'Amado' por entrevistadas, Jonathan Van Meter assina biografia autorizada de Kim Kardashian que chega às livrarias dos EUA; conheça

'Amado' por entrevistadas, Jonathan Van Meter assina biografia autorizada de Kim Kardashian que chega às livrarias dos EUA; conheça - Foto
Fonte da notícia: O Globo O Globo

Imagine, por um instante, que você é Kim Kardashian e alguém a procura querendo escrever um livro sobre você. Você é muito rica e, com o toque de um botão, alcança 343 milhões de seguidores no Instagram — um número superior à população dos EUA.

Você é a estrela de um reality no qual documentou divórcios, nascimentos, empreendimentos e, ponto crucial, os desdobramentos de uma sex tape que a lançou ao epicentro da cultura de celebridades do início dos anos 2000. Por que entregar as chaves a outra pessoa? Segundo a própria Kim Kardashian, a resposta é simples: Anna Wintour garantiu que Jonathan Van Meter, redator de longa data da Vogue, seria a pessoa ideal para o projeto.

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— Quando ela faz uma indicação, pode ter certeza: é algo significativo e importante — disse Kardashian sobre Wintour, em uma conversa por telefone este mês. Como os leitores descobrirão no livro de Van Meter, “Citizen Kim: the woman who created the future”, que chegou ontem às livrarias dos EUA, é assim que Kardashian costuma tomar decisões: de forma definitiva e, muitas vezes, sem muita deliberação.

E o processo é mais rápido quando alguém como Wintour está envolvido. “Achei que eles se dariam bem”, comentou Wintour por e-mail.

“E eu estava certa.” Assim, com o apoio da mulher mais poderosa do mundo da moda, Van Meter começou, em 2021, a escrever “Citizen Kim”.

Trata-se de uma biografia autorizada que coloca Kardashian no centro de uma cultura dominada por influenciadores — um cenário que ela mesma ajudou a criar. Ao longo de cinco anos, ele entrevistou Kardashian, seus irmãos, sua mãe, Kris Jenner, e sua madrasta/padrasto, Caitlyn Jenner.

Até mesmo Van Meter fica surpreso por tudo ter dado certo. — Ainda não entendo muito bem por que as pessoas confiam tanto em mim — disse Van Meter, de 63 anos, em uma entrevista mês passado, em Nova York.

— Por que Kim disse sim? De certa forma, não cabe a mim entender. E, ainda assim, todos sempre me dizem: “É por causa da maneira como você escreve sobre as mulheres.”

Jonathan Van Meter: 'A única coisa que eu acho que é realmente uma grande sorte e algo incrível é que a vida de Kim mudou completamente durante os cinco anos em que convivi com ela' Kate Warren / The New York Times

A fama moderna coloca as celebridades sob uma luz intensa. Com a ascensão da cultura dos influenciadores e o declínio da influência das publicações tradicionais, essas personalidades parecem se sentir mais à vontade entrevistando umas às outras do que conversando com um jornalista.

No entanto, celebridades de um certo patamar — mulheres poderosas e, muitas vezes, incompreendidas — abrem-se para Van Meter, pois seus perfis sobre elas exercem um efeito acolhedor. Ajuda o fato de ele carregar o selo da Vogue — publicação para a qual colabora desde 1990 — e de não se considerar um “repórter”.

Para ele, o trabalho de um repórter é mais invasivo do que o que ele faz: contar uma boa história. — Preciso, de certa forma, celebrar um pouco essas pessoas — diz ele sobre suas entrevistadas, como Oprah Winfrey e Lady Gaga.

Em 2019, Kardashian emplacou sua primeira capa solo da Vogue americana, na época em que ainda era casada com o rapper Kanye West. Van Meter escreveu a reportagem na qual ela anunciou que estava estudando para se tornar advogada e falou sobre seu trabalho para convencer o presidente Trump — naquele seu primeiro mandato — a comutar a pena de Alice Johnson, que na época cumpria prisão perpétua por uma condenação relacionada a drogas.

(Johnson hoje atua como responsável pelos perdões presidenciais na gestão de Trump.) O livro aborda apenas superficialmente as posições políticas de Kardashian ou sua amizade com a filha mais velha de Trump, Ivanka.

— A única coisa que eu acho que é realmente uma grande sorte e algo incrível é que a vida de Kim mudou completamente durante os cinco anos em que convivi com ela — disse Van Meter. — Houve o divórcio, ela se tornou bilionária, comprou um jato, começou a atuar...

Se eu tivesse tentado um ano e meio depois, talvez ela tivesse dito não. Foi nessa época que West fez declarações antissemitas e seu comportamento tornou-se mais errático.

O divórcio de Kardashian e West, as lutas dele com a saúde mental e sua adesão ao nazismo são alguns dos episódios turbulentos mais recentes relatados no livro; no entanto, a obra concentra-se, em grande parte, no passado dela. Van Meter argumenta que foi a infância de Kardashian que lhe conferiu um impulso extraordinário para provar seu valor, somado a uma dose notável de determinação — algo que ela tem naturalmente.

Kardashian teve uma infância idílica em Beverly Hills, que foi interrompida pelo divórcio de seus pais. Seu pai, Robert, tornou-se advogado de defesa de um amigo da família, O.J.

Simpson, acusado de assassinar sua ex-esposa, Nicole Brown Simpson, e o amigo dela, Ronald Goldman. A mãe de Kardashian era muito próxima de Nicole Brown Simpson.

Simpson foi absolvido, mas o julgamento marcou uma ruptura traumática e de grande repercussão na família — uma ferida que nunca cicatrizou totalmente. Kardashian não costuma refletir muito sobre isso.

— Sou uma pessoa muito aberta o tempo todo, então não creio que chegue a ter conversas difíceis — comentou ela, que admite que, por meio das entrevistas com Van Meter, percebeu algo novo. — Eu não tinha noção de o quanto precisei amadurecer.

Ela acrescentou que Van Meter “consegue retratar tudo muito bem” e tem “uma cordialidade que inspira confiança”. Supermodelos

Kim Kardashian JULIEN DE ROSA / AFP

Com um semblante gentil e uma voz sussurrante, Van Meter tem o dom de fazer com que mulheres poderosas se abram com ele — e rapidamente. Ele e seu marido, o editor Andy Young, mudaram-se recentemente para o que ele chama de “comunidade de aposentados mais chique” do mundo — um recanto tranquilo no West Village.

Sua vizinha é a diretora Sofia Coppola. Mas a arte dos grandes perfis de celebridades, diz ele, “morreu enquanto eu ainda estava na ativa”.

Houve, contudo, muitos anos em que ele se divertiu bastante. Ele ganhou destaque no início dos anos 1990 ao registrar os excessos da era das supermodelos — imortalizando, por exemplo, uma declaração da então modelo de 26 anos Linda Evangelista, que se tornou notória: “Nós não saímos da cama por menos de US$ 10 mil por dia.” Eles estavam bebendo — elemento recorrente nos textos de Van Meter — e, quando ela disse aquilo, ele soube que tinha em mãos um material valioso.

Evangelista preferiu não dar declarações para esta reportagem. Em 1991, Van Meter se meteu em apuros ao insultar Kim Basinger — a primeira personalidade que ele entrevistou para uma capa da Vogue —, descrevendo-a como “burra que nem uma porta” durante uma conversa com a comediante Joan Rivers.

— Eu não tinha entendido muito bem que uma matéria de capa da Vogue não é o lugar para ser sarcástico ou maldoso — contou ele. — Wintour me chamou ao seu escritório e disse: “Jonathan, o que você está fazendo? Você não pode falar mal da pessoa que está na capa.”

Com o passar do tempo, ele adquiriu a habilidade de ouvir seus entrevistados com imparcialidade, a ponto de, por vezes, sentir-se como um terapeuta. Quando perguntei a Wintour, por e-mail, se ela cogitaria permitir que Van Meter escrevesse sobre ela, a resposta foi direta: “Com certeza.”

Publicação Original O Globo oglobo.globo.com
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