A região Norte tem a menor cobertura de mamografias do Brasil. Em 2025, apenas 10,6% das mulheres de 50 a 69 anos realizaram o exame, percentual bem abaixo da média nacional, de 22,1%, e da recomendação de 70% da Organização Mundial da Saúde (OMS). Os dados são da nova edição do Panorama da Atenção ao Câncer de Mama, que também aponta um alto número de diagnósticos em fases avançadas da doença na região.
O levantamento é resultado de uma parceria entre o Instituto Natura, a Avon, o Observatório da Oncologia do Movimento Todos Juntos Contra o Câncer (TJCC) e o Instituto Protea. As informações foram coletadas no Painel de Oncologia do Instituto Nacional de Câncer (INCA).
Entre os estados brasileiros, Tocantins apresentou a menor cobertura de mamografias em 2025, com 5,8%. Rondônia aparece em seguida, com 7,9%, enquanto o Pará registrou 8,7%. No Amapá, o índice foi de 12,2%; no Amazonas, 14,7%; no Acre, 16,5%; e em Roraima, 23,9%.
O estudo considera a faixa etária de 50 a 69 anos, seguindo o protocolo utilizado anteriormente pelo Ministério da Saúde. Em outubro de 2025, o governo federal ampliou a faixa etária para a realização da mamografia de rastreamento.
Apesar de ter a menor estimativa de novos casos de câncer de mama do país, com 30,3 casos por 100 mil mulheres, a região Norte enfrenta dificuldades para garantir o diagnóstico precoce. Em Rondônia, 84,3% dos tumores foram identificados nos estágios 3 e 4 da doença em 2025, quando o câncer já está em fase avançada. O estado teve a segunda menor cobertura de mamografias do Brasil no período.
“Os dados da região Norte mostram que não basta garantir que a mamografia esteja prevista no sistema de saúde: é preciso assegurar que ela chegue às mulheres no território em que precisam e no tempo adequado. Só assim conseguiremos chegar mais cedo e garantir acesso ao diagnóstico precoce”, afirma Mariana Lorencinho, gerente de Políticas Públicas pelo Cuidado com a Saúde das Mamas no Instituto Natura.
“Quando temos uma cobertura tão baixa e, consequentemente, uma proporção tão elevada de diagnósticos em estágios avançados, fica evidente a necessidade de enfrentar as desigualdades regionais no acesso ao rastreamento, ao diagnóstico e ao tratamento. Ampliar esse acesso e fortalecer uma linha de cuidado contínua são passos fundamentais para que o local onde uma mulher vive não determine suas chances diante do câncer de mama”, diz Mariana.
Diagnósticos tardios preocupam na região
A análise dos dados entre 2015 e 2025 mostra que Amazonas, Rondônia e Acre estão entre os estados com maiores proporções de diagnósticos tardios na região Norte, com índices de 65,9%, 65,8% e 64,6%, respectivamente.
Em 2025, o cenário piorou em Rondônia, onde 84,3% dos casos foram identificados em estágios avançados. No Acre, o percentual chegou a 76,2%.
O Amapá apresentou um resultado diferente dos demais estados. Entre 2015 e 2025, registrou a menor proporção de diagnósticos tardios do país, com 9,3%. Em 2025, o índice foi de apenas 2,7%.
Confira os percentuais de diagnósticos tardios entre 2015 e 2025:
Amazonas: 65,9%; Rondônia: 65,8%; Acre: 64,6%; Pará: 62,1%; Tocantins: 55,8%; Roraima: 55,7%; Amapá: 9,3%.
Demora para iniciar o tratamento
O tempo entre a confirmação da doença e o início do tratamento também é motivo de preocupação. A legislação brasileira estabelece o prazo máximo de 60 dias para que pacientes com câncer comecem o tratamento pelo Sistema Único de Saúde (SUS), a partir do diagnóstico confirmado.
Entre 2015 e 2025, Roraima teve a maior média de espera do país, com 195 dias. O Amapá ficou em segundo lugar, com 170 dias.
Os dados de 2025, porém, apontam uma melhora nesses dois estados. Roraima registrou média de 60 dias entre o diagnóstico e o início do tratamento, enquanto o Amapá teve média de 63 dias.
Mais da metade dos casos no Brasil é descoberta em estágio avançado
Em todo o país, 51% dos casos de câncer de mama registrados entre 2015 e 2025 foram diagnosticados em estágios avançados. A cobertura de mamografias entre mulheres de 50 a 69 anos também caiu no último ano, passando de 22,8%, em 2024, para 22,1%, em 2025.
Nesta edição, o Panorama passou a utilizar dados do Painel de Oncologia do INCA para analisar os diagnósticos e o tempo de espera pelo tratamento. Antes, o levantamento utilizava informações da Base do Registro Hospitalar de Câncer (RHC), considerada desatualizada. A mudança na metodologia permitiu uma análise mais recente do cenário da doença no país.
“Esta atualização representa um avanço importante para o monitoramento do câncer de mama no Brasil. Com dados mais recentes do Painel de Oncologia do INCA, conseguimos compreender com maior precisão a jornada das pacientes, identificar gargalos e desigualdades e produzir evidências que contribuam para políticas públicas mais efetivas”, comenta Dra. Catherine Moura, médica sanitarista, CEO da Associação Brasileira de Câncer do Sangue (Abrale) e líder do Movimento Todos Juntos Contra o Câncer.
Mulheres jovens também recebem diagnóstico tardio
O levantamento chama atenção para os casos entre mulheres mais jovens, que estão fora da faixa etária de rastreamento de rotina considerada no estudo. Segundo os dados, 68,3% das pacientes de 20 a 29 anos receberam o diagnóstico nos estágios 3 ou 4 da doença. Entre as mulheres de 30 a 39 anos, o percentual foi de 61,9%. Já na faixa de 40 a 49 anos, chegou a 53,7%.
Entre as mulheres de 50 a 69 anos, faixa considerada no levantamento para a mamografia de rastreamento, 47,6% receberam o diagnóstico em estágio avançado.
Em 2025, o SUS passou a permitir a realização de mamografias de rastreamento a partir dos 40 anos sob demanda, conforme as orientações do Ministério da Saúde.
Número de mortes aumenta no Brasil
As dificuldades para identificar a doença no início e começar o tratamento no tempo adequado também preocupam pelo impacto na mortalidade. Entre 2015 e 2025, o Brasil registrou 203.785 mortes por câncer de mama. Desse total, 21.668 ocorreram em 2025, o maior número da série histórica apresentada no levantamento.
Na divisão por raça, 55,4% das mortes registradas em 2025 foram de mulheres brancas e 43,9% de mulheres negras.
“É inaceitável que quase metade das mulheres na faixa etária-alvo do rastreamento ainda receba o diagnóstico de câncer de mama em estágios avançados, enquanto o país registra aumento da mortalidade pela doença. Esse resultado reforça a necessidade de qualificar a linha de cuidado, com uma rede capaz de assegurar acesso oportuno, redução de desigualdades, integração entre os serviços e continuidade da assistência desde a identificação de uma suspeita até o tratamento. Tudo isso é fundamental para melhorar os desfechos das mulheres com câncer de mama no Brasil”, afirma Nira Cará, diretora-executiva do Instituto Protea.
O Liberal