Custo de R$ 30 mi, estrela francesa, filmagens no mar e em estúdio: conheça a ambiciosa cinebiografia de Amyr Klink

Custo de R$ 30 mi, estrela francesa, filmagens no mar e em estúdio: conheça a ambiciosa cinebiografia de Amyr Klink - Foto
Fonte da notícia: O Globo O Globo

O cineasta carioca Carlos Saldanha, duas vezes indicado ao Oscar, construiu boa parte de sua trajetória fora do Brasil e no cinema de animação. Foi assim com obras de sucesso como “A era do gelo” (2002), “Rio” (2011) e “O touro Ferdinando” (2017).

Enquanto concluía os trabalhos no desenho sobre um touro de coração grande confundido com uma fera perigosa, ele começou a sentir vontade de duas coisas: dirigir um filme live action (com atores reais) e contar uma história bem brasileira. Foi quando a produtora Paula Cosenza chegou com a ideia de adaptar para os cinemas o livro “Cem dias entre céu e mar” (Companhia das Letras, 1985), de Amyr Klink, e Carlos Saldanha pôde unir o útil ao agradável.

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— Estava numa fase em que buscava projetos diferentes. Quando vi que era a história do Amyr Klink, de um livro que eu tinha adorado na adolescência, sabia que era um filme que queria fazer — conta Saldanha, de 58 anos, radicado nos Estados Unidos, em entrevista num hotel em Copacabana, na Zona Sul do Rio.

— Me interessou muito falar de um herói brasileiro diferente, de uma aventura única, e mostrar para o Brasil que temos esse tipo de história para ser contada. O longa “100 dias”, que chega amanhã aos cinemas do país após passagens pelo Festival do Rio e pela Mostra SP, acompanha a aventura de Amyr Klink que, em junho de 1984, aos 28 anos, partiu de Lüderitz, na Namíbia, para uma travessia de 100 dias até chegar à Praia da Espera, em Salvador, na Bahia, tornando-se a primeira pessoa a cruzar o Oceano Atlântico Sul sozinho num barco a remo.

— É um filme sobre travessias pessoais, uma coisa que todos nós fazemos. De forma diferente, não somos todos que passamos 100 dias no mar, mas todos fazemos — diz o diretor, que contou com a ajuda de Klink durante todo o processo.

— Amyr é um grande contador de histórias, ele tem esse dom de cativar contando as coisas que viveu. Foi muito inspirador poder embarcar nesse projeto.

Ter ele presente no processo criativo foi muito positivo. Foi muito generoso de doar o tempo dele e falar sobre ele.

Pude entrar na cabeça dele para poder contar essa história da forma melhor possível. Ele me deu total liberdade de criar o que quisesse.

Filipe Bragança interpreta Amyr Klink em "100 dias", de Carlos Saldanha Divulgação

Orçamento de R$ 30 mi Para interpretar seu navegador, Saldanha, após uma série de testes, convocou Filipe Bragança, que admirava pelo trabalho em outra cinebiografia, “Meu sangue ferve por você” (2023), filme de Paulo Machline em que o ator dá vida a Sidney Magal.

O jovem goiano de 25 anos descreve interpretar Klink como uma “experiência impressionante”. — Fiquei muito encantado com a história e com a grandiosidade e ousadia da produção.

É um filme muito grandioso. Sou muito apaixonado por aventuras, sobretudo por este tipo de filme que é também sobre um drama interior.

Amyr também atravessa um oceano interior — diz Bragança, que também se aproveitou da presença do navegador no processo, em entrevista ao lado de Saldanha no Rio. — Ele foi sempre muito gentil e generoso em tirar todas as minhas dúvidas e poder conversar não só sobre essa história, mas sobre várias outras incríveis que ele já viveu.

E ele era a principal referência para construir esse personagem, então, mais do que conversar com ele, era importante observá-lo e tentar entender como se comunicava, como se comportava. Com orçamento de R$ 30 milhões, “100 dias” teve como principal desafio representar de forma fiel e verossímil o cenário encontrado por Klink no meio do oceano.

Para isso, a obra mesclou cenas rodadas no mar, em Bertioga, no litoral norte de São Paulo, com outras filmadas em estúdio, num tanque de 400m² construído no interior do estado. — Filmamos uma semana no mar.

Mas filmar no mar exigia que o tempo estivesse bom e que fosse de dia. Não teríamos condição de filmar no mar à noite e muito menos durante uma tempestade.

Não poderíamos colocar o Filipe no meio de uma tempestade — diz o diretor. O ator interrompe:

— Eu provavelmente aceitaria. E Saldanha reforça:

— Mas a produção e o seguro, não. Então fizemos uma divisão.

Filmamos o que seria possível no mar e o restante em estúdio, com um ambiente controlado para criarmos as ondas, as tempestades, as cenas noturnas. Carlos Saldanha durante as gravações de "100 dias"

Divulgação/Fábio Braga Filipe Bragança descreve todo o processo como um “parque de diversões”.

— Pude viver uma grande aventura e voltar a ser criança um pouco. Foi muito divertido remar no mar.

Se me deixassem, iria até Lüderitz — diverte-se o ator. — Quando filmamos no tanque, com máquina de onda, máquina de vento, foi muito prazeroso embarcar nessa fantasia e tentar imaginar todo o cenário, com os peixes, o céu, a Lua.

Criei toda aquela fantasia na minha cabeça para sentir que estava realmente vivendo aquela experiência. Responsáveis por adaptar a obra de Amyr Klink para a tela grande, as roteiristas de “100 dias”, Elena Soarez e Thais Tavares, desenvolveram a história mesclando momentos do navegador no oceano ao longo de sua aventura com sequências de sua infância e sua difícil relação com família, além de cenas da preparação para a viagem tida como impossível.

Além de Filipe Bragança, o elenco conta com João Vitor Silva, atualmente em cartaz na novela da TV Globo “Quem ama cuida”, como Tymur Klink, irmão que serve como ponto de apoio do navegador em terra, e Felipe Camargo como Jamil Klink, o pai rígido com quem Amyr viveu uma relação muito difícil.

Grande coincidência Conhecida pelo papel de Sylvie Grateau na popular série “Emily em Paris”, a atriz francesa Philippine Leroy-Beaulieu faz sua estreia no cinema brasileiro no papel da mãe de Amyr, Asa Frieberg Klink.

Philippine Leroy-Beaulieu em cena de "100 dias", de Carlos Saldanha Divulgação/Fábio Braga

— Foi uma dessas coincidências maravilhosas do cinema. Marcela Altberg, nossa diretora de elenco, me falou que tinha uma atriz francesa que falava português e que tinha vontade de trabalhar no Brasil.

Quando vi que era a Philippine, falei: “Vamos conversar” — conta o diretor Carlos Saldanha. A atriz francesa de 63 anos conta que já conhecia a história de Klink e ficou ainda mais encantada ao ler o roteiro.

— Fiquei muito interessada por essa dinâmica familiar muito paradoxal, com dificuldades. Como atriz, adoro quando as coisas são complicadas — diz Leroy-Beaulieu, em entrevista no mesmo hotel em Copacabana.

— Eu interpreto essa mãe que queria liberar o filho da sombra e da violência do pai e queria que ele se encontrasse nessa travessia. E, ao mesmo tempo, ela entendia a ferida do marido, sabia que esse cara tinha uma dor enorme.

Ela era esse tipo de mulher, que iria ficar para tentar amar este homem com os monstros dele. A relação de Philippine Leroy-Beaulieu com o Brasil começou em 1985, quando ela visitou o Rio de Janeiro para lançar “Três homens e um bebê” (1985), de Coline Serreau.

Na ocasião, a viagem que seria de poucos dias se transformou em mais de duas semanas, com a atriz estendendo a estada para conhecer Búzios e Paraty. — Eu visitei o Brasil pela primeira vez nos anos 1980 e me apaixonei completamente.

Não pelo “folclore” brasileiro, as coisas que as pessoas falam na Europa, me apaixonei pelo povo brasileiro. Cheguei aqui e dez dias depois já me sentia em casa.

E não queria ir embora. Uma vez, vim para ficar um mês e fiquei três.

Na seguinte, tinha que ficar três meses, fiquei seis. Quase não conseguia voltar para a Europa — lembra a atriz.

— Não sei bem o motivo, foi uma coisa do coração que me pegou bastante. Aprendi o português aqui, mas não falo muito, por isso ele está fraquinho.

Felipe Camargo, seu par romântico na trama, discorda: — O português dela é maravilhoso.

Contradições e amor Veterano da teledramaturgia brasileira, o ator de 66 anos conta que a jornada de Amyr lhe impressionou muito quando jovem, mas que só hoje, após a experiência no longa, pôde perceber que a viagem também se tornou uma aventura de toda a família.

— A travessia do Amyr era muito pessoal, mas nessa teia familiar ele também provoca uma ruptura. A partir do momento em que decide fazer esta aventura, transforma a família inteira — diz Camargo.

— Era uma família com muitas contradições, mas com muito amor. Só que demonstrado de uma forma totalmente equivocada.

Jamil era um cara bruto, com a educação rígida, enquanto que a personagem da Philippine é muito livre e lúdica. (Lucas Salgado)

Publicação Original O Globo oglobo.globo.com
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