácil em nenhuma circunstância. Trump frequentemente atua como seu próprio porta-voz. E sua hostilidade em relação à imprensa criou uma nova camada de tensão. Zacharia está descobrindo, desde o primeiro dia, que ela também estará sob vigilância constante. Alguns observadores,incluindo pessoas que já ocuparam seu cargo, não consideraram que a estreia tenha sido particularmente boa. Em tempos de fragmentação, em meio a uma disputa pela atenção da imprensa nacional que seria inimaginável há apenas algumas décadas, qual é a maneira adequada de exercer uma função como essa? Como se comunicar de forma eficaz quando seu chefe fala por si mesmo com tanta frequência que domina o noticiário várias vezes ao dia — e, às vezes, até tarde da noite — com declarações provocativas, inesperadas e, por vezes, incendiárias? Para começar, é preciso reconhecer para quem se trabalha: não para uma audiência de milhões de pessoas, mas para uma audiência de uma única pessoa, cuja aprovação é absolutamente necessária. "Tenho a oportunidade de fazer o que já vinha fazendo do lado de fora, que era buscar amplificar, multiplicar e expandir a incrível agenda do presidente Trump para o povo americano", afirmou Zacharia. Em nenhum momento ela mencionou a tarefa de transmitir informações precisas aos americanos. Ao longo de quase dez décadas, desde que o ex-jornalista George E. Akerson estreou na função de secretário de Imprensa do presidente Herbert Hoover, em 1929, o cargo serviu a muitos propósitos: transmitir informações, divulgar políticas públicas, confrontar jornalistas, proteger a reputação presidencial e, às vezes, comandar esforços para obscurecer os fatos. Sob Trump e sua secretária de Imprensa durante o segundo mandato até então, Karoline Leavitt, que renunciou em agosto, a função passou a consistir principalmente em agir como um objeto imóvel diante de uma força irresistível — e, aos olhos de Trump, às vezes até traidora. Leavitt conheceu bem esse terreno durante seus 17 meses no cargo. Adotou uma postura sorridente, mas combativa, diante de uma imprensa que vinha sendo cada vez mais criticada por Trump por sua cobertura jornalística, e foi citada em pelo menos um processo judicial relacionado ao acesso dos veículos de comunicação à Casa Branca. Ela não hesitava em interromper o que considerava parcialidade da imprensa. "Que pergunta idiota", disse a uma repórter durante uma coletiva no ano passado. Na terça-feira, pouco depois da coletiva de Zacharia, Trump elogiou sua estreia, classificando-a como "excelente". Ela estava atrás dele naquele momento. Outras avaliações iniciais foram mais críticas. A emissora MS NOW citou um funcionário da Casa Branca não identificado que afirmou, sobre o desempenho: "Ela precisa melhorar muito, e rápido, caso contrário vai quebrar o recorde de Scaramucci". Anthony Scaramucci, um dos primeiros diretores de Comunicação da Casa Branca no primeiro mandato de Trump, permaneceu apenas 11 dias no cargo, em 2017. Na tarde de terça-feira, ele escreveu na rede social X: "Espero que ela consiga permanecer". Jen Psaki, ex-secretária de Imprensa do presidente Joe Biden e atual apresentadora de um programa na MS NOW, foi mais sucinta ao publicar no X: "Bem, aquela coletiva foi basicamente um esquete do SNL... só que não era". O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, conversa com jornalistas enquanto caminha para embarcar no helicóptero Marine One, sob o olhar da secretária de Imprensa da Casa Branca, Katie Zacharia Julia Demaree Nikhinson/AP Elogios a Trump, mas poucas perguntas Embora o desempenho de Zacharia — e, evidentemente, toda coletiva de imprensa também é uma apresentação — possa ter parecido irregular para alguns, o encontro foi praticamente desprovido de conteúdo, com exceção da notícia que ela revelou sobre o pedido da Casa Branca para que a embaixadora americana na Grécia, Kimberly Guilfoyle, deixasse o cargo, o que ela fez imediatamente. Como era previsível, e assim como Leavitt antes dela, Zacharia dedicou boa parte de sua fala inicial a elogiar Trump e a apresentar uma espécie de retrospectiva das prioridades e realizações de seu segundo mandato até agora. Entre os pontos destacados estavam uma "economia em expansão", "seu crescimento histórico na produção de energia" e "uma ótima relação com a Venezuela". Ela também demonstrou preferência por superlativos, uma característica que provavelmente encontrará receptividade em um presidente cujas declarações costumam ser igualmente grandiosas, quando não ainda mais: "O presidente Trump está trabalhando para garantir a segurança do Hemisfério Ocidental pelos próximos séculos". Quando chegou a hora das perguntas, porém, ela foi extremamente econômica. Permitiu que três jornalistas fizessem perguntas e respondeu a mais uma enquanto se preparava para sair. Os três veículos chamados durante a coletiva foram Breitbart, Fox News e Daily Mail, todos favoráveis a Trump em diferentes graus e momentos de seus dois mandatos. Zacharia também afirmou que manteria a política de Leavitt de incluir as chamadas "novas mídias" nas coletivas, o que frequentemente significou abrir espaço para veículos mais simpáticos a Trump. "Adoramos as novas mídias e queremos acolhê-las", afirmou. Atualmente, três grandes veículos, CNN, MS NOW e Politico, lutam para recuperar o acesso à Casa Branca depois que Trump os excluiu no mês passado, alegando não gostar de sua cobertura e classificando-a como "notícias falsas". Como Zacharia se sairá nos próximos dias e semanas e, caso permaneça no cargo, nos próximos meses? Isso, como tantas outras coisas, depende de uma única pessoa: Donald Trump. O falecido senador americano Howard Baker disse certa vez, em uma frase que se tornou famosa, que, diante de perguntas difíceis, a melhor estratégia seria mais ou menos esta: se você não gostar da pergunta, simplesmente responda a outra. Na terça-feira, meio século depois, Katie Zacharia encontrou uma alternativa: escolher três jornalistas que não fariam perguntas confrontadoras, deixar o restante para seu chefe e dizer: fim. A secretária de Imprensa da Casa Branca, Katie Zacharia, chega para falar com jornalistas na sala de coletivas Julia Demaree Nikhinson/AP
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