Em reportagem publicada nesta sexta-feira, 23, o New York Times mostra como a polarização política em Nanuque, no interior de Minas Gerais, ajuda a explicar o avanço da direita no Brasil às vésperas do segundo turno presidencial. No município, onde Jair Bolsonaro derrotou Luiz Inácio Lula da Silva por apenas um voto em 2022, a insatisfação com o governo, as críticas aos programas sociais e a influência evangélica ajudam a explicar a força de seu filho, Flávio Bolsonaro, na disputa deste domingo, 25.
Com cerca de 35 mil habitantes, Nanuque é retratada pelo jornal americano como um reflexo das divisões do eleitorado brasileiro. Localizada no nordeste mineiro, a cidade fica em um estado historicamente considerado termômetro das eleições presidenciais.
Desde a redemocratização, Minas Gerais tem votado no candidato que acaba eleito para o Palácio do Planalto. No primeiro turno de 2026, Flávio Bolsonaro obteve em Nanuque uma vantagem de dois pontos percentuais sobre Lula, a mesma margem registrada no resultado nacional.
Segundo o New York Times, o desempenho da direita em cidades pequenas, com forte presença do agronegócio e de eleitores evangélicos, ajuda a explicar a disputa acirrada pela Presidência. Continua após a publicidade
Desgaste de Lula Nas entrevistas realizadas em Nanuque, o jornal americano identificou diferentes motivos para o afastamento de antigos apoiadores de Lula.
Entre as principais queixas estão promessas econômicas consideradas não cumpridas, os escândalos de corrupção associados ao PT e a insatisfação com os serviços públicos. Parte dos moradores também demonstra cansaço com a permanência do partido no poder.
O PT governou o Brasil durante 18 dos últimos 24 anos, e Lula, aos 80 anos, disputa seu quarto mandato presidencial. Continua após a publicidade
Bolsa Família divide eleitores O agronegócio, um dos principais motores da economia brasileira, também se tornou um foco de oposição ao governo Lula.
Empresários do setor criticam os juros elevados, as regras ambientais e medidas que, segundo eles, prejudicam a atividade econômica. Continua após a publicidade
Em Nanuque, parte das críticas se concentra no Bolsa Família, programa de transferência de renda que ajudou milhões de brasileiros a sair da pobreza. Para alguns empresários e trabalhadores ouvidos pelo jornal, porém, o benefício desestimularia a procura por empregos.
A percepção, no entanto, não é compartilhada por todos. Trabalhadores informais que complementam a renda com o Bolsa Família tendem a manter o apoio a Lula.
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As dificuldades de acesso à saúde são outra fonte de insatisfação. Embora o Sistema Único de Saúde (SUS) ofereça atendimento gratuito, moradores relatam longas filas para consultar especialistas e a necessidade de viajar para outras cidades em busca de tratamento.
Continua após a publicidade Religião fortalece a direita
Além do desgaste com o governo, a influência evangélica ajuda a explicar a força do bolsonarismo em Nanuque. A proporção de brasileiros que se declaram evangélicos triplicou desde 1991, e segmentos dessas comunidades têm afinidade com pautas conservadoras, sobretudo em temas como aborto e homossexualidade.
A cidade tem dezenas de igrejas evangélicas, presentes tanto em bairros ricos quanto em áreas mais pobres. A legislação brasileira proíbe líderes religiosos de fazer propaganda eleitoral em cultos, mas o bispo afirma que é possível transmitir valores conservadores alinhados às posições de determinados candidatos.
Em uma cidade sem shopping center ou cinema, as igrejas também funcionam como espaços de convivência. Para o jornal americano, a presença dessas instituições ajuda a entender como religião, insatisfação econômica e rejeição ao governo se combinam em um ambiente favorável à direita.
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