Cinco dias depois da derrota de Flávio Bolsonaro, o deputado Nikolas Ferreira gravou um vídeo defendendo boicotes a empresários que apoiaram Lula e terminou com uma frase que resume sua visão do país. “E a crise que vivemos é, na verdade, uma crise espiritual disfarçada de crise política.
Simples assim.” Não é tão simples.
O sociólogo Mark Juergensmeyer, da Universidade da Califórnia, chamou de guerra cósmica o momento em que disputas políticas passam a ser descritas como batalhas entre o bem e o mal. Nesse enquadramento, o adversário vira inimigo de Deus.
O jornalismo costuma evitar a fé das pessoas, e faz bem. A crença de cada um pertence a cada um.
Mas quando uma afirmação religiosa sai da boca do deputado federal mais votado da história do país, eleito aos 30 anos com 3,1 milhões de votos, deixa de ser assunto privado. Nikolas tem mais de 22 milhões de seguidores no Instagram, e um único vídeo dele passou de 300 milhões de visualizações, mais que a população brasileira.
Muitos desses seguidores são jovens que veem no orador um modelo de fé e de sucesso. Diante de uma voz desse tamanho, cabe ao jornalismo apontar as nuances e os perigos do que ela afirma.
Quem fala para tanta gente precisa de maturidade para medir o peso das próprias palavras, e por isso a frase de Nikolas merece ser lida também pela psicologia. A coluna ouviu um grupo de psicólogos que preferiu não se identificar por receio de ataques nas redes.
Para alguns jovens, a fé usada como arma tem um custo concreto. Pesquisa do Trevor Project publicada no American Journal of Public Health mostrou que jovens LGBT submetidos a tentativas de mudar quem são, muitas vezes em ambientes religiosos, tinham mais que o dobro de chance de tentar suicídio.
Quem já subiu à tribuna de peruca para zombar de mulheres trans precisa saber que esses jovens também estão ouvindo. A fala dele pode aparecer, sem ser pedida, no feed de qualquer um quando impulsionada nas plataformas da Meta.
Alguns desses jovens podem estar sentados no mesmo banco da Lagoinha, a igreja que o deputado frequenta. Ainda assim, Nikolas tem razão em uma coisa.
Houve uma guerra espiritual no Brasil de 2026, mas ela não foi travada entre crentes e ímpios. O que o deputado chama de espiritual, Carl Gustav Jung chamaria de arquetípico.
Arquétipos são as imagens primordiais que moram no inconsciente coletivo e voltam à tona quando um povo se divide. Lida com os olhos de Jung, a eleição revela um embate mais antigo que qualquer partido, entre a Mãe e o Herói.
A primeira imagem a emergir foi a da Mãe. A padroeira negra achada no rio virou símbolo da disputa depois que Flávio prometeu decretar que o Brasil pertence ao Senhor Jesus Cristo, e em torno dela vieram as mulheres.
Juliette, a paraibana que venceu o BBB em 2021 confinada enquanto o país enfrentava a pandemia sob um governo que demorou a comprar vacinas, apresentou no dia 12 de outubro o episódio A Guerra à Santa, da série Revelando. Filha de pai evangélico e mãe católica, ela resumiu o incômodo que a santa provoca.
Aparecida, disse, é a mãe de uma família onde todo mundo se respeita. De longe veio a voz mais carregada de símbolo.
Madonna pediu aos brasileiros que mantivessem Lula na presidência. O nome dela vem do italiano antigo mia donna, minha senhora, o título com que a Itália chama a Virgem Maria e que batiza séculos de pinturas da Mãe com o Menino no colo.
Do outro lado estava o Herói, um Cristo guerreiro sem manjedoura, sem mãe e sem lágrimas. Esse herói tinha rosto de homem jovem, o que os junguianos chamam de puer aeternus, o eterno adolescente cheio de ímpeto e pouco enraizado.
No debate da Band, com Pablo Marçal sinalizando da plateia como num treino de coach, Flávio fez caretas atrás de Lula enquanto o presidente falava. Na Globo, chamou de nove dedos um homem de oitenta anos que perdeu o dedo numa prensa aos dezessete e teve de pedir desculpas.
Ali a máscara caiu e a sombra apareceu. A sombra é aquilo que um grupo não aceita ver em si.
Ela apareceu de forma brutal no caso de Ana Clara, menina de cinco anos morta por um tiro de fuzil em Niterói, cujo policial acusado teve Flávio entre seus advogados. No último debate, a mãe da criança estava na plateia de Lula, e Flávio a chamou pelo nome da filha morta.
Na plateia dele, o rosto mais visível era o de um coach. Na de Lula, o de uma mãe.
Nem todo evangélico se reconhece nesse retrato. Para o pastor Ed René Kivitz, se vivesse hoje, Jesus seria um homem periférico, malvisto pelo rei e pelos religiosos e amado pelo povo, que nunca mandou os discípulos tomarem o Senado romano.
O pastor Caio Fábio, fundador do movimento Caminho da Graça, há décadas lembra que o Evangelho é graça, e não projeto de poder. Os dois apontam na mesma direção.
O Jesus de palanque não é o Jesus de Nazaré. O Jesus dos Evangelhos nasceu do sim de uma mulher, chorou diante do túmulo de um amigo, acolheu crianças e lavou os pés dos discípulos.
Ao ressuscitar, apareceu primeiro a uma mulher, enquanto os homens se escondiam. Um Cristo sem mãe é um herói amputado, que tem a espada e não tem o colo.
Se o Jesus de palanque lembra alguém dos Evangelhos, são os fariseus, que oravam nas esquinas para serem vistos. Ser visto, aliás, é o ofício de Nikolas, e pela primeira vez o país viu os bastidores de um de seus vídeos famosos.
Em 20 de outubro, ele publicou O Nordeste que foi esquecido, com moradores do interior da Bahia criticando Lula. O vídeo passou de 160 milhões de visualizações, até que imagens da gravação vazaram.
Nelas, a equipe pede para tirar do quadro uma antena parabólica, por parecer moderna demais, e alguém comenta que uma moradora faz cara de coitada. Logo no Nordeste, a região que mais votou em Lula, ficou impossível não lembrar do versículo que tantos pastores repetem.
Conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará. Dias depois, seguindo conselho de Nikolas, diante das câmeras, a campanha fez sua última oração.
Nikolas sugeriu que Flávio encerrasse com um Pai-Nosso, e o candidato obedeceu. Milhões rezaram, e mesmo assim Flávio perdeu.
Por que será, deputado, que a oração falhou? Talvez a resposta esteja na própria prece, que pede seja feita a Vossa vontade. No palco, ela soou como seja feita a minha.
Se foi mesmo uma guerra espiritual, ela terminou com a vitória da Mãe. E a Mãe não guarda rancor.
O manto azul de Aparecida continua largo o bastante para cobrir também os que tentaram destroná-la. Que nenhuma vitória ou derrota política sirva de desculpa para discriminar povo trabalhador de qualquer visão política ou desprezar a fé de quem quer que seja.
O evangélico que ora de joelhos, o católico que reza o terço, o filho de santo que saúda os orixás, o judeu, o muçulmano, o espírita, o budista e quem não crê em nada merecem o mesmo respeito. A fé verdadeira não se mede em palanques nem em decretos.
Ela se revela no cuidado com o outro, na mesa repartida e na mão estendida a quem caiu. Nikolas tem 30 anos, uma das maiores vozes da política brasileira, e tempo de sobra para descobrir que a verdade que liberta não cabe em nenhum roteiro de Duda Lima.
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