'Ninguém fica trás': grupo de corrida gratuito criado por três amigos na Zona Norte chega a 300 participantes

'Ninguém fica trás': grupo de corrida gratuito criado por três amigos na Zona Norte chega a 300 participantes - Foto
Fonte da notícia: O Globo O Globo

Há uma rua em Manguinhos, na Zona Norte, que Eduarda Ohana, de 34 anos, não conseguia atravessar. Foi ali que ela sofreu um atropelamento por uma Kombi, em 23 de outubro de 2024.

O acidente provocou uma lesão medular e fez com que ela passasse a usar cadeira de rodas. Antes, trabalhava havia 12 anos em um hospital e gostava de correr.

Já tinha percorrido 18 quilômetros e se preparava para uma meia maratona. Recuperação de imóvel artístico: Fechado há 35 anos, teatro histórico de Niterói será desapropriado e reaberto

Quer aprender os passinhos do charme? Nova plataforma leva os bailes para dentro de casa Recentemente, Eduarda voltou a passar pelo local e retomou as corridas com a ajuda de um grupo de Manguinhos.

Desde julho, ela participa do Pac Pace Crew, projeto gratuito criado por amigos para incentivar a prática de atividade física e que hoje reúne entre 200 e 300 pessoas nos treinos de quarta-feira à noite. Eduarda Ohana posa, depois de um treino de quarta-feira, com integrantes do Pac Pace Crew que a apresentaram ao grupo

Arquivo Pessoal Os encontros são marcados pelo incentivo mútuo.

O grupo reúne pessoas de diferentes idades e níveis de preparo físico, incluindo pessoas com deficiência (PcDs). Durante os percursos, os corredores se reorganizam para que todos consigam acompanhar o treino.

A proposta é resumida em duas frases que viraram lemas: “Correr sozinho nunca mais” e “Ninguém fica para trás”. Moradores se queixam de descarte irregular de lixo na Praça da Bandeira: homem flagrado despejando material responde com 'joinha' ao ser repreendido: veja vídeo

Para Eduarda, correr novamente significou recuperar uma parte importante de sua vida. Aos poucos, ela voltou a encarar distâncias maiores.

— Eu não esperava estar fazendo coisas que fazia antes, como correr. O Pac Pace me proporcionou isso de volta — diz.

A experiência vai além dos quilômetros percorridos. Eduarda define a corrida como uma espécie de terapia: os encontros ajudam a aliviar o peso da rotina, criar amizades e enfrentar desafios que pareciam distantes depois do acidente.

A preparação para os treinos também se reflete na vida fora deles. Aos poucos, ela foi conquistando autonomia para realizar tarefas do dia a dia que não conseguia fazer sozinha.

— Eu gosto de estar ali incentivando as pessoas e mostrando que o lugar da pessoa com deficiência é onde a gente quiser ir. Temos nossas limitações e dificuldades, mas podemos fazer muita coisa — frisa.

De identidade trocada a segredo de 15 anos: livro revela histórias curiosas de mulheres da Mangueira Participantes do grupo Pac Pace Crew criado por amigos de Manguinhos

Divulgação Um dos desafios recentes foi um treino longo em direção ao Museu do Amanhã, no Centro.

A meta era percorrer 21 quilômetros, mas a roda dianteira da cadeira de Eduarda quebrou quando o grupo havia completado 12 quilômetros. Ela pediu que os demais continuassem o percurso e voltou para casa de carro.

A vontade, porém, continua sendo alcançar novamente e até ultrapassar a distância que percorria antes do acidente. — Tem determinada hora que meu braço cansa.

Um vai lá e me ajuda um pouquinho, outro me ajuda a empurrar mais um pouco, e nós conseguimos chegar onde queremos — conta. Poesias em garrafas long neck: quem encontrar pode levar para casa

A cadeira, no entanto, é um obstáculo para a evolução nos treinos. O grupo pretende organizar uma campanha de arrecadação para comprar um modelo adequado às corridas e outra cadeira para o uso diário.

Nas ruas de Manguinhos, os desafios também estão no caminho: buracos, quebra-molas e falta de acessibilidade dificultam a circulação de quem usa cadeira de rodas. O Pac Pace Crew nasceu da iniciativa de Marcelo Alexandre, professor de educação física, e dos amigos Pedro Melo e Daniel Barbosa, que foram criados juntos em Manguinhos.

A cada atividade, passaram a percorrer distâncias cada vez maiores e a publicar vídeos dos treinos nas redes sociais para incentivar outras pessoas a sairem do sedentarismo. A identificação de quem acompanhava as publicações ajudou o grupo a crescer.

O nome também carrega referências à origem e à proposta do projeto. PAC é uma alusão ao Programa de Aceleração do Crescimento e à região de onde os integrantes vêm.

Pace significa ritmo de corrida, em inglês, e crew quer dizer equipe. Em cerca de quatro meses, a iniciativa ganhou novos participantes e se transformou em um grupo que ocupa as ruas da região.

Às quartas-feiras, os encontros começam às 20h, com percursos de aproximadamente cinco quilômetros. O trajeto muda a cada semana e pode passar por bairros como Benfica, Higienópolis, Maria da Graça e Bonsucesso.

Cerca de 23 integrantes ajudam na organização e no apoio aos corredores, incentivando quem tem dificuldade para completar o percurso e fazendo pausas para reagrupar o pessoal. Aos domingos, os treinos mais longos começam às 6h e podem chegar a 15, 20 ou 30 quilômetros.

Poda, iluminação, manutenção de calçadas: Rua de Copacabana recebe operação com serviços integrados A participação é gratuita.

O grupo recebe desde corredores experientes até iniciantes, idosos e crianças acompanhadas pelos responsáveis. A proposta é que cada um encontre seu ritmo e tenha apoio para continuar, sem que o desempenho individual se torne uma barreira.

Para Alexandre, o impacto da iniciativa vai além da atividade física. O professor vê no esporte uma forma de apresentar novas possibilidades a quem acredita que não consegue praticar exercícios por causa de hábitos antigos, do sedentarismo ou de outras dificuldades.

A própria trajetória o fez enxergar o esporte de outra maneira. Em 2022, enquanto trabalhava como motoboy, Alexandre foi assaltado e agredido durante o serviço.

O episódio resultou em uma fratura no rádio — um dos ossos do antebraço —, e ele precisou passar por uma cirurgia no Hospital Estadual Getulio Vargas. A recuperação e o impacto emocional afetaram os estudos, e ele chegou a pensar em abandonar a faculdade de Educação Física.

Com o incentivo dos amigos, retomou o curso e se formou em 2026. Hoje, também trabalha com natação em águas abertas e procura levar para o grupo a experiência que teve com o esporte.

— O esporte não é só uma prática que melhora sua performance como atleta; ele ajuda você a mudar de vida, faz enxergar que é capaz de muita coisa que nem imaginava — afirma. A mudança de perspectiva também aparece na trajetória de Daniel Barbosa, de 24 anos.

Antes, ele trabalhava em uma empresa ligada à Shopee e tinha formação técnica em refrigeração. Não imaginava que cursaria a faculdade de Educação Física.

Incentivado por Alexandre e Melo, decidiu se inscrever. — Eles foram as pessoas que mais me incentivaram a entrar para a faculdade, porque viram um potencial em mim que eu não enxergava.

Foi aí que percebi que a corrida e o esporte poderiam mudar minha vida, meus pensamentos e minhas atitudes — conta Barbosa. Hoje, além de estudar Educação Física, ele faz estágio na área de natação em águas abertas, trabalhando ao lado de Alexandre.

Antes auxiliar de expedição, ele vê na corrida uma mudança importante em sua trajetória profissional e passou a sonhar com novas possibilidades. Entre elas está montar, junto com a equipe, uma assessoria de corrida para ajudar outras pessoas a praticarem atividade física.

Alexandre enxerga na trajetória dos dois um exemplo do que o esporte pode proporcionar a moradores da comunidade. Ele acredita que as mudanças vão além dos próprios integrantes e alcançam pessoas que encontram no grupo incentivo para experimentar algo novo.

A convivência também cria laços de amizade e companheirismo: — Hoje vejo a mim e ao Daniel como um espelho que todo favelado deve seguir; eu como uma pessoa que superou suas dificuldades na vida e incentiva as pessoas, e o Daniel como uma pessoa que achou que ensino superior não fosse algo para ele, por ser de comunidade e baixa renda.

A ideia dos organizadores é ampliar as atividades e criar uma base física onde os participantes possam fazer treinamento funcional e praticar outras modalidades, como o hyrox, esporte que combina corrida e exercícios funcionais. O grupo também promove corridas com ações sociais.

Em uma delas, realizada durante o Outubro Rosa, foram arrecadados alimentos para a distribuição de cestas básicas. *Esta reportagem faz parte do especial Saúde do GLOBO-Tijuca + Zona Norte.

Publicação Original O Globo oglobo.globo.com
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