247 – O engenheiro de softwares turco Orkut Büyükkökten lidera uma mobilização global para reativar a rede social criada por ele nos anos 2000, apostando em um ecossistema voltado para laços interpessoais autênticos em oposição à lógica de engajamento predatório das grandes corporações de tecnologia.
A iniciativa ganha força por meio de uma petição digital que reúne mais de 470 mil assinaturas em 165 países, tendo os internautas brasileiros como a principal força do movimento, representando 61,6% das adesões, informa a Folha de São Paulo. Em manifesto veiculado junto ao abaixo-assinado, o desenvolvedor denuncia o rumo tomado pela indústria tecnológica nas últimas duas décadas, acusando-a de projetar algoritmos desenhados para viciar, dividir e comercializar a atenção do público, especialmente dos jovens.
Esse cenário, segundo ele, foi agravado pela disseminação de inteligência artificial, automação por robôs e conteúdos sintéticos manipulados. Como alternativa, a nova versão do serviço pretende restaurar o protagonismo das comunidades, espaço em que o usuário atua como participante ativo, contrastando com a dinâmica dos fluxos contínuos de publicações das redes concorrentes, onde o público é reduzido à mera plateia.
O projeto de reformulação inclui a intenção de reincorporar jogos populares que marcaram a história do serviço, como Buddy Poke, sob a premissa de que dinâmicas lúdicas fortalecem laços comunitários. Após deixar o Google — empresa que encampou a plataforma até seu encerramento em 2014 para priorizar o Google+ —, Büyükkökten recuperou os direitos de propriedade intelectual e da marca no final do ano passado, permitindo a articulação de um retorno oficial, cuja data dependerá da capacidade de captação de recursos impulsionada pelo apoio popular.
No tocante ao ecossistema político e aos pleitos eleitorais, o fundador teceu duras críticas à atuação de gigantes do setor e alertou para os riscos do uso tendencioso dos sistemas de recomendação em democracias, destacando os cenários observados no Brasil e nos Estados Unidos. “Isso é muito assustador, porque a Meta favoreceu Trump nas eleições dos Estados Unidos.
Não estou dizendo que a Meta favoreça algum candidato no Brasil, mas é muito danoso quando uma plataforma toma partido. Ela deveria ser imparcial, porque quem deve decidir são os usuários.
Se a plataforma ajuda a espalhar desinformação e fake news, pode polarizar o resultado. Alguém pode ser eleito com base em mentiras, e é assim que a democracia é arruinada”, declarou o engenheiro.
Apesar das críticas sobre o impacto das redes nas disputas partidárias e na saúde pública, o criador posicionou-se contra a intervenção direta dos governos na regulamentação dos meios digitais, defendendo a auto-responsabilização corporativa combinada com a checagem rigorosa de fatos.
“Liberdade de expressão é muito importante, mas há linhas que não se pode cruzar: notícias falsas, desinformação, tráfico, violência armada, pornografia infantil e discurso de ódio político. Isso prejudica a democracia e a própria base de usuários.
Uma das coisas que aconteceram no passado é que as plataformas pararam de fazer checagem de fatos. E não foi só checagem sobre democracia e política, foi sobre tudo.
Isso faz muito mal à democracia. Se você pensar nas eleições dos Estados Unidos, o Facebook teve um impacto enorme sobre quem foi eleito, e boa parte disso foi causado por desinformação.
Muita dessa desinformação vem de agentes estrangeiros, com fazendas de bots e IA”, enfatizou. Questionado sobre a viabilidade de um controle governamental sobre os meios de comunicação digital, Büyükkökten argumentou: “não acredito que o governo deva regular as plataformas.
O governo muda de política dependendo de quem está no comando. A política dos Estados Unidos mudaria completamente se fosse Donald Trump, Kamala Harris ou Joe Biden, por exemplo.
Não dá para confiar a quem estiver no poder a tarefa de regular. É o mesmo no Brasil: dependendo de quem for o próximo presidente, haverá consequências para o país inteiro e para as redes sociais, e não se quer que ele tenha esse poder”.
Para o desenvolvedor, a solução reside em exigir que as empresas estruturem mecanismos internos de controle e moderação: “não acho que o governo deva regular as plataformas, mas as empresas devem ser responsáveis por ter as ferramentas necessárias. Por exemplo, as redes sociais deveriam ter equipes que façam checagem de fatos.
Devem garantir que não haja polarização política, desinformação e ódio que prejudiquem comunidades ou indivíduos. As empresas precisam ter essas ferramentas funcionando e ser responsabilizadas”.
Confrontado com o debate sobre se o Orkut teria lançado as bases para o modelo de negócios atual da internet, o pioneiro rejeitou a responsabilidade pelas distorções do mercado, atribuindo a degradação do ambiente virtual à busca irrestrita pelo lucro e ao impacto social decorrente da monetização da raiva.
“Talvez. Sou um dos pioneiros da web e éramos todos otimistas.
Cada decisão que tomei no Orkut, de design, de produto, técnica, era para deixar os usuários mais felizes e mais conectados. Já as outras plataformas passaram a otimizar o engajamento, e quando se faz isso acaba-se otimizando ódio, indignação e desinformação, que disparam emoções e se espalham mais rápido.
Não me sinto responsável, porque nunca tivemos esse tipo de otimização, e o Orkut foi um lugar feliz até o Google desativá-lo. Mas fico muito triste ao ver o dano que as redes causaram, como a epidemia de solidão e os problemas de saúde mental”, refletiu.
“A geração Z e a geração Alpha passam tanto tempo nas redes que não sabem se comunicar nem fazer amigos, e agora conversam com companheiros de IA. No início isso alivia a solidão, mas, com o uso ao longo de meses, deixa a pessoa mais sozinha e mais deprimida”, acrescentou.
Em relação à sustentabilidade financeira do novo projeto sem o modelo tradicional de exploração de dados para anúncios baseados em tempo de tela, Büyükkökten apontou para um formato integrado ao comércio local e aos Pequenos negócios. “Hoje a otimização é em torno de engajamento, ou seja, tempo de uso, número de sessões e alcance, porque mais engajamento significa mais cliques em anunciantes e mais lucro.
Nós temos uma otimização totalmente diferente, voltada para felicidade, conexão, positividade e comunidade. Marcas e empresas são parte importante do nosso ecossistema, todos temos marcas de que gostamos, e eu quero poder ter conversas significativas sobre elas.
Isso desapareceu com a otimização excessiva em torno de lucro. Antes havia comunidades de marcas no Orkut, depois vieram as páginas do Facebook, que ninguém usa mais, porque virou uma questão de quanto mais dinheiro a empresa gasta, mais engajamento consegue.
É assim que se destrói um recurso: otimizando-o para o dinheiro, e não para o consumidor. No novo Orkut, pequenos negócios e marcas farão parte da plataforma.
Pense na cafeteria que você visita todo dia a caminho do trabalho: ela forma uma comunidade, e esse tipo de interação significativa queremos levar para o ambiente online”, concluiu.
Brasil 247