“Um galo sozinho não tece uma manhã:ele precisará sempre de outros galos.” João Cabral de Melo Neto, Tecendo a manhã
Há algo de profundamente belo na reação popular que atravessa este segundo turno. As ruas se encheram de gente, as redes ganharam o movimento de uma praça imensa, e a campanha de Lula passou a reunir vozes que se procuram, se reconhecem e se encorajam.
Em um país tantas vezes levado a desconfiar de si mesmo, essa capacidade de reencontro tem uma força que merece ser compreendida. A beleza está nessa disposição de sair do isolamento e fazer alguma coisa junto.
Uma presença se soma a outra. Uma mensagem encontra quem estava calado.
A coragem de alguém ajuda outra pessoa a vencer o desalento. Aos poucos, o que parecia uma inquietação solitária ganha a dimensão de uma vontade coletiva.
É assim que um povo se torna autor da própria história. Ao ocupar as ruas e disputar as redes, ele põe em circulação sua memória, seus desejos e sua recusa em entregar o futuro.
A campanha ganha uma energia que depende de cada participante e que nenhum comando, sozinho, consegue produzir. Essa alegria carrega uma responsabilidade.
Restam horas decisivas, e toda essa presença precisa chegar à urna. O entusiasmo deve nos aproximar de quem ainda está distante, dar persistência à conversa difícil e ajudar a transformar a esperança em votação.
A manhã que começa a clarear exige trabalho até o fim. O que está em jogo alcança o futuro do Brasil e a capacidade de resistência da democracia em um mundo pressionado pela ultradireita.
Uma derrota democrática brasileira teria consequências muito além de nossas fronteiras. Por seu tamanho e por sua influência, o país ocupa um lugar decisivo nessa disputa internacional.
A memória recente impõe atenção. O Brasil atravessou uma tentativa de impedir a alternância de poder e assistiu à violência de 8 de janeiro.
Houve uma ofensiva concreta contra a vontade popular e a ordem constitucional. A candidatura de Flávio Bolsonaro devolve ao centro da disputa presidencial a continuidade política do movimento que produziu essa ameaça.
É preciso avaliar essa continuidade pelo que pode significar na vida de cidadãos brasileiros. As liberdades existem para proteger pessoas de carne e osso.
Quando o poder tenta escapar dos controles, quem perde segurança é o cidadão que precisa de uma Justiça independente, de informação confiável e do direito de contestar uma decisão do Estado. A disposição de Flávio de radicalizar a política de segurança, tomando como referência a experiência de El Salvador, exige esse cuidado.
O apelo à força pode encontrar acolhida em uma sociedade atormentada pelo crime. Justamente por isso, a proteção das pessoas deve orientar a discussão sobre os limites da ação estatal.
Um Estado sem controle pode tornar-se outra fonte de medo. O risco autoritário alcança a porta das casas.
Pode atingir a integridade de quem sofre violência estatal, a segurança de quem depende de direitos para trabalhar e a liberdade de quem ensina, cria ou protesta. A perda das garantias que protegem essas vidas pode chegar devagar, apresentada como solução para uma urgência, até que o espaço para reagir tenha se tornado estreito demais.
Há também uma disputa pelo modo de sentir a vida em comum. A ultradireita procura fazer do medo uma forma permanente de governo e do ressentimento uma ligação entre seus seguidores.
A reação popular que vemos nesta campanha oferece outra experiência: a de encontrar força na presença do outro. Sua alegria tem valor político porque devolve às pessoas a capacidade de agir juntas.
Esse enfrentamento ultrapassa as fronteiras nacionais. O governo Trump já vinculou pressões econômicas contra o Brasil à defesa de Jair Bolsonaro e a ataques ao Supremo Tribunal Federal.
Esse episódio ajuda a compreender a dimensão da disputa: a autonomia das instituições brasileiras pode tornar-se alvo de interesses políticos organizados fora do país. A queda da linha brasileira de resistência daria à ultradireita internacional uma conquista de enorme alcance.
Ajudaria a espalhar a ideia de que a intimidação compensa e de que o poder econômico de uma potência pode servir de proteção a seus aliados políticos. Preservar a democracia brasileira importa também a quem, em outros países, enfrenta o autoritarismo.
A dimensão dessa responsabilidade cresce quando se pensa no lugar do Brasil na proteção ambiental e na construção da paz. As escolhas brasileiras sobre suas florestas, sua água e suas riquezas naturais têm consequências para as próximas gerações.
Um país capaz de dialogar e cooperar com independência pode contribuir para um mundo em que os conflitos encontrem saídas além da imposição da força. Ampliar a votação de Lula é levar às urnas o sentido desse reencontro.
Sua candidatura reúne hoje a possibilidade de manter aberto o espaço democrático, preservar direitos e prosseguir na busca de um desenvolvimento que alcance a vida da população. Essa possibilidade precisa ser sustentada por uma participação popular à altura dos riscos.
Nesse encontro cabem pessoas que continuarão discordando sobre muitos temas. Cabem críticas ao governo e cobranças por mudanças.
A liberdade de exigir mais precisa fazer parte da força dessa mobilização. A democracia ganha raízes quando o cidadão sabe que pode participar, fiscalizar e construir alternativas, inclusive diante de um governo que ajudou a eleger.
A grandeza da reação popular está também nessa capacidade de reunir diferenças. A praça permite perceber o rosto de quem caminha ao lado.
Nas redes, cada pessoa pode dar à mobilização sua própria linguagem e encontrar novos interlocutores. Essa diversidade dá vida à campanha e amplia sua capacidade de alcançar quem ainda precisa ser ouvido.
Não nos dispersemos. Há uma eleição por concluir e um trabalho de convencimento que exige generosidade, paciência e firmeza.
O esforço dessas últimas horas deve procurar quem ainda hesita, acolher uma dúvida sem humilhar quem a apresenta e explicar o que a decisão das urnas pode trazer para a vida cotidiana. As redes precisam continuar levando essa conversa adiante.
Compartilhar informação verificada, responder com clareza e abrir conversa com outras pessoas são formas de participar. A força de uma mensagem cresce quando ela ajuda alguém a compreender e decidir.
O encontro pode começar numa tela e prosseguir na rua, na conversa entre vizinhos, no caminho até a votação. A presença nas ruas também precisa continuar viva.
Ela dá corpo àquilo que, de longe, poderia parecer apenas uma disputa entre candidatos. Ali se vê uma sociedade capaz de se organizar e defender seu futuro.
Esse sentimento de pertencimento precisa acompanhar cada pessoa até a hora de votar. Ampliar a votação de Lula significa dar consequência a essa construção coletiva.
Significa fortalecer as condições em que poderemos continuar disputando os rumos do país, cobrando justiça social e protegendo a liberdade de todos. A defesa da democracia exige transformar a energia destes dias em participação efetiva nas urnas.
O povo que voltou a ocupar o espaço público mostrou que sabe responder. Agora, precisa manter unidos os fios desse encontro e levá-los mais longe.
Há outras pessoas a alcançar, outras vozes a escutar, outras mãos capazes de ajudar nessa tarefa. Cada adesão conquistada amplia o espaço da esperança.
Que a beleza dessa reação popular se prolongue em coragem e compromisso. Que a alegria das ruas ajude a vencer o cansaço dos últimos dias.
Que cada voz encontre outras vozes e faça crescer a decisão de preservar o futuro. Que nós não tenhamos o receio de sermos felizes.
Não nos dispersemos. A manhã ainda precisa de nós, como o galo, de um outro galo para tecer a manhã que se discurtina.
Brasil 247