Boca de Ouro, o poderoso bicheiro de Madureira, é um assassino cruel, mas também consegue ser sedutor; é temido e admirado. O personagem-título de “Boca de Ouro”, de Nelson Rodrigues, muda seu comportamento ao longo dos três quadros em que se divide a peça.
Maria Mariana: Atriz revisita 'Confissões de adolescente' e prepara novo livro: 'Entrando em contato com a menina que se descobriu escritora' Gui Ventura: quem é o ex-PM que venceu mais 800 concorrentes para interpretar Gilberto Gil no musical em cartaz em SP
O dramaturgo chegou a sugerir que três atores diferentes interpretassem o papel. O mais comum é que seja apenas um.
No caso da versão que estreia quinta-feira (29) no Sesc Copacabana, no Rio, a missão cabe a Tuca Andrada. Ele foi convidado pelo diretor Sergio Módena, que há dois anos encenou “A falecida” (com Camila Morgado como Zulmira), outra das “tragédias cariocas” de Nelson.
Ele destaca, como motivo de atualidade do texto de 1959, a trama repartida em diferentes visões. — É o que a gente vive hoje.
Como as narrativas estão totalmente atreladas a vieses ideológicos e interesses pessoais, é impossível captar uma verdade absoluta. Esse aspecto, que o Nelson já trazia no fim da década de 50, dialoga muito com o tempo presente — afirma Módena.
— E há, também, a questão do poder financeiro. Os personagens que estão à volta do Boca de Ouro acabam abandonando a sua ética para se beneficiar do dinheiro.
Nada mais atual. A peça acontece em flashbacks.
Após a morte de Boca, o repórter Caveirinha (Jessé Scarpellini), do jornal fictício O Sol, vai até a casa de Guigui (Ana Velloso), uma das mulheres que se relacionaram com o bicheiro. Ele quer que ela conte alguma história escabrosa.
Em cada quadro, Guigui apresenta um retrato de Boca. — O Nelson previu essa época que a gente vive, de pós-verdade — diz Tuca.
— Qual é a história verdadeira? Quem é o Boca de Ouro? O que me desafia como ator é que o Boca é diferente em três versões, de acordo com o estímulo emocional que a Guigui tem. Não deixa de ser um monstro, mas muda em função do que a Guigui conta.
Eu acho isso fantástico. O ator traça os perfis dos três Bocas:
— O primeiro é mais agressivo, um monstro mesmo. O segundo está mais cavalheiresco, tem dor, mostra uma fragilidade.
O terceiro é aquele malandrão carioca que é quase um mito, uma fantasia. O Antunes (Filho) já falava que o Nelson escreve totens, mitos que existem dentro da vida brasileira.
O diretor paulista Antunes Filho (1929-2019), que realizou vários espetáculos baseados na obra de Nelson, não aceitava que o autor (pernambucano de nascimento) fosse visto, nas suas tragédias cariocas, apenas como um retratista da vida do Rio de Janeiro. Ele precisaria ser tratado como um artista universal.
— O Nelson não se basta na reprodução do universo carioca. Ele acaba falando da miséria humana — concorda Módena, que, com o apoio da cenógrafa Aurora dos Campos e do iluminador Tomás Ribas, desenvolveu um ambiente não realista para a montagem.
— Fui para um espaço simbólico. Qual é o movimento dramatúrgico proposto? É a dissecação do mito ou a tentativa de dissecação.
A peça acaba evocando um espaço de dissecação de cadáver, de Instituto Médico Legal. É um lugar que flerta com a morte, com os corpos, o sangue.
Há mortes nos três quadros. Em todos, Boca contracena com o casal Leleco (Gustavo Wabner) e Celeste (Maria Clara Aquino), que varia de atitudes em cada parte.
Ainda há uma grã-fina anônima e outra mulher rica fascinada por Boca, Maria Luísa, ambas vividas por Cássia Sanches. — Elas ficam encantadas por esse mundo marginal — ressalta Tuca.
— Na peça, ninguém é santo. É mundo cão.
Não tem salvação para nenhum desses personagens. A primeira cena acontece no consultório de um dentista (Antonio Gonzalez).
O bicheiro pede para ter todos os dentes arrancados e trocados por dentes de ouro. Ele também vai mandar fazerem um caixão todo de ouro para o seu enterro.
Segundo acredita, só vai morrer quando o caixão ficar pronto. A obsessão por ouro é compensação de uma infância miserável.
Sua mãe era prostituta, e ele nasceu numa pia de gafieira. Quando lembrado disso, fica transtornado.
A história de Boca evoca a de Zulmira em “A falecida”. Ela planeja em detalhes o próprio enterro.
— “A falecida” fala sobre os excluídos que buscam uma forma de ascensão e vingança por terem se tornado invisíveis socialmente — diz Módena. — O Boca, apesar de ter adquirido muito dinheiro, tem um episódio traumático da infância que ele acredita só superar com um caixão coberto de ouro.
Ou seja, é a possibilidade de transcender esse mundo através da morte. De olho em ‘Toda nudez’
“A falecida”, de 1953, é a primeira das tragédias cariocas. Quase todas foram criadas no mesmo período em que Nelson escrevia as histórias de “A vida como ela é” no jornal Última Hora.
Além de “Boca de Ouro”, o ciclo também tem “Perdoa-me por me traíres” (1957), “Os sete gatinhos” (1958), “O beijo no asfalto” (1961), “Otto Lara Resende ou Bonitinha, mas ordinária” (1962) e “Toda nudez será castigada” (1965). Esta última é o novo objeto do desejo de Módena.
— Nelson é um vício. Quando começa, não para — assegura o diretor.
— Para um encenador e para os atores, é um campo fértil de possibilidades estéticas. Um tipo de dramaturgia muito aberta para experimentação, além dos temas universais que o Nelson aborda.
Para Tuca, apresentar “Boca de Ouro” neste momento de efervescência política, por causa das eleições, é muito apropriado: — É um momento em que se fala sobre o que é verdade, em que se dissecam personagens da vida pública do país.
E a peça ainda faz um questionamento sobre a imprensa. Qual o papel da imprensa no país? Acho que chega na hora exata.
Como diz o Nelson, é batata.
O Globo